Farra do caminhão de lixo é velha política e pode custar reeleição de Bolsonaro, diz Ernesto Araújo

Foto: Wilton Junior/Estadão
Por André Shalders
Atualização:

Ex-ministro das Relações Exteriores afirma que presidente foi eleito porque brasileiros ‘não aceitavam mais Ciros Nogueiras’ e agora se aliou à ‘velha política’

Por André Shalders
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BRASÍLIA - O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo disse que o escândalo da compra de caminhões de lixo a preços superfaturados, revelado pelo Estadão, é parte da “velha política”, e que pode custar a reeleição de Jair Bolsonaro, ao afastar eleitores que votaram no capitão reformado do Exército acreditando no fim de práticas corruptas. Araújo, que deixou o governo em março de 2021, também afirmou que os brasileiros não aceitam mais “Ciros Nogueiras comandando a política, distribuindo cargos e direcionando o Orçamento”.

Na segunda-feira, 23, o Estadão mostrou como uma emenda do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, foi usada para comprar um caminhão de lixo da empresa de uma amiga dele.

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“Em 2018, ao elegerem Jair Bolsonaro, os brasileiros disseram que não aceitavam mais Ciros Nogueiras comandando a política, distribuindo cargos e direcionando o Orçamento. Em 2022 vemos justamente Ciro Nogueira e seus amigos comandando a política, distribuindo cargos e direcionando o Orçamento, da maneira que sempre fizeram, como a investigação do Estadão está mostrando”, disse Araújo à reportagem, por mensagem de texto. “Isso é muito triste para todos os que acreditamos e nos dedicamos a um grande projeto de regeneração nacional.”

Ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo deixou o governo Bolsonaro em março de 2021.
Ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo deixou o governo Bolsonaro em março de 2021. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Além de Ernesto Araújo, outros integrantes da antiga “ala ideológica” do governo de Jair Bolsonaro também criticaram o envolvimento de Ciro Nogueira no esquema dos caminhões – a explosão na compra de caminhões de lixo por parte do governo coincide com a entrada de políticos do Centrão no primeiro escalão da administração federal, e com a perda de poder de ex-ministros ligados à militância de direita de Bolsonaro. Após analisar milhares de documentos, a reportagem do Estadão encontrou indícios de superfaturamento em editais que somam ao menos R$ 109,3 milhões.

No Twitter, o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub disse, em tom de ironia, não acreditar que Ciro Nogueira esteja envolvido com o escândalo dos caminhões de lixo. “Os valores mencionados são ‘modestos’. Acho que o ministro Ciro Nogueira é muito maior que isso”, disse Weintraub, que é pré-candidato ao governo de São Paulo pelo Brasil 35 (antigo Partido da Mulher Brasileira, PMB).

Para Ernesto Araújo, o escândalo, que ficou conhecido como “Bolsolão do Lixo” nas redes sociais, afasta eleitores de Bolsonaro. “O pior é que, se o presidente Bolsonaro sacrificou o projeto original em nome da reeleição, aliando-se à velha política, agora essa aliança pode arrastá-lo para a derrota eleitoral, pois escândalos como esse dos caminhões de lixo vão afastar ainda mais eleitores. Pessoalmente, espero que o presidente enxergue que o caminho para a reeleição passa por repudiar o Centrão e reassumir seu compromisso original de mudar o Brasil”, disse ele.

Reportagem do Estadão mostrou como o ministro da Casa Civil direcionou dinheiro de uma emenda parlamentar dele para a compra de um caminhão de lixo fornecido pela empresa de uma amiga pessoal. Carla Morgana Denardin é uma das proprietárias do grupo automotivo Mônaco, que venceu licitações para a compra de caminhões da Codevasf do Piauí – o órgão é comandado por Inaldo Guerra, indicado de Ciro Nogueira. Depois, o município de Brasileira (PI) aderiu à ata da Codevasf e usou uma emenda de R$ 240 mil do ministro para comprar um caminhão compactador de lixo.

O Estadão mostrou ainda que parte das licitações com indícios de sobrepreço foi vencida por empresas com indícios de serem de fachada ou controladas por laranjas. É o caso de duas microempresas sediadas em Goiânia: a Fibra Distribuição e Logística Eireli e a Globalcenter Mercantil Eireli. Esta última é sediada em uma casa abandonada e tomada pelo mato na periferia da capital de Goiás. Já a Fibra Distribuição pertence, pelo menos no papel, a um dono que recebeu auxílio emergencial do governo federal durante a pandemia.

Juntas, as duas somam mais de R$ 20 milhões em caminhões de lixo licitados para o governo. Parte da verba para os veículos chegou às empresas por meio de emendas do senador Vanderlan Cardoso (PSD-GO), que admitiu ao Estadão ter pressionado pela entrega das máquinas. O caso foi revelado em reportagem desta terça-feira, dia 24.

Procurado, o ministro Ciro Nogueira não tem se manifestado sobre a compra de caminhões.

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