Gerando resumo
Os boicotes a empresas e os relatos de demissões motivados por posicionamentos políticos continuam repercutindo após as eleições. Nos últimos dias, listas de estabelecimentos a favor de Lula circularam nas redes sociais. Agora, empresários relatam cancelamentos de contratos, perda de seguidores e receio de que a exposição comprometa os negócios. Trabalhadores, por sua vez, afirmam ter sido dispensados após o resultado eleitoral e temem sofrer novas retaliações caso denunciem.
Em relação ao boicote a empresas, a advogada especialista em direito do trabalho e previdenciário, Laura Crisóstomo, afirma que a análise jurídica depende da forma como a prática é conduzida. A decisão individual de não consumir em determinado estabelecimento, por si só, não é ilegal, uma vez que está amparada pela liberdade de expressão e de manifestação, garantida pelo artigo 5º, incisos IV e IX. O caráter discriminatório de uma mobilização, isoladamente, também não é suficiente para caracterizar um crime, afirma Crisóstomo.
A situação muda quando há mobilização organizada com a finalidade de discriminar ou prejudicar empresas em razão do posicionamento político de seus proprietários, avalia a advogada. “Pela prática que estamos vendo, alguns condutas podem ser consideradas ilegais. Além de falar que não vai (consumir), estão gerando discriminação contra os empresários por causa do posicionamento político”, afirma.
Mas é necessário verificar se houve, por exemplo, divulgação de informações falsas ou ameaças. Na esfera cível, a advogada aponta os artigos 186, 187 e 927 do Código Civil, que tratam de atos ilícitos, abuso de direito e obrigação de reparar danos, como possíveis fundamentos para a responsabilização, a depender das circunstâncias do caso.
A advogada Hanna Gois também ressalta que não há um tipo penal específico para a promoção de boicotes. “A análise é complexa porque há o embate de dois direitos fundamentais: a liberdade de expressão e os direitos de personalidade. Mas, a depender de como essa conduta é executada, podemos ter uma configuração de crimes contra a honra, injúria, calúnia, difamação, ou de responsabilidade civil”, diz.
No caso de responsabilidade civil, podem ser considerados prejuízos financeiros decorrentes da conduta, como lucros que a empresa deixou de obter. “É uma linha muito tênue”, afirma. Nesse caso, o responsável poderá ser condenado a indenizar a vítima por danos morais ou materiais, incluindo lucros cessantes, quando houver prejuízos financeiros decorrentes da conduta, a partir dos artigos 186, 187 e 927 do Código Civil, que tratam de atos ilícitos, abuso de direito e obrigação de reparar danos.
De acordo com a advogada Crisóstomo, empresários impactados podem recorrer à Justiça para tentar interromper a divulgação das listas e de conteúdos considerados lesivos. Entre as medidas possíveis estão pedidos de tutela de urgência para retirar publicações do ar, além de ações para buscar reparação por eventuais danos. No entanto, a responsabilização depende das circunstâncias e das provas de cada caso.
Empresárias tentam conter prejuízos
Em Santos, no litoral paulista, uma lista reuniu 33 empresas. Diante da repercussão, empreendedores começaram a se articular para discutir medidas contra os boicotes e tentar reduzir os prejuízos.
Uma das empresárias afetadas é Ludmilla Rossi, fundadora e CEO do Juicyhub, hub de inovação com 18 funcionários. Ela descobriu na segunda-feira, 26, que a empresa havia sido incluída na lista. Inicialmente, a publicação circulava em formato de texto, mas depois foi propagada em imagens produzidas por inteligência artificial com os nomes das empresas.
Após a divulgação da lista, Ludmilla registrou uma rescisão de contrato por “divergência de valores”, além de outros dois cancelamentos, embora esses não tenham informado os motivos da decisão. “Estamos assustados”, afirma. A empreendedora também relata uma queda de aproximadamente 2 mil seguidores em um dos canais da empresa.

No início, a estratégia era evitar dar visibilidade à publicação. Mas a empresária decidiu gravar vídeos em sua conta para questionar a divulgação das listas. A reação levou empreendedores impactados a criar um grupo para discutir como agir diante da situação. “Minha preocupação é mais com a violência que esse grupo está incitando do que qualquer outra coisa”, afirma.
Ela também teme os efeitos sobre a economia local, caso consumidores deixem de frequentar estabelecimentos por causa das preferências políticas. “Eu não entendi esse boicote econômico, sendo que vai prejudicar todo mundo”, diz.
Em Juiz de Fora, em Minas Gerais, outra publicação relacionou 49 negócios. A empresária Juliana Faria consta na lista e agora tenta administrar os efeitos da exposição. Ela mantém uma consultoria de vendas e um coworking voltado a empreendimentos liderados por mulheres. O espaço reúne 25 negócios.
No segundo turno, ela decidiu se manifestar após a disseminação de discursos contrários ao voto feminino. “Eu e o coworking nos posicionamos para coibir o discurso contra o voto feminino”, afirma. A empresária ressalta que o espaço reúne mulheres com diferentes posições políticas, de direita, esquerda e centro. A intenção era garantir que todas pudessem trabalhar independentemente de suas escolhas políticas, diz.
Quando a lista foi divulgada, ela publicou vídeos para tranquilizar as mulheres que frequentam o espaço e entender se a exposição havia provocado cancelamentos. “Nosso vídeo foi para acalmar, acolher e entender se tiveram algum cancelamento por causa disso”, explica.

Embora não tenha tido contratos cancelados formalmente, Juliana afirma que negociações que estavam prestes a ser fechadas foram adiadas. “A gente sabe que foi por isso, porque foi logo depois do resultado”, diz. A empresária também relata que um “instituto da cidade, em prol de crianças em vulnerabilidade, que recebe ajuda do coworking, teve cancelamentos”.
No momento, ela diz que ainda avalia quais medidas poderão ser adotadas coletivamente. Mas teme que a reação ultrapasse a disputa eleitoral e atinja os negócios liderados por mulheres. “Eu tenho mulheres no coworking que sustentam famílias com seus negócios”, afirma.
Na lista de Juiz de Fora, também apareceu a maquiadora Rapha Maranha, que se posicionou durante a campanha eleitoral. Segundo Juliana, ela teve todos os contratos de maquiagem para casamentos cancelados até o final do ano. A empresária acrescenta que a relação de empresas inclui pessoas que não se posicionaram publicamente.
Trabalhadores relatam demissões e temem denunciar
Os efeitos da polarização também repercutem no ambiente de trabalho. O Ministério Público do Trabalho (MPT) já recebeu 3.754 denúncias de assédio eleitoral em 2026. Entre quarta-feira e quinta-feira, o número total de registros passou de 3.080 para 3.754, um aumento de 674 denúncias. A alta foi de 21,9% em apenas um dia.
A advogada Laura Crisóstomo afirma que recebeu relatos de mais de 50 casos de demissão relacionados a posicionamentos políticos. A advogada afirma que a comprovação do assédio eleitoral pode ser difícil, sobretudo quando o empregador não apresenta formalmente a motivação política para o desligamento.
“É muito difícil conseguir provar que houve assédio eleitoral, mas o trabalhador sabe porque viveu aquilo”, diz.
Mensagens, gravações de áudio, capturas de tela de conversas e testemunhos podem constar como prova para verificar se houve — ou não — assédio eleitoral, afirma a advogada. Se comprovada a relação entre a demissão e a preferência política do funcionário, podem ser discutidas medidas como a reintegração ao emprego ou uma indenização substitutiva, além de eventual reparação por danos morais. A possibilidade de obter essas medidas depende da análise das circunstâncias e das provas.
Na prática, o patrão pode contratar e demitir quem quiser, mas esse poder não autoriza a adoção de critérios discriminatórios. No contexto de eleições, o medo de represálias faz com que algumas pessoas evitem procurar a Justiça.
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Cida, que trabalha como diarista, afirma ter sido dispensada com a cunhada depois de 14 anos trabalhando na mesma residência, na zona oeste do Rio de Janeiro.
Ela (que não quis passar o sobrenome por medo de represália) diz que o empregador não aceitou que as duas tivessem votado em Lula. Na segunda-feira após a eleição, recebeu uma mensagem informando que o vínculo de trabalho havia sido encerrado. A diarista diz que tem medo de sofrer represálias caso preste uma denúncia do antigo empregador, a quem prefere não revelar a identidade. “Ele disse que a gente não atravessasse o caminho dele. Me pediram para denunciar, mas eu tenho medo dele”, diz.
Outro relato recebido pela reportagem é o de Betisa Souza, que mora em Parauapebas, no Pará. Ela trabalhava havia 42 dias no setor de materiais quando foi dispensada, na segunda-feira após a eleição. Ao perguntar o motivo, diz que não recebeu uma explicação naquele momento. Algumas horas depois, recebeu uma mensagem pelo WhatsApp que, segundo ela, relacionava a demissão à sua preferência eleitoral.
“Disseram que eu votava no Lula e era muito enjoada com política”, relata, reproduzindo a justificativa que afirma ter recebido. A trabalhadora diz que não costumava falar sobre política no ambiente profissional, mas diz que respondia quando algum colega iniciava o assunto. Betisa decidiu não entrar com uma ação trabalhista por enquanto. A trabalhadora também teme retaliações e prefere não identificar a empresa.





