Ótimo plano, péssimo planejamento: os desafios de Brasília após 57 anos

Construída na década de 1950, fundadores não previram o grande crescimento da população e cidade hoje enfrenta problemas semelhantes a de outras capitais do País

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Foto do author Ludimila Honorato
Plano Piloto mascara realidade das cidades satélites; DF tem problemas semelhantes ao de outros grandes centros urbanos brasileiros. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O estudante Antônio Crivelaro, 21 anos, chegava a perder 3 horas do dia em longos trajetos de ônibus entre Ceilândia, onde mora, até a Universidade de Brasília (UnB). A distância foi uma das razões que fizeram o jovem abandonar o curso. “Quem consegue se formar morando longe é guerreiro”, brinca.

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Atualmente, ele estuda no Centro Universitário de Brasília, em Taguatinga, e seu tempo no transporte caiu pela metade. Ele aproveita para ouvir um áudio livro ou ler em pé, mas nem sempre foi assim. “Só consegui chegar a isso depois de passar muita raiva e estabelecer algumas prioridades”, explica. A distância é um desafio diário.

Crivelaro é apenas um dos muitos brasilienses que acabam se desgastando por depender do transporte público da capital federal. A estudante Letícia Marques, 21 anos, mora no Guará e estuda na Universidade de Brasília (UnB), no Plano Piloto. Para chegar à aula às 8h da manhã de ônibus, tem de sair de casa às 6h30. De carro, o percurso leva 30 minutos.

Até nas horas de lazer, é difícil se locomover pela cidade. “Andar a pé ou de bicicleta aqui é difícil. Parece que a cidade não foi projetada para atender as pessoas menos favorecidas”, diz a jovem que se mudou de Minas Gerais para Brasília em 2014.

A cidade tem 1,5 milhão de automóveis Foto: André Dusek/Estadão

Segundo o professor de finanças públicas da UnB, Roberto Piscitelli, a configuração da cidade dificulta a existência de um sistema de transporte integrado, eficiente e econômico. “Há certas ilhas e áreas de concentração. O deslocamento não é padrão e contínuo como em São Paulo”, compara.

A administradora Reiko Nakayoshi, 43 anos, nasceu em Brasília e diz que o Plano Piloto não mudou muito com o tempo, principalmente pelo fato de a cidade ser tombada. Mas o trânsito e o crescimento desordenado são evidentes para ela. “No entorno, o crescimento foi gigantesco. Acho que se Juscelino (Kubitschek) visse como ficou o Distrito Federal, não acreditaria”, diz.

Ela cresceu na Asa Sul, mas atualmente mora com os três filhos no Gama, a cerca de 32 quilômetros do Plano. Depois da mudança, ela diz que sua qualidade de vida melhorou bastante. Reiko gastava muito tempo no carro e raramente encontrava lugar para estacionar. A disputa por vaga era entre os cerca de 1,5 milhões de automóveis espalhados por Brasília.

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Como forma de melhorar a mobilidade urbana, o governo da cidade informou em nota que está construindo e reformando terminais rodoviários - 16 já foram entregues de um total de 18. Obras como construção de viadutos e aumento da malha cicloviária estão previstas.

Plano sem planejamento. O professor emérito da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB, José Carlos Coutinho, considera que a maior parte dos problemas de Brasília está relacionada à falta de planejamento. "A cidade é um ótimo exemplo de plano, mas um péssimo exemplo de planejamento", afirma. Aos 82 anos, Coutinho mora em Brasília há 49 e é cidadão honorário da cidade.

Ele explica que não houve uma visão para o crescimento futuro de Brasília e da população, o que resultou no afastamento dos menos favorecidos. Segundo Coutinho, a cidade tem níveis de vida próximos aos da Europa no Plano Piloto e condições extremamente desfavoráveis a poucos quilômetros dali.

95 mil pessoas vivem na comunidade Sol Nascente Foto: Dida Sampaio/Estadão

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Um exemplo é a comunidade Sol Nascente, uma das maiores da América Latina, com 95 mil habitantes. Ali, as condições de higiene são precárias, o asfalto, quase inexistente, e a maior parte das casas está em terrenos irregulares. "O planejamento deveria ter acompanhado o crescimento da cidade e ter tentado se antecipar aos problemas que surgiriam", afirma o urbanista.

Segundo o governo, áreas carentes como a da Sol Nascente estão recebendo redes de esgoto, de águas pluviais e pavimentação. A administração afirma também que está combatendo a grilagem e legalizando lotes - entregou 25 mil escrituras na gestão atual.

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