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‘Enquanto houver questionamentos, haverá arte’, diz Anna Maria Maiolino em mostra no Museu Picasso

Aos 83 anos, artista brasileira celebra exposição individual em Paris, revisita sua trajetória e anuncia nova mostra no MAAT de Lisboa em 2026

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Foto do autor Alice Ferraz
Foto do autor Ana Paula  Assis
Colagem de Thais Barroco sobre fotos de Everton Bellardin e Vinciane Lebrun / Voyez-Vous Foto: Divulgação / Anna Maria Maiolino

Aos 83 anos recém-completados em maio, Anna Maria Maiolino reafirma sua posição singular na arte contemporânea brasileira. Agraciada com o Leão de Ouro pelo conjunto da obra na Bienal de Veneza de 2024, a artista mantém um vigor admirável e celebra mais um marco: sua primeira exposição individual no Museu Picasso, em Paris. Fazem parte da mostra cerca de cem trabalhos – entre filmes, instalações, desenhos, esculturas em cimento, gesso e metal, fotografias, mapas mentais e pinturas – que remontam um panorama sensível e potente de sua investigação sobre exílio, linguagem e memória.

Obras da mostra Jesuis là. Estou Aqui no Museu Picasso, em Paris. Fotos Vinciane Lebrun / Voyez-Vous Foto: Vinciane Lebrun

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“Expor ali é um privilégio e uma responsabilidade. É uma forma de reescrever a história de mostrar que a arte não é um campo restrito a um gênero ou a uma visão única. Me comoveu saber que a mostra Je suis là Estou aqui. Estou aqui integra a celebração Brasil-França. Minha alma de imigrante foi finalmente contemplada como artista brasileira.” A exposição fica em cartaz até 21 de setembro de 2025. “Gostaria muito que viesse para São Paulo”, confidencia. “Mas depende do desejo de alguma instituição que se predisponha à hospedá-la.”

Nascida na Calábria, com passagens pela Venezuela e radicada no Brasil desde os anos 1960, Anna Maria Maiolino – a exemplo de Tomie Ohtake e Mira Schendel, imigrantes que construíram sua trajetória artística no País – transformou o deslocamento em mais do que um dado biográfico: fez dele um eixo central de sua produção. “Cada mudança de país, de cultura, de idioma, foi um mergulho em novas realidades, em novas formas de perceber o mundo. Essa experiência de ser ‘estrangeira’ me marcou sobremaneira”, diz.

Obras da mostra Jesuis là. Estou Aqui no Museu Picasso, em Paris. Fotos Vinciane Lebrun / Voyez-Vous  Foto: Vinciane Lebrun

Para a artista, a linguagem – verbal e corporal – sempre foi terreno fértil para experimentação, desde os primeiros capítulos de sua história. “Compreendi que a comunicação vai além das palavras e pode ser substituída por imagens. O corpo, com suas memórias e gestos, tornou-se um repertório de experiências, um meio para expressar o indizível”,

“Compreendi que a comunicação vai além das palavras e pode ser substituída por imagens. O corpo, com suas memórias e gestos, tornou-se um repertório de experiências, um meio para expressar o indizível”

Anna Maria Maiolino

diz. Foi nesse processo de constante ressignificação – entre o familiar e o estranho – que ela reencontrou a si mesma. “A imigração aos 12 anos, o abandono da minha terra natal, a Itália. Isso se reflete diretamente na minha obra.”

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Com uma obra que atravessa diversos suportes, Anna Maria Maiolino tem como traço marcante o modo como se entrega ao fazer artístico, quase como um ritual. “A ação das mãos, na repetição, não é vazia – leva a um estado de imersão e meditação. Por exemplo, ao trabalhar com a argila, me conecto diretamente à terra, ao princípio, ao que é primordial”, explica.

Obras da mostra Jesuis là. Estou Aqui no Museu Picasso, em Paris. Fotos Vinciane Lebrun / Voyez-Vous  Foto: Vinciane Lebrun

Foi também nas entrelinhas que Maiolino encontrou formas de resistência durante os anos da ditadura militar. “A arte sempre foi um espaço de liberdade. Nunca precisei ser explicitamente política. A metáfora me permitiu resistir com imagens inquietantes. Era um grito silencioso contra a opressão.”

A arte sempre foi um espaço de liberdade. Nunca precisei ser explicitamente política. A metáfora me permitiu resistir com imagens inquietantes. Era um grito silencioso contra a opressão.

Anna Maria Maiolino

Ainda nesses tempos de censura e cerceamento da palavra, a artista converteu o corpo e o gesto em ferramentas de contestação. “Minha resistência estava em questionar as normas por meio de imagens que desestabilizavam o instituído. Minhas obras, com sua crueza e sensibilidade, eram uma afirmação da dignidade humana.”

Admiradora do repertório de Mira Schendel e Lygia Clark – de quem foi muito amiga –, Maiolino reflete sobre a ascensão das mulheres no sistema das artes. “Durante muito tempo, a história da arte foi contada quase exclusivamente por vozes masculinas. A contribuição das mulheres foi, muitas vezes, minimizada. Ter essa valorização crescente da presença feminina em todas as esferas – da criação à curadoria e à crítica – é um passo fundamental.

Durante muito tempo, a história da arte foi contada quase exclusivamente por vozes masculinas. A contribuição das mulheres foi, muitas vezes, minimizada. Ter essa valorização crescente da presença feminina é um passo fundamental.

Anna Maria Maiolino

É o reconhecimento de uma diversidade de olhares e experiências que sempre existiu, mas que não era devidamente apreciada.”

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Obras da mostra Jesuis là. Estou Aqui no Museu Picasso, em Paris. Fotos Vinciane Lebrun / Voyez-Vous  Foto: Vinciane Lebrun

Engana-se quem imagina que a artista leva uma vida excêntrica ou alheia à rotina. Sempre que pode, ela se recolhe no jardim do ateliê, aprecia o silêncio em comunhão com a natureza e o calor do sol. Não dispensa um bom livro – e adora cozinhar. Um hábito que, para ela, também carrega potência criativa. “A vida cotidiana, com suas pequenas ações e rituais, é uma fonte inesgotável de inspiração. Gosto de sentir o pulsar da vida ao meu redor – como ouvir, ao longe, o som do piano tocado por Samuel, meu neto de 15 anos.”

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Além da mostra na capital francesa, Anna Maria Maiolino já está escalada para novos projetos como uma grande exposição no MAAT– Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia de Lisboa – para março de 2026, e outra possível individual na Galeria Luisa Strina, em São Paulo. “Sigo trabalhando e vivendo a arte. Ela me ensinou a existir no mundo”, conclui. Alguém duvida?

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