Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Os sans-culottes de De Gaulle

Rebeliões buscam preencher o vazio provocado pela inflexível Constituição do general francês

Gilles Lapouge,

28 de dezembro de 2013 | 16h00

Franceses são tradicionalistas - e um de seus rituais favoritos é a manifestação. De tempos em tempos eles invadem as ruas, agitam bandeiras e chamam os ministros de idiotas. É o que vêm fazendo há alguns meses.

Já na Idade Média os camponeses pegavam seus forcados e saíam às ruas para atemorizar seus senhores. Mais tarde os forcados foram substituídos por lanças. E, na ponta das lanças, as cabeças de aristocratas. Foi o que fizeram em julho de 1789: a Revolução Francesa começava.

Não há mais lanças nem cabeças de aristocratas, mas há um ano os acessos de cólera tomaram as ruas. O mais violento, que abriu o baile dos descontentes, foi o dos adversários do casamento homossexual autorizado pelo poder socialista.

Apesar de o governo não ter voltado atrás, a campanha contra o "casamento para todos" foi um sucesso. Durante meses as ruas das cidades foram tomadas por milhões de indignados que rejeitavam o casamento homossexual e a procriação assistida. Manifestações inusitadas. Em geral quem se manifesta nas ruas é a esquerda, os proletários, os comunistas, os sindicalistas. No caso do "casamento para todos", foi a direita - a extrema direita, bem entendido, mas também a direita moderada, as famílias tradicionais, a burguesia, os cristãos e até alguns socialistas moralistas. A revolta política bebia na fonte da revolta moral.

A direita não tem muita experiência de rua. Ela é uma especialidade da esquerda, que é diplomada na matéria. Suas palavras de ordem são claras, ditadas por verdadeiros profissionais, os sindicatos, com apoio policial, disciplina, slogans, palavras de ordem, cerveja, grandes sanduíches, etc.

A direita, pois, teve de aprender rapidamente a profissão de agitadora. No início estava desordenada e tímida. Depois tomou gosto. A cada oportunidade saca suas trombetas e atrai uma enorme multidão. O sucesso levou outras categorias sociais a se lançarem na briga. E há um ano as revoltas têm prosperado maravilhosamente.

Um movimento de sucesso foi o dos "gorros vermelhos", que irrompeu na Bretanha. O pretexto? O poder socialista planejava cobrar uma "ecotaxa", que aliás foi idealizada pelo governo de Sarkozy e cujo princípio era um imposto cobrado dos caminhoneiros contra a poluição dos caminhões.

Os agricultores da Bretanha ficaram furiosos, sentindo-se lesados por esse novo imposto. A Bretanha fica distante dos grandes circuitos e necessita do transporte rodoviário para escoar sua produção de frangos e porcos. A revolta rapidamente extrapolou em termos de reivindicação e os "gorros vermelhos" passaram a protestar contra todas as injustiças sociais e econômicas das quais a região se sente vítima.

A maioria dos jornais nos explicou que, à época da Revolução Francesa, os bretões que se revoltaram contra os parisienses eram reconhecidos pelo seus gorros vermelhos. Na verdade, trata-se de um erro crasso. Os jornalistas franceses adoram a história, mas a conhecem mal. Os camponeses bretões que, eles sim, conhecem verdadeiramente sua história, fizeram a retificação: a "revolta dos gorros vermelhos" não ocorreu em 1789, durante a Revolução Francesa, mas em 1675, quando os bretões se rebelaram contra o ministro do rei Luís XIV, Colbert, um sujeito muito eficiente, azedo e de péssimo humor que quis impor o uso de papel timbrado nas transações. Um erro de mais de um século, mas nada grave... O gorro vermelho deu resultado.

Compreendemos assim que um movimento fora do contexto político normal (direita contra esquerda) e das organizações poderosas (partidos políticos, sindicatos, etc.) precisa, para não desaparecer, encontrar um nome relevante. Como os ciclones, batizados de Chantal, Gabrielle, Melissa; ou as campanhas militares das quais a intimidação faz parte: Operação Chumbo Derretido, Tempestade no Deserto.

Eis porque, há alguns meses, todos os enfurecidos buscam nomes bonitos para suas revoltas. E, como a França é uma nação de agricultores, embora seja uma classe em desaparecimento, os nomes escolhidos habitualmente têm sido de animais de fazenda.

No final de setembro de 2012 vimos a eclosão dos pigeons (pombos), pequenos empresários do setor de tecnologia que protestaram contra a decisão do governo de aumentar de 32% para 60% a taxa sobre os ganhos de capital de investidores e empreendedores. Hollande recuou. Em maio de 2013, os poussins (pintinhos) entraram em cena. Rejeitavam a reforma do estatuto dos empreendedores autônomos. O poder socialista disse que iria pensar a respeito.

No meio do ano chegaram os tondus (tosquiados), em greve contra o pagamento dos encargos sociais que estrangulam pequenos empresários. No final de agosto, os plumés (depenados) se uniram numa associação de patrões exasperados com as minúcias dos controles administrativos.

O termo plumé coincide, por acaso, com uma reflexão feita no século 17 pelo mesmo Colbert, ministro de Luís XIV, que explicou a arte do imposto: "Trata-se de depenar o ganso de maneira a obter o máximo possível de penas com o mínimo de gritos".

Devemos reconhecer que Hollande não tem talento para depenar o ganso. Basta criar um imposto e a França inteira cacareja, bale, urra, grunhe, grasna, arrulha, ladra. As cicognes (cegonhas - parteiras) se juntaram para exigir modificações do seu estatuto; os dindons (perus) eram os pais hostis às mudanças de horário das escolas.

Recentemente, os revoltados perceberam que o filão animais de fazenda começou a se esgotar. Por exemplo, um protesto dos moutons (carneiros) foi um fracasso. Decidiu-se então voltar às cores: vieram os bonnets bleus (gorros azuis), os policiais descontentes; o vert (verde), que reuniu os insatisfeitos com o transporte público; o noir (negro), os grupos contrários à reintrodução de lobos nas florestas da França.

No início de dezembro uma nova revolta agitou os clubes hípicos contra o aumento do IVA (Imposto sobre Valor Agregado). Os birrentos poderiam se chamar simplesmente "pôneis em cólera", mas preferiram também adotar uma cor, o laranja.

A última tendência abriu um novo campo léxico. Em 9 de dezembro os profissionais liberais denunciaram os impostos escorchantes que lhes são cobrados. E se deram um nome: les asphyxiés (os asfixiados). Outro movimento nasceu no dia seguinte sob o nome de les étouffés (os sufocados). Confesso que não sei o que os sufoca.

Se é o caso de apontar o responsável pelas desordens, eu citaria, além de Hollande, dos patrões, dos camponeses bretões ou dos pôneis mal-humorados, o verdadeiro guru: o general de Gaulle.

Charles de Gaulle chegou ao poder em 1958. Logo em seguida colocou em votação uma nova Constituição, que ainda rege o país. E essa Constituição é uma fortaleza. Tudo é dirigido pelo presidente da república, eleito por sufrágio universal, que nomeia seu premiê e demais ministros e não pode ser destituído (salvo em casos raros). Portanto, Hollande governará tranquilamente até o fim do mandato (2017), não importando seus méritos ou deficiências, por mais furor que isso possa provocar.

Antes do general De Gaulle, se um primeiro-ministro fosse considerado irracional, um voto do Parlamento o destituía rapidamente e outro era eleito pelos deputados. Claro que esse procedimento punha em risco a autoridade do Estado, mas dava à república a flexibilidade que a Constituição de De Gaulle tornou impossível.

Eis por que os insatisfeitos, cientes de que conviverão com Hollande por mais três anos, sem esperança de derrubá-lo, escolheram a ação direta e a todo momento criam pombos, asfixiados, gorros vermelhos ou pretos, para realizar nas ruas um exercício político que a Constituição baniu do seu ambiente normal, o Parlamento, com sua Câmara de Deputados e Senado.

Uma expressão popular diz que nas manifestações de rua o cidadão "vota com os pés". É exato. Mas sem dúvida seria melhor votar com o cérebro. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.