Tasso Marcelo/AE
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A tristeza de Diderô

Trem enguiça e estoura um quebra-quebra. A polícia ataca com gás de pimenta e uma sinistra pistola de choque. 'Não parece a mesma polícia das UPPs, aplaudida da academia ao programa da Hebe', reflete historiador

JOEL RUFINO DOS SANTOS*,

11 de fevereiro de 2012 | 17h37

Diderô, meu gato, anda triste de uns dias pra cá. Pouco sai do seu canto, olha tudo como se fosse a última vez. Sei a razão. Comentei com ele as notícias de quatro grandes jornais e, não bastasse, chamei-o para ver o Jornal Nacional.

Há, primeiro, o caso dos haitianos. Mais triste que a semiproibição de sua entrada são as justificações das autoridades. Qualquer governo no Brasil tenderá para o centro - e isso pode ser uma vantagem. Mas, francamente, gemeu meu gato, estou lembrando a política de imigração do Estado Novo. Proibir imigrantes não-caucasianos em nome de nosso futuro.

Temos medo, também, pela ausência no noticiário da Comissão da Verdade. O tempo entre a instalação e a nomeação dos seus membros assusta. O que a presidente tanto rumina? Ou negocia? Eu e Diderô sabemos que a arte da política é a negociação, mas tememos que a presidente tropece numa barreira anterior a esta, a conciliação. Aliás, a concessão aos criminosos da ditadura já está feita: não serão punidos e os crimes da esquerda terão, igualmente, de ser mostrados.

As notícias de economia até têm sido boas. As de política, estrito senso, idem. Tristíssimas são as de sociabilidade, ou de civilização, como prefere Diderô. O campo da sociabilidade é o maior de todos, abrange nossas relações de família, e quem diz família diz sexualidade; nossas lealdades, e quem diz lealdade diz senso moral e a melhor vertente desta, me lembra Diderô, é responsabilidade social com os mais fracos. De onde sacou esta?, pergunto a meu gato. Do falecido Cante, que você trouxe do depósito junto comigo, esqueceu?

E andávamos otimistas! Há quinze dias, já de madrugada, paramos num posto da Petrobrás para abastecer e tomar um refrigerante. Do outro lado do balcão estavam três policiais do Bope. Trememos, eu e Diderô, nos fingindo de mortos (sic). Um deles abriu um pacote de linguiça e pediu à balconista, desses tipos que parecem levarão a fome do berço ao cemitério, que fritasse. O cheiro irresistível começou a tomar o ambiente. De onde teria vindo aquela linguiça? De que trabalhador a teriam tomado numa rua escura? A balconista veio com um pratinho pra nós. Não pedimos nada. Eu sei, é uma oferta daqueles moços ali. Os do Bope nos olhavam com amizade, um chegou a dar aquele beijo de mãos em concha que se traduz mais ou menos como "está maravilhoso".

De novo dentro do carro, lembrei a Diderô a loucura de Jean-Jacques, mas ele não sonhava em nascer. Na intensa agitação pré-64, esse companheiro do Partidão apareceu numa passeata com panfletos para distribuir aos policiais que nos esperavam com cassetetes e bombas de gás. Tenho certeza, dizia, que se lerem não nos atacarão. E o que diz o panfleto? Apenas isso: vocês são filhos do povo como nós. Jean-Jacques teve o privilégio da primeira bordoada.

Em dois dias passamos da indignação à tristeza. Eis-nos aqui, e eu nem rabo tenho para enfiar a cara. Na Bahia, o Exército e a Força Pública usam como estratégia para render os amotinados da Polícia Militar cortar água e comida. Diderô me pergunta se não é recurso de guerra. No Leblon, bairro de mais alto IDH do Rio, um grupo que incluía um médico espancou violentamente uma guardadora de carro, sob alegação de que ela quebrara um retrovisor. Dia seguinte, um trem da Central enguiça, os que iam para o trabalho tentam sair do calor, do medo de acidente, da perda de emprego. Imaginem que a saída não foi ordeira (sic). Quebraram-se janelas, bancos, roletas. A polícia os atacou com gás lacrimogêneo, gás de pimenta, balas de borracha e uma sinistra pistola de choque. Não parece a mesma polícia das Unidades Pacificadoras, regidas por Beltrame e Sergio Cabral, aplaudidas da academia ao programa da Hebe.

O que fazer? A nossa tristeza (falo por mim e Diderô) não é solução para nada. Se poderia pensar em mudar as políticas de segurança estadual e nacional. Há muitas sugestões para isso, ideias sensatas e modestas, grandiosas e com pretensão à originalidade. Comento com Diderô que deve haver um pulo do gato (sic) que inove no essencial a personalidade das nossas polícias. Ele me responde com o óbvio: polícias cumprem ordens, por isso seu amigo Jean-Jacques apanhou primeiro. Autoridade e policial se comunicam por códigos. Quando a primeira diz, por exemplo, seja rigoroso, o segundo lê como uma ordem para baixar o pau. Como a autoridade nunca está presente, a ordem não pode ser mudada, mesmo que a população se comporte ordeira. Lembrei também que todas as soluções apontadas, até aqui, exigem um aumento de efetivos policiais.

Íamos por aí quando Diderô me pediu para contar uma parábola.

Na China, há milhares de anos, houve uma epidemia de ratos. Ninguém acabava com ela. Um ministro propôs ao imperador: se eu acabar com os ratos, me dê o seu lugar. O imperador aceitou. O ministro procurou um famoso criador de gatos nas montanhas. Comprou um que caçava a noite inteira. Os ratos, então, só saíam de dia. O ministro voltou e, por um preço exorbitante, comprou um gato especialista em caçar de dia. Os ratos voltaram a sair à noite. O ministro voltou uma terceira vez. Olha, disse o criador, eu tenho um gato que resolverá seu problema, mas custa uma fortuna quase tanto quanto a do próprio imperador. O ministro aceitou. O gato caríssimo dormiu durante a viagem de volta. No palácio, continuou a dormir, dormiu as noites e os dias seguintes. Nada o despertava. Como num passe de mágica os ratos desapareceram para sempre.

Preciso interpretar?, me perguntou Diderô, com malícia. Como eu parecia não entender, me fez o favor de explicar.

O poder do caçador não está no tamanho, nem na especialidade. Está em nunca saberem quando vai caçar.

* JOEL RUFINO DOS SANTOS É DOUTOR EM COMUNICAÇÃO E CULTURA, ESCRITOR, HISTORIADOR E AUTOR DE A BANHEIRA DE JANET LEIGH (ROCCO)

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