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Opinião|A resiliência como resposta às inundações no Rio Grande do Sul

Não se trata apenas de sobreviver a um desastre, mas também de aprender e se adaptar a ele para que futuras ameaças tenham um impacto reduzido

Por Márcio H. Giacomoni

As inundações catastróficas no Estado do Rio Grande do Sul mostram, de maneira dolorosa, a vulnerabilidade das cidades, do meio rural e da infraestrutura às forças da natureza. Com perdas humanas imensuráveis e perdas materiais ainda não estimadas, essas tragédias nos obrigam a refletir sobre como nos preparar melhor para enfrentar eventos meteorológicos extremos que se tornam cada vez mais frequentes devido às mudanças climáticas. O conceito de resiliência emerge como um caminho relevante e oportuno para a construção de um futuro mais seguro e sustentável.

Resiliência é a capacidade de um sistema, seja ele uma cidade, uma comunidade ou um ecossistema, de absorver choques e ainda manter suas funções essenciais, ou restaurá-las o mais rápido possível. Não se trata apenas de sobreviver a um desastre, mas também de aprender e se adaptar a ele para que futuras ameaças tenham um impacto reduzido. A resiliência envolve planejamento, infraestrutura adequada, políticas públicas eficazes e, principalmente, uma mudança na forma de relacionamento com o meio ambiente.

No caso do Rio Grande do Sul, a resiliência pode ser fortalecida de várias maneiras. Primeiramente, é essencial investir em infraestrutura que possa suportar eventos climáticos extremos. Os investimentos compreendem medidas estruturais, como diques, comportas, casas de bombas, reservatórios, canais e drenagem. Informações da imprensa, mídia sociais e estudos de especialistas em recursos hídricos indicam que o sistema de proteção da Região Metropolitana de Porto Alegre foi bem dimensionado, mas falhas na sua manutenção impediram o correto funcionamento no momento mais necessário. Nesse sentido, realizada uma avaliação rigorosa por parte do poder público e de outros órgãos da sociedade civil, o mesmo deverá ser melhorado sem significativas e custosas alterações físicas, e sim por meio de medidas pontuais visando a fortalecer o sistema, por exemplo, os diques nos Rios Gravataí e Sinos que extravasaram e as comportas e casas de bombas. Em outras regiões do Estado, estudos hidrológicos e de viabilidade específicos deverão apontar as melhores soluções.

Escrevo este artigo para enfatizar que cidades e comunidades resilientes requerem não só medidas estruturais. Aqui destaco quatro medidas que julgo muito importantes. A primeira é o mapeamento das áreas de risco. Nos Estados Unidos, a Agência Federal de Gestão de Emergências (Fema) trabalha com municipalidades e condados para atualizar os mapas de planícies de inundação de forma sistemática. Por regulação, esses mapas mostram as áreas com risco de inundação baseados no clima do passado. Por causa das mudanças climáticas, uso do solo e da infraestrutura, esses riscos estão mudando rapidamente, o que reforça a necessidade de atualização dos mapas recorrentemente.

Uma segunda medida não estrutural é a implantação de sistemas de previsão e alertas em tempo real. O Brasil dispõe de tecnologias avançadas para fazer previsões meteorológicas e hidrológicas (previsões espaciais e temporais da magnitude de níveis dos rios por exemplo) de forma a alertar os órgãos do poder público e as populações que possam ser afetadas por inundações. Há a necessidade de expandir esses sistemas para todas as comunidades, especialmente as localizadas em áreas de maior risco. Associado a isso, há a necessidade de educar a população sobre como se comportar quando um alerta é emitido e, em casos extremos, como o atual, desenvolver um sistema de evacuação em que as pessoas saibam quando sair de casa e para onde ir.

Uma terceira medida não estrutural muito importante é a melhoria no controle e uso do solo. Uma vez mapeadas as áreas de risco, o poder público local pode tomar melhores decisões sobre quais áreas poderiam ser ocupadas e quais áreas deveriam ser desocupadas por apresentarem um alto risco de inundação. Uma tendência mundial é a criação de parques lineares paralelos a rios e córregos que podem ser utilizados pelo público para fins de recreação e, também, para a manutenção de ecossistemas. Esses parques, localizados em áreas ribeirinhas, serão inundadas durantes eventos de cheias, mas facilmente restaurados após a passagem das águas.

A quarta medida não estrutural é a adoção de seguros contra inundações. Propriedades e negócios que não possam ser realocados devem comprar seguros para que recuperem parte das perdas econômicas se um evento de cheia ocorrer. Para que os sistemas de seguro funcionem de forma eficiente, a quantificação dos riscos individuais de cada segurado é muito importante, o que reforça a necessidade do mapeamento das áreas de riscos.

Importante destacar que um programa de seguro contra inundações deve ter abrangência nacional, assim como o existente nos Estados Unidos.

Por fim, é importante reconhecer que as mudanças climáticas são uma realidade e que seus impactos tendem a se intensificar. Portanto, a resiliência deve ser uma prioridade em todas as esferas da sociedade. Investir hoje em resiliência significa salvar vidas e recursos no futuro, construindo comunidades, cidades e regiões mais fortes e preparadas para enfrentar os desafios climáticos.

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PROFESSOR ASSOCIADO DA ESCOLA DE ENGENHARIA CIVIL & AMBIENTAL DA UNIVERSIDADE DO TEXAS, EM SAN ANTONIO

Opinião por Márcio H. Giacomoni

Professor associado da Escola de Engenharia Civil & Ambiental da Universidade do Texas, em San Antonio