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Opinião|Haddad é ignorado por seus pares e começa a derreter

Ministro da Fazenda tem se tornado aquele amigo que foi “esquecido” em um grupo de Whatsapp e continua a mandar mensagens, enquanto os outros estão em um novo grupo secreto

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Foto do author Sergio Denicoli

Os jovens têm usado uma nova gíria para definir relacionamentos. Para os adolescentes, quando uma pessoa desaparece, deixa de mandar mensagens, bloqueia o contato nas redes sociais, sem dar satisfação, ela está fazendo “ghosting”, palavra que deriva do termo em inglês para designar fantasma.

A gíria serve perfeitamente para classificar a relação do governo Lula com Fernando Haddad. O ministro da Fazenda claramente está sofrendo ghosting. Ele fala em ajuste fiscal, propõe reformas, aponta para a necessidade de se cortar gastos, mas tudo parece ecoar no vazio. É como se ele estivesse gritando no deserto.

O presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva ( PT) acompanhado do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em solenidade no Planalto Foto: wilton junior/Estadão

Por trás dessa cortina de silêncio, o governo segue em outra direção, minando a autoridade do ministro da Fazenda. Haddad tem se tornado aquele amigo que foi “esquecido” em um grupo de Whatsapp e continua a mandar mensagens, enquanto os outros estão em um novo grupo secreto.

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O presidente da República prefere viver na ilusão de um passado glorioso da economia do que entrar na realidade atual, onde a inflação, sobretudo nos alimentos, está penalizando as famílias, e onde as pessoas começam a ter uma percepção de que o país caminha para dias ainda mais difíceis.

Sempre que pode, Lula critica qualquer medida que possa limitar os gastos do governo, mesmo que seja para equilibrar as contas, algo que é básico para que se possa ter uma gestão saudável.

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É como se o governo e a base da esquerda estivessem jogando Haddad para escanteio. Há perfis progressistas que o criticam abertamente e o classificam como “noeliberal disfarçado”ou “amigo do mercado”. Muitos desses perfis o veem como alguém que não é firme o suficiente na defesa dos princípios esquerdistas. Questões caras aos lulistas e aos pares petistas do ministro.

Os dados confirmam essa desconexão em curso, entre Haddad e a esquerda. Um estudo realizado pela AP Exata Inteligência Digital mostra que, entre perfis de cunho esquerdista, cerca de 44,5%, ou seja, menos da metade, veem o ministro de forma positiva. 27,1% o enxergam negativamente e 28,4% de forma neutra.

A AP Exata analisou cerca de 120 mil publicações no X, nas últimas duas semanas. Em termos gerais, sem recortes ideológicos, a reprovação ao ministro atinge 41%, enquanto a aprovação é de apenas 24,4%.

O sentimento de raiva predomina nas publicações que o mencionam, chegando a 22% dos posts. Em segundo lugar está o desgosto, com 18,3%, seguido do medo, com 15,3%. A confiança aparece em apenas 10,9% das publicações.

Esse derretimento da imagem de Haddad, no ambiente da esquerda, impede o ministro de ter uma defesa ampla e orgânica perante as críticas da direita.

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Para os direitistas, Haddad é uma figura que representa tudo o que há de errado no governo petista. Eles o acusam de ser incompetente, incapaz de lidar com a crise econômica do país, de querer aumentar a carga tributária e de não conseguir impor uma agenda de cortes de gastos. Esse bombardeio é constante, e vem refletido em hashtags como #ForaHaddad, que dominam as conversações da oposição no X sobre o ministro.

A situação de Haddad é um reflexo da complexidade da política brasileira. Ele tem se tornado uma figura isolada no governo, mesmo sendo do PT e ter, inclusive, disputado a presidência pela sigla.

O ghosting político que sofre é uma triste metáfora para a forma como a política às vezes funciona. Nesse cenário, muitos apostam na queda do ministro. Veremos quanto tempo ele irá resistir sem apoio da própria militância lulista.

Opinião por Sergio Denicoli

Autor do livro TV digital: sistemas, conceitos e tecnologias, Sergio Denicoli é pós-doutor pela Universidade do Minho e pela Universidade Federal Fluminense. Foi repórter da Rádio CBN Vitória, da TV Gazeta (Globo-ES), e colunista do jornal A Gazeta. Atualmente, é CEO da AP Exata e cientista de dados.

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