‘Fui vice do Doria. Um é diferente do outro’, diz Rodrigo Garcia

Foto: Marcelo Chello/Estadão

Pré-candidato à reeleição, governador evita associação com João Doria e diz que seu candidato a presidente ‘é a terceira via’

Por Pedro Venceslau
Atualização:

Pré-candidato à reeleição pelo PSDB, o governador Rodrigo Garcia, de 48 anos, é cuidadoso ao falar sobre o impasse no seu partido em relação à pré-candidatura presidencial de João Doria, de quem foi vice. Ele, porém, defende a união de PSDB, MDB e Cidadania como uma chance de quebrar a polarização entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL). Nesta quarta-feira, 18, os presidentes dos três partidos indicaram a senadora Simone Tebet (MDB-MS) como candidata única ao Planalto. A decisão ainda precisa passar pelo crivo das executivas nacionais das siglas.

Na entrevista ao Estadão, que abre uma série com os pré-candidatos ao Palácio dos Bandeirantes, Rodrigo Garcia deixou claro que não pretende associar sua imagem à de Doria na eleição estadual. “Represento a minha história.”

Continua após a publicidade

Continua após a publicidade

Rodrigo Garcia, governador de São Paulo: candidato durante entrevista no Palácio dos Bandeirantes.
Rodrigo Garcia, governador de São Paulo: candidato durante entrevista no Palácio dos Bandeirantes. Foto: Marcelo Chello/Estadão

O sr. defende união do centro político na disputa presidencial. Ainda acredita nisso? Seu candidato é o João Doria?

O candidato que meu partido e eu apresentamos para a terceira via é o João Doria. Estou ao lado dele como nome do PSDB. O partido buscou outros partidos. Era um grupo maior do que é hoje. O PSDB está insistindo para que a gente consiga manter o centro democrático unido e assim ter alguma chance eleitoral. Nosso candidato vai se submeter a essa análise do centro democrático e às pesquisas que estão aí. Vamos encontrar um caminho político. Defendo uma decisão política de comum acordo para que o candidato escolhido tenha mais chance de ganhar a eleição do que uma candidatura isolada.

O deputado Aécio Neves disse que Doria sempre foi o “bode” que precisava ser retirado da sala para viabilizar a sua candidatura. Como avalia essa declaração?

Aécio sendo Aécio.

Doria ameaça judicializar o processo se não for candidato e diz que o resultado das prévias é irrevogável.

O PSDB não pode ter outro candidato próprio que não o João Doria. Se parte para uma coligação, é outra decisão do partido, mas o único candidato que o partido pode ter com o número 45 é o João Doria. Sobre isso não há contestação. Não é o caso de judicialização. A política vai achar um caminho. Se o PSDB vier agora e disser que vai colocar o Eduardo Leite ou outro nome, aí não dá. Mas como o PSDB se submete a uma coligação, é ela que vai escolher. Aí a discussão é política, não jurídica.

A candidatura de Doria, que tem alta rejeição, atrapalharia sua campanha em São Paulo? Não se vê o ex-governador nas suas redes sociais e inserções de TV...

Sou candidato da minha história. E talvez um dos mais experientes dessa eleição em quantidade de mandatos consecutivos. Represento a minha história. Sou do PSDB. Fui vice do João Doria. Um é diferente do outro. Naturalmente vou me apresentar. O meu candidato a presidente é a terceira via. Simples assim.

Se o PSDB apoiar um nome de outro partido pode perder o protagonismo?

Muitas vezes você identifica figuras que representam aquilo em que acredita não necessariamente no seu partido. É natural que o PSDB lute por uma candidatura própria, mas entende que neste momento é preciso juntar mais forças para ter alguma viabilidade eleitoral. Eu não quero só um candidato da terceira via. Quero um candidato que tenha chances reais de vitória. Vamos trabalhar para a unidade com o MDB, que é um dos maiores partidos do Brasil.

O que acha do nome da Simone Tebet?

Foi uma grande senadora, uma grande prefeita e é uma grande mulher. Pode representar esse grupo. A pesquisa vai dar uma pista do que é melhor para a viabilidade eleitoral.

O que é mais forte em São Paulo: o antipetismo ou o antibolsonarismo?

É aquele que não quer nem o petismo nem o bolsonarismo dominando São Paulo. Mais de 40% da população busca alternativa, 85% dos paulistas não escolheram candidato a governador. Está longe de ter uma pista do que vai acontecer. Estou aqui para proteger São Paulo dessa guerra ideológica.

O apresentador José Luiz Datena, que pretende disputar o Senado, estava com o sr. e depois fechou Tarcísio Freitas e Bolsonaro. Quem será o candidato da sua coligação? Pode ser o Sergio Moro?

Vou definir minha chapa de Senado em julho, mais pro final do mês, junto com os partidos da coligação. Tinha a expectativa que o Datena continuasse no União Brasil para disputar o Senado. Ele tomou outra decisão e eu respeito. é um grande comunicador. Sergio Moro esteve aqui falando de candidatura ao Senado ou deputado. Não existe ainda uma decisão do União Brasil. O MDB coloca o nome do Edson Aparecido para vice e outros nomes.

Nas redes sociais e discursos, o sr. é um crítico das ideologias. É contra as ideologias? Tem alguma?

Não sou contra, mas a ideologia não pode vir na frente do problema. Não sou um gestor dogmático. Sou um gestor pragmático. Estou aqui para governar para quem gosta e não gosta de mim. Respeito a ideologia de todos, mas colocá-la na frente dos problemas não resolve.

O sr. tem ideologia?

Sem dúvida.

E qual é?

Me sinto um cara de centro e liberal.

No debate sobre segurança pública, o sr. adotou uma narrativa muito identificada com a direita mais radical. Disse que bandido que levantar a arma para a polícia vai levar bala. É uma estratégia para se aproximar do eleitor mais conservador?

Essa é uma recomendação que eu dei ao cidadão de bem e ao bandido. A boa polícia diz: não reaja quando você sofre um assalto. O recado claro ao bandido foi: não reaja que você vai tomar bala. Esse é o papel da polícia. Essa frase traduz o que eu acredito.

Sobre o uso de câmeras no uniforme dos policiais, houve uma mudança de tom no seu discurso. Por quê?

Contra fatos não há argumentos. No dia 2 abril, quando dei aquela entrevista (à revista Veja), não tinha nenhum relatório ou indicador sobre câmeras de seguranças e seus resultados. Na semana seguinte, saíram vários dados que estavam sendo pesquisados no último ano mostrando que a câmera reduziu a letalidade das policiais. Ao lado disso eu ouvi muito os nossos comandantes na condição de governador, e não de vice. Falei com parte da nossa tropa e visitei muitos batalhões. Estou indo em todos, inclusive com visitas-surpresa. Estou mais do que convencido de que as câmeras corporais são impositivas para a polícia.

'Me sinto um cara de centro e liberal', diz Rodrigo Garcia.
'Me sinto um cara de centro e liberal', diz Rodrigo Garcia. Foto: Marcelo Chello/Estadão

Inclusive nas operações especiais?

Sem dúvida. As operações especiais têm uma natureza, e a radiopatrulha tem outra.

O pacto federativo da Constituição de 1988 prejudicou São Paulo?

A Constituição de 1988 municipalizou e estadualizou serviços, mas federalizou o dinheiro. Hoje, o resultado desse pacto federativo é que os municípios e os Estados têm muitas responsabilidades, mas a União fica com a maior parte da fatia do bolo tributário. Fiz um levantamento no ano passado. Os impostos federais arrecadados em São Paulo somam R$ 750 bilhões, e voltam R$ 47 bilhões. O que é mais grave é que as transferências voluntárias também deixaram de existir para São Paulo. São Paulo é o último Estado na fila de transferência voluntária do governo federal.

Está dizendo que é uma retaliação política do governo Jair Bolsonaro?

O governo parou de ajudar com políticas públicas que muitas vezes eram feitas em parceria nos governo do FHC, Lula, Dilma e Michel (Temer). Agora isso praticamente não tem.

Os governos petistas ajudaram mais São Paulo que a gestão Bolsonaro?

Sempre houve uma relação institucional, mas agora é o momento que historicamente São Paulo está recebendo menos. Praticamente não há mais apoio voluntário do governo federal. A minha briga é defender São Paulo desse pacto federativo que prejudica o Estado de todas as formas. Os impostos arrecadados em São Paulo estão sustentando a elite do funcionalismo público nacional e benefícios fiscais de outros Estados. Afinal de contas, o dinheiro vai para Brasília e é redistribuído. Volta muito pouco. O pacto federativo é injusto com São Paulo. Sobre o governo federal, estou aberto a receber qualquer apoio.

No ajuste fiscal promovido por Doria, ele ensaiou acabar com algumas estatais, como a Furp (Fundação para o Remédio Popular), Fosp (Fundação Onocentro de São Paulo) e Itesp (Fundação Instituto de Terras de São Paulo), mas depois recuou. Qual seu projeto para essas instituições?

Fizemos um projeto no qual pedi autorização à Assembleia para extinguir vários órgãos públicos. A Assembleia entendeu que o Itesp e a Furp não deveriam ser extintas. Eu coloquei a Furp embaixo da nova secretaria de Ciência e Desenvolvimento da Saúde, comandada pelo David Uip. Estou juntando o Butantan, Furp, que é uma fábrica de remédio, e o Instituto de Saúde para que o governo de São Paulo tenha uma área de prevenção e controle de doenças futuras. Foi uma ideia do David Uip e parte do comitê científico inspirada no que é feito no governo americano. Estamos otimizando essas estruturas. Podem ter novas estruturas extintas no próximo governo.

Se o sr. for eleito, vai cortar verba das universidades?

Não. Eu mantenho a autonomia universitária, os 9,57% do ICMS para eles e cada vez mais exigir contrapartidas de trabalho público, como parcerias como os HCs, como o da USP.

Como está o projeto do Rodoanel, que é uma saga desses quase 30 anos de gestões tucanas? O sr. trabalha aqui no Palácio dos Bandeirantes desde que ela começou

Me lembro do primeiro trecho, o oeste. A última grande obra parada em São Paulo é o Rodoanel. Conseguimos colocar todas as obras que estavam paradas em 2018 em canteiro. Infelizmente, tivemos duas licitações frustradas no Rodoanel. Uma em outubro 2020, que era para terminar a obra, mas teve mais de 700 impugnações no Tribunal de Contas, e a última o leilão, que teve que ser suspenso aparentemente por falta de interessados, mas que foi marcado para o fim do mês de abril. Temos passivos jurídicos brutais sendo administrados pela Dersa, que é uma empresa em extinção.

Vai ser possível nadar no Rio Pinheiros?

Já é considerado um rio urbano limpo. O nível de oxigenação da água está abaixo de 30. Não é um rio de água potável, como o Tâmisa e o Sena não são. Agora tem cheiro de rio.

Em relação ao Rio Tietê, tem jeito?

Tem jeito. Estamos reivindicando um financiamento do Banco Mundial, que está parado no Ministério da Economia sem autorização. O governo federal precisa dar aval aos Estados em empréstimos internacionais. São US$ 100 milhões. Nos próximos 6 anos queremos o Tietê também limpo na condição do Pinheiros.

Sobre essa agenda de costumes que os bolsonaristas defendem: qual sua opinião sobre casamento gay, aborto e descriminalização do uso de drogas?

Defendo a legislação atual para casamento homoafetivo e para aborto. Sou contra descriminalização (do uso das drogas). Não vejo isso resolver nenhum problema.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Publicidade