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Extremistas não sabem como defender Bolsonaro e abrem brecha para esquerda, diz pesquisadora

Socióloga afirma que grupos bolsonaristas minimizam relevância da investigação do caso das joias e que adversários do ex-presidente podem explorar o tema

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Foto do author Vinícius Valfré
Atualização:
Foto: Arquivo pessoal
Entrevista comEsther SolanoDoutora em ciências sociais, professora da Unifesp e especialista em estudos da extrema-direita

BRASÍLIA - O efeito político para o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) do caso da venda das joias não é tão devastador quanto pode parecer. A eficácia da comunicação bolsonarista permite que mesmo entre grupos mais moderados prevaleça uma avaliação de que o escândalo é menos grave do que outros que marcaram os governos petistas, o que acaba por gerar uma sensação de “perseguido pelo sistema”.

As constatações são da professora da Unifesp Esther Solano, doutora em ciências sociais, especialista em pesquisas de opinião pública e em estudos sobre a extrema-direita e organizadora dos livros “The Bolsonaro paradox” (Springer, 2021), “The right in the Americas " (Routledge, 2023).

Esther Solano observa que nos grupos focais que tem conduzido em pesquisas sobre o bolsonarismo, apoiadores mais radicais começam a parecer em dúvida sobre como reagir às acusações. Essa dúvida, na visão dela, pode ser uma “janela de oportunidade” para o campo democrático, que tem dificuldades para conseguir espaço em temas que a extrema-direita monopolizou na política.

Confira a entrevista:

O caso das joias tem potencial para comprometer a imagem que Bolsonaro tenta construir para si, de símbolo de moralidade e de imune à corrupção?

O caso das joias tem a capacidade de mobilizar um público que já tinha descontentamento, uma frustração, uma crítica ao Bolsonaro. Mas não tem a capacidade por si só de gerar uma imagem do Bolsonaro corrupto, a não ser que o campo democrático mobilize uma narrativa da seriedade do escândalo das joias. Se o campo democrático não conseguir formular isso com potência comunicativa, não vai gerar nenhuma massa crítica ao bolsonarismo. Com a inexigibilidade de Bolsonaro, não conseguiu. Há uma narrativa muito forte consolidada no campo bolsonarista radical, que também contamina os moderados, de que Bolsonaro pode até ter falhas, erros, talvez até desvios, mas que há de fato uma ‘vendeta’ do sistema contra ele.

O que os últimos acontecimentos têm indicado junto àqueles mais radicais?

Há uma coisa interessante começando a aparecer em grupos focais de bolsonarista mais radicais. Estamos percebendo um certo nervosismo, estão começando a pensar que alguma coisa errada estava acontecendo com o Bolsonaro. Talvez uma mudança de percepção ou pelo menos uma dúvida. E estão um pouco desnorteados e confusos. Há uma janela de oportunidade para o campo democrático por causa desse nervosismo. Quando a gente conversa com os mais radicais, sempre tem um discurso coeso, com a mesma retórica, muitas vezes até a mesma semântica. E quando vemos eles um pouco nervosos, há uma oportunidade para o campo democrático.

Por que nesses grupos Bolsonaro é associado à corrupção tão rapidamente?

Há uma narrativa de que ele não é perfeito, comete erros, desvios, mas está sendo perseguido politicamente e juridicamente. E a segunda grande questão é a ideia da proporcionalidade, uma ideia de que pode ser um escândalo, mas que houve escândalos maiores como o Mensalão e a Lava Jato. O poder retórico do lavajatismo foi tão poderoso que qualquer escândalo se compara a ele. A construção desse arco narrativo de Bolsonaro como um personagem corrupto não está sendo feito pelo campo democrático com a calibragem que deveria.

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Que imagens o campo democrático não explora, na sua visão?

Há duas imagens de Bolsonaro sendo construídas agora, conforme as pesquisas que temos feito. A primeira é o Bolsonaro corrupto. A segunda é o Bolsonaro golpista. As duas devem ser construídas em paralelo porque as investigações apontam nas duas investigações. Se eu tivesse que colocar minhas fichas em uma delas, seria na do corrupto. Já medimos muito a ideia do golpista, fascista, antidemocrático. É uma ideia um pouco abstrata, que não captura percepções concretas das pessoas, está longe do cotidiano delas. Em 2017, quando entrevistava bolsonaristas e perguntava o que fariam eles desistirem dele, a única coisa que diziam era: ele ficar contra a família, aprovando aborto, por exemplo, e a segunda é se comprovasse que é de fato corrupto. O político supostamente honesto se transfigurar em uma figura corrupta é muito potente.

O que os bolsonaristas fazem melhor do que outros segmentos que explica o fato de as mensagens deles terem mais alcance e impacto?

O bolsonarismo é fundamentalmente comunicativo. Sabe que o seu substrato mais potente é justamente a luta simbólica, a luta pelas pautas que a gente tradicionalmente chama de ‘costumes’, mas que não são exatamente de costumes. São pautas simbólicas, da luta política, dos símbolos, pelas palavras, pelas ideias, pelas ideologias, etc. E isso se mostra muito eficaz nessa disputa da comunicação. Então o bolsonarismo, assim como outros grupos da extrema-direita mundial, se articulam na comunicação, elemento central para eles. Eu diria que hoje se a gente compara um pouco o governo e o ecossistema bolsonarista, o governo pode ter ido bem na pauta econômica, mas o ecossistema bolsonarista vai melhor na disputa simbólica política. Na disputa pelos valores, pelos afetos, pelos símbolos. Aí eles encontram o seu maior potencial.

O que os bolsonaristas fazem melhor do que outros segmentos para que ele consiga esse monopólio de temas?

O bolsonarismo é fundamentalmente comunicativo. Sabe que o seu substrato mais potente é justamente a luta simbólica, a luta pelas pautas que a gente tradicionalmente chama de ‘costumes’, mas que não são exatamente de costumes. São pautas simbólicas, da luta política, dos símbolos, pelas palavras, pelas ideias, pelas ideologias, etc. E isso se mostra muito eficaz nessa disputa da comunicação. Então o bolsonarismo, assim como outros grupos da extrema-direita mundial, se articulam na comunicação, elemento central para eles. Eu diria que hoje se a gente compara um pouco o governo e o ecossistema bolsonarista, o governo pode ter ido bem na pauta econômica, mas o ecossistema bolsonarista vai melhor na disputa simbólica política. Na disputa pelos valores, pelos afetos, pelos símbolos. Aí eles encontram o seu maior potencial.

As pautas de costumes ou simbólicas devem ter mais peso no debate político?

Quando falamos de pautas simbólicas, são pautas que poderíamos denominar existenciais. Não dizem respeito a coisas superficiais ou tangenciais na vida das pessoas. São questões vitais, essenciais, como sentimento de abandono, de descartabilidade, da velocidade do mundo acelerado hipercomplexo em que as velhas hierarquias sociais estão de cabeça para baixo, medos, sentimentos de perda. Esses sentimentos são denominados como pautas morais, de costumes, mas são muito mais abrangentes e estruturantes.

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O governo novo, autointitulado mais progressista, falha em que tipos de conexões e mensagens? Em que casos, por exemplo, houve equívocos?

O campo progressista e o campo democrático, de forma geral, têm um erro de cálculo. Há uma visão do campo democrático de que uma visão do campo da política, da economia, das políticas públicas, gerando emprego, estabilidade renda igualdade, de que isso será suficiente para retomar a confiança das pessoas. A extrema-direita mundial demonstrou que a luta simbólica pelos afetos, pelas questões de confiança, de sentimento, de frustração, os grandes desafios da contemporaneidade que se traduzem muito em afetos pessoais, no sentimento de abandono, na frustração com o sistema, são absolutamente prioritárias. O campo democrático tem muita dificuldade de fazer essa luta simbólica, de narrativa política. Talvez porque significa voltar um pouco e redimensionar questões que pareciam garantidas e são lutas profundas que o outro lado faz de forma demagógica, superficial, simplória e sedutora.

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