Recentemente, um meme envolvendo a apresentadora Adriane Galisteu chamou atenção no X (ex-Twitter) e reacendeu um debate antigo: até que ponto memes gerados por inteligência artificial (IA) conseguem ser engraçados?
O estopim para a discussão é meio tortuoso, mas segure firme. A página Adriane Galisteu Charts, que já soma 21,8 mil seguidores, publicou uma imagem bizarra da apresentadora em versão “ciclope”, ou seja, exibindo apenas um olho no meio da testa — até a artista curtiu. Na sequência, surgiram múltiplas variações criativas da brincadeira, desde Galisteu em versão “árabe” até uma versão dela junto de esqueletos do desenho animado Scooby-Doo. Todos os memes foram feitos por pessoas, artesanalmente, sem IA. Mais um dia normal na internet brasileira.

Enquanto isso, outra criação viral bombava nas redes. A cantora virtual Tocanna lançou a paródia “São Paulo”, considerada uma versão proibidona da música “Empire State of Mind”, de Jay-Z e Alicia Keys. Desta vez, o meme era produto de uma IA. E os dois mundos colidiram quando Tocanna emitiu uma opinião negativa sobre o meme de Galisteu.
Imediatamente, a rede social se dividiu. Muitos criticaram a cantora virtual, argumentando que memes “mal feitos” por pessoas são mais autênticos e engraçados do que os gerados por IA, vistos como menos criativos.
Uma dessas pessoas é William Brandão Bilatto, 23, analista de dados que acompanha memes no Instagram. Ele não vê graça nos memes gerados por IA e ressalta a importância da criatividade humana na produção de humor. “Falta a criatividade. Eu acho que a IA consegue fazer um processo bom, dependendo do comando, uma imagem de boa qualidade, mas fica com aquele gostinho de artificial”, afirmou, destacando que, para ele, o toque humano continua sendo essencial para que o conteúdo tenha arranque risadas.
Quem trabalha com isso também já sentiu na pele a rejeição por memes feitos com IA. “O público é muito dividido e já tivemos reações negativas quando usamos IA em alguns memes, principalmente na época em que começaram as polêmicas com os rostinhos do Studio Ghibli. Gerou muito hate”, afirma Felipe Misale, criador da página @meltedvideos, uma das mais conhecidas páginas de memes do Brasil, com 2,3 milhões de seguidores no Instagram.
Ele explica que o sucesso de um meme está na identificação. “As pessoas têm que se ver no meme. Eu preciso olhar para a peça e pensar: ‘nossa, isso aqui é muito eu’. Esse é o gatilho para compartilhar. Sempre tento sintetizar em imagem um pensamento ou um momento que a sociedade está vivendo”. E nem sempre isso acontece quando ferramentas de IA aparecem claramente na produção.
João Finamor, professor de marketing digital na ESPM, a essência do meme está na apropriação cultural e emocional. “O usuário se apropria de alguma forma para continuar contando essa história, e isso faz com que, diferente de um viral, o meme tenha uma sobrevida muito maior. As pessoas vão transformando, gerando um novo propósito, uma nova narrativa, e o assunto continua reverberando”, explicou ao Estadão, citando o exemplo da Galisteu e de outros memes clássicos, como os de Gretchen, que nunca vão sair de moda.
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Misale reconhece a utilidade para ajustes de edição, mas evita seu uso direto na criação, pois a rejeição, para ele, é estética. “O que a gente não quer é que o meme tenha aquela cara de IA. Quem gosta de meme curte a imagem craquelada, o jpeg surrado. A IA geralmente entrega algo muito limpo, muito bem acabado, e isso tira a graça”.
Fãs de IA também existem e conflito de gerações
Ainda que possa gerar rejeição entre os puristas do meme, Finamor argumenta que a presença na criação de memes tende a crescer. “Cada vez mais, vamos ter memes criados por IA. Tudo é questão de narrativa: enquanto gerar identificação, vai funcionar. A diferença é a parte final: escrever um prompt ou abrir um editor de imagens. A execução muda, mas a ideia inicial é humana”. E já existe gente que gosta disso.
Marcelle Gomes, 24, estudante de psicologia que costuma acompanhar memes no TikTok e no X, vê no humor da IA uma questão de quebra de expectativa. “Eu gosto de memes com IA pela quebra de expectativa. Às vezes vemos um vídeo super realista e, do nada, acontece algo completamente absurdo e você percebe que era IA. Acho isso engraçado. É diferente do humor tradicional, mas os dois podem ter graça”, disse ao Estadão.
Ela também destacou que o humor digital é tanto geracional quanto sazonal. “Tem épocas em que certas coisas parecem muito engraçadas, mas, quando olhamos depois, já não têm a mesma graça. O riso depende do momento”, explicou. Na visão dela, a forma como diferentes gerações consomem memes interfere na recepção, mas, independentemente disso, tanto os feitos por pessoas quanto os criados por IA têm o mesmo potencial de serem engraçados.

Finamor, da ESPM, observa que a criação de memes também revela tensões entre gerações. “O meme mais ‘zoado’ tende a se conectar mais com pessoas mais velhas, enquanto os criados por IA naturalmente dialogam com os mais jovens. Isso gera uma batalha geracional: o famoso ‘no meu tempo era melhor’. A cada inovação, surge um incômodo. Quem já está acostumado resiste à mudança, enquanto quem está chegando agora costuma abraçá-la”, afirmou.
Lucas Thomazette, 21, analista de dados que acompanha memes no Instagram e no X, concorda que a diferença geracional é evidente, mas prefere o humor tradicional, acompanhando apenas os absurdos proporcionados pela IA. “O original, mal feito, ainda é bem mais engraçado. Mas memes de IA podem gerar humor pelo absurdo, pelo fato de você saber que é uma máquina que fez aquilo”. Ele completou: “O engraçado do meme de IA é você perceber que é uma IA e que ele é muito péssimo. Então eu acho que essa é a graça, o humor é isso, né, saber que é zoado”.
“O caso mais bem-sucedido de memes de IA foi o dos Italian Brainrots. Ali, a graça estava em ver a máquina ‘burra’ interpretando comandos de forma literal, ou em prompts feitos de propósito para gerar misturas nonsenses. É o humor do absurdo, muito característico de gerações mais novas”, explicou Misale, da Melted.
Os Italian Brainrots foram um fenômeno que explodiram no meio do ano, em plataformas como TikTok e Instagram. Os vídeos misturavam personagens, frases desconexas e situações sem lógica, sempre embalados por músicas italianas aceleradas. O nonsense era justamente o atrativo: quanto mais absurdo e caótico, maior a graça. A tendência, fortemente adotada pela geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) e Alpha (nascidos entre 2013 e 2025), popularizou expressões como “tralalero tralala” e mostrou como o humor digital pode se reinventar a partir da saturação de referências culturais, do exagero e do erro proposital.
Qual o futuro dos memes?
O debate sobre o futuro dos memes vai além da estética e envolve questões éticas, de direitos autorais e consentimento. Ferramentas como ChatGPT, Gemini e apps como Vibes e Sora 2 tornam a produção de memes por IA mais acessível, indicando que o formato automatizado tende a crescer.
O ChatGPT foi lançado em novembro de 2022, e a geração de imagens com o modelo multimodal GPT-4o foi anunciada em março de 2025, substituindo o DALL·E 3. O Google Gemini, por sua vez, foi oficialmente lançado em dezembro de 2023 como um modelo multimodal para competir com o GPT-4.

Em junho de 2025, o Gemini lançou o 2.5 Flash Image, que permite gerar e editar imagens a partir de texto e imagens carregadas. Em julho, foi apresentada a funcionalidade foto para vídeo, e em agosto o modelo recebeu uma atualização focada em consistência visual. O Nanobanana é o codinome interno do Gemini 2.5 Flash Image, lançado oficialmente em agosto de 2025.
O Vibes, nova rede social da Meta, foi lançado em 25 de setembro de 2025. É um feed de vídeos curtos gerados por IA, integrado ao aplicativo Meta AI, que permite criar, remixar e compartilhar conteúdos. Já o Sora 2, da OpenAI, mesma empresa do ChatGPT, foi lançado em 1º de outubro de 2025 para iOS, permitindo criar vídeos realistas de 10 segundos a partir de prompts de texto, com sincronização aprimorada de áudio e vídeo.
Para João Finamor, o investimento nessas plataformas de IA reflete diretamente no interesse e na aceitação do público. “O Google com o Gemini, a Meta agora com o Vibes, o próprio ChatGPT, todas essas plataformas estão recebendo investimento, e onde há investimento, há interesse por parte do público”, explicou, “Isso vai, com certeza, reverberar cada vez mais na forma como consumimos esses tipos de conteúdo. Estamos sendo impactados por conteúdo automatizado e, muitas vezes, nem percebemos”.
Ele também destacou a mudança na percepção dos usuários ao longo do tempo. “A aceitação já é maior: antigamente, um avatar virtual como a Lu, da Magalu, causava estranheza. Hoje, vemos uma cantora de IA cantando e parodiando ‘São Paulo’ e já está tudo bem. A aceitação por parte dos usuários nas redes sociais está crescendo”, disse, “O que faz o sucesso ou fracasso é a representatividade e a conexão da narrativa. Se as pessoas se sentem representadas, o meme viraliza”.
Para Felipe Misale, memes com IA podem ser engraçados, mas dependem da adaptação do público à nova linguagem. “Eu vejo graça nas criações com IA, principalmente se o público está gostando. Quem é mais crítico pode não achar, mas para o grande público, muitas vezes é divertido e faz rir.”
Ele acrescentou que a recepção depende de quem consome o conteúdo: “Acho que vai ter futuro, porque o humor com IA funciona para quem está recebendo a mensagem. Não dá para se limitar pelo gosto pessoal; o importante é a reação do público.”
