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A Ciência Política e um olhar sobre os Legislativos

Eleições presidenciais 2022: terceira via ou terceira colocação?

O termo terceira via foi debatido durante a Guerra Fria como alternativa ao liberalismo e ao capitalismo, mas foi o sociólogo inglês Anthony Giddens que cravou o termo em suas obras célebres como "A Terceira Via e Seus Críticos", "O debate global sobre a terceira via", "Para além da Esquerda e da Direita" e "The Third Way: The Renewal of Social Democracy". Nesta última, Giddens enumera os valores da terceira via: 1) igualdade; 2) proteção dos vulneráveis; 3) liberdade autônoma; 4) não há direitos sem responsabilidades; 5) não há autoridade sem democracia; 6) pluralismo cosmopolita e 7) conservadorismo filosófico.

Por Leon Victor de Queiroz
Atualização:

De acordo com Carolina Boniatti Pavese, Giddens propunha "um modelo de sociedade baseado na ordem global contemporânea, que sintetizasse numa política original tanto as referências socialistas quanto as conservadoras". Segundo a autora, Giddens se tornou o ideólogo do "centro radical", como ela mesma escreveu.

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Essa terceira via seria capaz de oferecer respostas que a dicotomia direita-esquerda não conseguiu. Há inúmeros trabalhos sobre terceira via, muitos bastante contextualizados nas realidades de seus autores. Por isso é bom relembrar um pouco as eleições a partir de 1989.

Com a redemocratização, o PT surge como a principal força de esquerda do país ao lado do PDT. O primeiro turno de 1989 fecha com Collor em primeiro (30,47%), Lula em segundo (17,18%) e Brizola em terceiro (16,51%). Já em 1994, FHC vence no primeiro turno (54,24%), com Lula em segundo (27,07%) e Enéas Carneiro em terceiro com 7,38%. Em 1998, FHC vence novamente em primeiro turno com Lula em segundo (31,71%) e Ciro Gomes em terceiro com 10,96%.

No ano de 2002, o PT encerra o primeiro turno com 46,44%, PSDB fica em segundo com 23,19 e na terceira colocação ficou Anthony Garotinho pelo PSB com 17,87%. Ciro terminou em quarto lugar com 11,97%. Já em 2006, o PT conseguiu na primeira rodada 48,61%, ficando o PSDB logo em seguida com 41,63%. A terceira colocação foi ocupada pela então senadora Heloísa Helena (PSOL) com 6,85%. Na eleição de 2010 o PT obteve 46,91% contra 32,61% do PSDB, cabendo a Marina Silva (PV) a terceira colocação com 19,33% dos votos válidos.

Nas eleições de 2014, o PT conseguiu chegar no primeiro turno com 41,59%, seguido pelo PSDB com 33,55%. Marina Silva (PSB, após a morte de Eduardo Campos, assumiu seu lugar na cabeça da chapa) ficou novamente em terceiro lugar com 21,32%.

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Em 2018, é a primeira vez, desde 2002, que um partido de esquerda fica em segundo lugar. O PSL, com Jair Bolsonaro, termina o primeiro turno atingindo 46,03% dos votos, seguido pelo PT com 29,28%. Na terceira posição ficou Ciro Gomes (PDT) com 12,47%. A quarta colocação foi do PSDB com 4,76%, seguido por Marina Silva (REDE) com 1%.

Terceiras vias no contexto brasileiro vêm se mostrando bastante conjunturais com políticos de esquerda (Brizola em 1989 e Heloísa Helena em 2006), centro-esquerda (Ciro Gomes em 1998, Marina Silva 2010 e 2014 e Ciro em 2018), de centro (Garotinho em 2002) e de direita (Enéas em 1994).

É possível verificar que de 1989 a 1998 o PT teve em média 25,5% do eleitorado no primeiro turno, passando a uma média de 45,88% de 2002 a 2014. Em 2018, estando fora do poder como nos pleitos de 1989 a 1998, o PT ficou com 29,28% dos votos.

Dados do Latinobarometro (https://www.latinobarometro.org/lat.jsp) mostram que o apoio a regimes autoritários na América Latina era de 15% em 1995 e ficou em 16% em 2018. No Brasil, o apoio à democracia era de 41% em 1995 terminou 2018 em 34%. Para 41% dos brasileiros em 2018, dá no mesmo uma democracia ou uma ditadura e 14% afirmam que um governo autoritário pode ser preferível.

Ou seja, em 2022 o PT deve manter o piso de 25% dos eleitores (aqueles que votam no PT, mesmo que Lula não esteja na chapa). Do outro lado, há no mínimo 14% com Bolsonaro, mais o percentual de antipetistas que são indiferentes com relação à democracia/autoritarismo, podendo subir e muito caso a economia se recomponha. Pesquisa recente da CNT/MDA com coleta entre 1 e 3 de julho mostra Ciro Gomes com 1,7% na espontânea, diante de Lula (27,8%) e Bolsonaro (21,6%). Já na estimulada (quando o pesquisador apresenta nomes de candidatos), Lula vai a 41,3% seguido por Bolsonaro com 26,6%. Ciro Gomes aparece na terceira posição com 5,9%, tecnicamente empatado com Moro (5,9%) e à frente de João Dória (PSDB).

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Já na pesquisa da XP Investimentos, quando apresentado os nomes dos candidatos, Lula tem 38%, Bolsonaro 26%, Ciro Gomes 10%, Moro tem 9%, Mandetta 3%, Dória 2%. Em um segundo cenário com Datena e o governador do Rio Grande do Sul, Ciro pula para 11%.

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Claro que há mais de um ano das eleições, o cenário ainda é indefinido, onde segundo a pesquisa Genial/Quaest o percentual de indecisos é de 57% na espontânea. Quando perguntados quem prefere que vença em 2022, Lula tem 41%, Bolsonaro 24% e nem um nem outro tem 31%. Ao simularem 5 cenários, Ciro Gomes oscila entre 10% e 11% no primeiro turno.

Uma terceira via que se apresente como alternativa a Lula e Bolsonaro precisa capturar massivamente o eleitorado "nem-nem". A matemática é simples, tanto o PT como Bolsonaro (que simboliza mais o antipetismo que qualquer outra força política) possuem em torno de 30% (sem Lula). Sem o ex-presidente na disputa a terceira via teria de conquistar pelo menos um terço do eleitorado para se viabilizar para o segundo turno. Está bastante claro que ser terceira via é um projeto coletivo, não da idealização individual do candidato mais bem colocado. É inócuo bater nos dois primeiros colocados. É preciso mostrar de forma crível que pode fazer melhor que eles, dentro de uma narrativa que a população entenda, fugindo do academicismo. Em disputas eleitorais, potencializadas pela rapidez da comunicação e do consumo cada vez mais rápido de informações, não adianta livros ou grandes manuais. Ninguém vai ler. A conexão é direta e isso exige muito esforço coletivo, pois até agora nenhum candidato que se apresente como terceira via, seja à esquerda o à direita tem sido capaz de minimamente oferecer chances de chegar ao segundo turno.