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Inteligência artificial redesenha o negócio do sexo e muda nossos relacionamentos

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Foto do autor Paulo Silvestre
Em "Blade Runner 2049", Ana de Armas vive Joi, IA de companhia holográfica de K, replicante interpretado por Ryan Gosling - Foto: reprodução

A milionária indústria da pornografia está prestes a sofrer sua maior transformação desde que começou a abraçar a Internet, lá por 1995. A inteligência artificial já não apenas acelera e barateia custos das produções. Mais que substituir a presença humana no centro do produto, diversas plataformas já criam experiências eróticas personalizadas e interativas que prometem reconfigurar, em pouco tempo, uma cultura que parecia inabalável.

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Isso deve afetar a vida de todo mundo, mesmo de quem nunca consumiu conteúdos adultos. Tudo porque a tecnologia mudará a forma como as pessoas aprendem a desejar, a negociar limites e a se relacionar.

"IAs pornô" não apareceram ontem. Variados serviços vêm surgindo desde que a inteligência artificial generativa ganhou as ruas. Mas o debate pegou fogo na semana passada, quando Sam Altman, CEO da OpenAI, afirmou que o ChatGPT permitirá a criação de aplicativos pornográficos nessa que é a plataforma de IA mais popular do mundo.

A ficção antecipou esse deslocamento com mais lucidez do que imaginávamos. Em "Ela" (2013), o protagonista, Theodore, reduz a relação com pessoas porque a companhia artificial de Samantha entrega tudo o que ele quer. Já em "Blade Runner 2049" (2017), a IA assume o papel de Joi, a parceira afetiva perfeita, moldada para agradar o perfil psicológico do protagonista, K.

A realidade agora parece alcançar esses roteiros. Ao permitir pornografia dentro de modelos generativos, plataformas como o ChatGPT inauguram a era do sexo e do afeto sob medida, sem carne, sem reciprocidade e principalmente sem conflito.

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Isso altera radicalmente o consumo. A pornografia tradicional oferece um catálogo de categorias às quais o público precisa se ajustar. Com a IA, ela passa a oferecer a fantasia exata. Se antes o espectador se limitava a assistir, agora o usuário conversa, orienta e modela uma experiência personalizada e interativa.

Isso deve não apenas intensificar o hábito, mas redefinir o que o cérebro passa a considerar desejável. Quando o estímulo é sempre "perfeito" e obediente, parceiros humanos, com seus limites, tempos e vulnerabilidades, começam a parecer inferiores e desinteressantes.

Pode-se pensar que se trata de apenas mais uma opção de pornografia. Não é!

Ao deslocar parte da sexualidade para relações artificiais, essas tecnologias influenciam o desenvolvimento afetivo da sociedade, o que pode ter um efeito particularmente prejudicial em adolescentes, que ainda estão formando seus parâmetros.

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Talvez o mais preocupante seja que a IA não se limitará a oferecer erotismo. Ela normalizará e difundirá novos roteiros de dominação, consentimento e expectativa. E como sistemas aprendem com o padrão de uso, se o comportamento mais buscado for estereotipado ou degradante, é isso que será reforçado com eficiência industrial.

Assim, a promessa de liberdade vira uma fábrica de repetição. Casais reais passarão a lidar com parceiros (mal) treinados por máquinas e não pela convivência humana.

A facilidade do prazer sem envolvimento afeta vínculos humanos reais, fragiliza a capacidade de lidar com vulnerabilidades e a complexidade dos relacionamentos interpessoais, podendo levar a isolamento e dependência de expectativas irreais. Nem o filósofo polonês Zygmunt Bauman, com seu "Amor Líquido", teria pensado tão longe.

Apesar de todos esses problemas, o uso da IA na pornografia já é uma realidade e deve aumentar exponencialmente. E se depender das big techs, isso acontecerá sem regras ou limites.

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Se ficarmos apenas reagindo à próxima novidade, entraremos no experimento como cobaias, não como agentes. Por isso, precisamos compreender todo esse poder e exigir uma regulação mínima com fronteiras claras, auditoria independente que exponha danos e uma educação digital que prepare as pessoas para não confundir um aparente acolhimento artificial com relacionamento.

Temos que saber o que faremos quando o padrão de intimidade da sociedade for calibrado não pelo encontro entre dois humanos imperfeitos, mas por um algoritmo que nunca diz "não". Se não quisermos que a IA redesenhe o amor à nossa revelia, teremos que defender a ideia contraintuitiva, em um mundo de entregas instantâneas, de que relações humanas valem precisamente porque são difíceis.


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Opinião por Paulo Silvestre

É doutorando em inteligência artificial e mestre em reputação digital pela PUC-SP. Articulista do Estadão, atua como consultor e palestrante de IA, experiência do cliente e transformação digital. É professor da Universidade Mackenzie e da PUC–SP. Foi executivo do Estadão, Samsung, AOL, Saraiva e Editora Abril, e é LinkedIn Top Voice desde 2016.

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