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Suíça

Da irreverência ácida ao conformismo da arte domesticada

Movimento batizado por artistas, que buscaram a palavra “dada” num dicionário, o dadaísmo expandiu as fronteiras da arte

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Antônio Gonçalves Filho,
O Estado de S. Paulo

07 Março 2016 | 06h00

Entre todos os movimentos artísticos do século 20, o único que definitivamente não acabou foi o dadaísmo, reciclado de tempos em tempos com outros nomes. Um século depois de oficialmente criado em Zurique, Suíça, o dadaísmo mostra sua ressonância em obras do inglês Damien Hirst e dos norte-americanos Bruce Nauman e Jeff Koons, para ficar apenas em três exemplos de artistas vivos – em mais de um sentido. Embora nenhum deles possa ser comparado a Marcel Duchamp, Kurt Schwitters, Francis Picabia ou Hans Arp, é preciso admitir que são descendentes do Dada, o grupo que, entre 1917 e 1920, atraiu criadores como Max Ernst e Georg Grosz, dois dos artistas mais conhecidos entre os que confrontaram a sociedade da época com discursos hostis às convenções.

Único movimento batizado por artistas, que buscaram a palavra “dada” num dicionário de francês, o dadaísmo expandiu as fronteiras da arte, tornando-se internacional após provocar escândalos públicos com exposições proibidas pelas autoridades. Dele nasceram outros movimentos importantes, como o surrealismo, e manifestações artísticas derivadas das primeiras experiências no Cabaret Voltaire, misto de clube noturno e centro de arte em que se reuniam poetas (Tristan Tzara), escultores (Hans Arp), pintores (Marcel Janco) e autores com formação psicanalítica (Richard Huelsenbeck). A performance, por exemplo, nasceu ali, ainda que de forma precária.

Entre expressões contemporâneas como a action painting, o happening, a arte conceitual e a instalação, todas tiveram origem no histórico cabaré suíço, onde refugiados se encontravam para condenar o espírito bélico dominante na época do primeiro grande conflito mundial. Antinacionalistas, os dadaístas condenavam os massacres, que diziam ser frutos da corrupção do sistema e ganância dos governos, considerados por eles incapazes de criar as condições para reconstruir a Europa em outras bases, menos políticas. Eles criticavam, inclusive, os expressionistas, que viam como escapistas fugindo do presente para se refugiar no passado – no gótico alemão, por exemplo.

Contra a ordem estabelecida, os rebeldes dadaístas tanto deram respostas políticas ao caos social europeu dos anos de guerra – como Georg Grosz, que satirizou militares e fez do nazismo uma caricatura – como estéticas, lembrando que Max Ernst, um dos primeiros surrealistas, revolucionou a pintura com imagens justapostas, líricas. Duchamp tomou outro rumo, mais cínico, contestando o estatuto da obra de arte ao inscrever um urinol (batizado de A Fonte) numa exposição de arte.

Os dadaístas buscavam dar uma resposta ao mundo confuso em que viviam no começo do século passado. Os artistas pós-modernos, ao contrário, se mostram conformistas. Damien Hirst e Jeff Koons nem pensam em contestar as regras do mercado que favoreceram a ascensão dos dois. Num mundo multifacetado, fragmentado, em que a globalização mais afasta do que agrega, a arte pós-dadaísta não se recolheu a um cabaré suíço para refletir sobre o estado das coisas, sobre o fim das fronteiras que, paradoxalmente, acabou por fazer ressurgir o nacionalismo.

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É possível dizer que o declínio do dadaísmo tenha começado quando os exilados saíram da Suíça e retornaram ao território alemão, constatando que a sua, afinal, não era a antiarte burguesa por eles sonhada, mas uma arte domesticada, cujo espírito irreverente foi massacrado, obrigando-nos a pensar nas palavras do poeta, filósofo e performer Hugo Ball, autor do Manifesto Dadaísta e fundador do Cabaret Voltaire: “A Suíça, na época dos dadaístas, era uma gaiola cercada por leões”. O passarinho, desnecessário dizer, acabou devorado.

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