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Da irreverência ácida ao conformismo da arte domesticada

- Atualizado: 07 Março 2016 | 06h 00

Movimento batizado por artistas, que buscaram a palavra “dada” num dicionário, o dadaísmo expandiu as fronteiras da arte

Entre todos os movimentos artísticos do século 20, o único que definitivamente não acabou foi o dadaísmo, reciclado de tempos em tempos com outros nomes. Um século depois de oficialmente criado em Zurique, Suíça, o dadaísmo mostra sua ressonância em obras do inglês Damien Hirst e dos norte-americanos Bruce Nauman e Jeff Koons, para ficar apenas em três exemplos de artistas vivos – em mais de um sentido. Embora nenhum deles possa ser comparado a Marcel Duchamp, Kurt Schwitters, Francis Picabia ou Hans Arp, é preciso admitir que são descendentes do Dada, o grupo que, entre 1917 e 1920, atraiu criadores como Max Ernst e Georg Grosz, dois dos artistas mais conhecidos entre os que confrontaram a sociedade da época com discursos hostis às convenções.

Único movimento batizado por artistas, que buscaram a palavra “dada” num dicionário de francês, o dadaísmo expandiu as fronteiras da arte, tornando-se internacional após provocar escândalos públicos com exposições proibidas pelas autoridades. Dele nasceram outros movimentos importantes, como o surrealismo, e manifestações artísticas derivadas das primeiras experiências no Cabaret Voltaire, misto de clube noturno e centro de arte em que se reuniam poetas (Tristan Tzara), escultores (Hans Arp), pintores (Marcel Janco) e autores com formação psicanalítica (Richard Huelsenbeck). A performance, por exemplo, nasceu ali, ainda que de forma precária.

Entre expressões contemporâneas como a action painting, o happening, a arte conceitual e a instalação, todas tiveram origem no histórico cabaré suíço, onde refugiados se encontravam para condenar o espírito bélico dominante na época do primeiro grande conflito mundial. Antinacionalistas, os dadaístas condenavam os massacres, que diziam ser frutos da corrupção do sistema e ganância dos governos, considerados por eles incapazes de criar as condições para reconstruir a Europa em outras bases, menos políticas. Eles criticavam, inclusive, os expressionistas, que viam como escapistas fugindo do presente para se refugiar no passado – no gótico alemão, por exemplo.

Zurique está comemorando os 100 anos do Dadaísmo com um tour pelos locais do movimento
Zurique está comemorando os 100 anos do Dadaísmo com um tour pelos locais do movimento

Contra a ordem estabelecida, os rebeldes dadaístas tanto deram respostas políticas ao caos social europeu dos anos de guerra – como Georg Grosz, que satirizou militares e fez do nazismo uma caricatura – como estéticas, lembrando que Max Ernst, um dos primeiros surrealistas, revolucionou a pintura com imagens justapostas, líricas. Duchamp tomou outro rumo, mais cínico, contestando o estatuto da obra de arte ao inscrever um urinol (batizado de A Fonte) numa exposição de arte.

Os dadaístas buscavam dar uma resposta ao mundo confuso em que viviam no começo do século passado. Os artistas pós-modernos, ao contrário, se mostram conformistas. Damien Hirst e Jeff Koons nem pensam em contestar as regras do mercado que favoreceram a ascensão dos dois. Num mundo multifacetado, fragmentado, em que a globalização mais afasta do que agrega, a arte pós-dadaísta não se recolheu a um cabaré suíço para refletir sobre o estado das coisas, sobre o fim das fronteiras que, paradoxalmente, acabou por fazer ressurgir o nacionalismo.

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É possível dizer que o declínio do dadaísmo tenha começado quando os exilados saíram da Suíça e retornaram ao território alemão, constatando que a sua, afinal, não era a antiarte burguesa por eles sonhada, mas uma arte domesticada, cujo espírito irreverente foi massacrado, obrigando-nos a pensar nas palavras do poeta, filósofo e performer Hugo Ball, autor do Manifesto Dadaísta e fundador do Cabaret Voltaire: “A Suíça, na época dos dadaístas, era uma gaiola cercada por leões”. O passarinho, desnecessário dizer, acabou devorado.

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