O senador Davi Alcolumbre (União-AP) não está à altura da presidência do Senado. Isso já era mais ou menos claro desde que ele se tornou presidente pela primeira vez, em 2019. Mas agora, no auge de uma crise institucional gravíssima no Supremo Tribunal Federal (STF), cuja atuação está sujeita justamente aos freios constitucionais do Senado, Alcolumbre se revela por inteiro como é: um político exclusivamente preocupado com seus interesses pessoais, e que maneja suas prerrogativas não em prol da República, mas para extrair delas vantagens pessoais e blindagem para si próprio e para os amigos.
Cabe ao Senado processar, julgar e, se necessário, afastar ministros do Supremo e o procurador-geral da República. É uma atribuição concebida para que um Poder da República possa servir de contrapeso a outro. Alcolumbre parece ter encontrado serventia mais paroquial para ele. O que deveria ser freio institucional virou moeda de poder.
Segundo informou o jornal O Globo, o ministro do STF Alexandre de Moraes, encalacrado no escândalo do Banco Master em razão de sua relação promíscua com o banqueiro Daniel Vorcaro, se reuniu com Alcolumbre por várias horas antes de partir para a ofensiva contra André Mendonça. Algum tempo depois, já no plenário, Alcolumbre foi cobrado sobre os pedidos de impeachment contra Moraes. Irritou-se.
Alcolumbre saiu em defesa de Alexandre de Moraes quando foi questionado pelo senador e candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL). “Todo mundo esqueceu que pediram R$ 130 milhões para a mesma pessoa para fazer um filme. E agora o culpado só é o ministro Alexandre de Moraes”, disse o presidente do Senado, referindo-se ao pedido que Flávio Bolsonaro fez ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ou seja, em vez de prestar contas sobre o exercício de uma prerrogativa constitucional, respondeu com uma ameaça política.
Ora, não se trata apenas de proteger um amigo ou ainda de alfinetar um inimigo. Alcolumbre tem muito mais coisas em jogo nessa história do que o bom funcionamento das instituições. Alexandre de Moraes é aliado, e André Mendonça, desafeto. O caso Master, no centro da guerra que hoje dilacera o Supremo, também passa muito perto do senador. Foi Alcolumbre quem indicou o presidente da Amprev, fundo de pensão dos servidores do Amapá que aplicou R$ 400 milhões em títulos do banco. O senador ainda esteve na faustosa degustação de charutos e uísque oferecida por Daniel Vorcaro em Londres, em 2024. Vorcaro relatou ter se encontrado com Alcolumbre inclusive na residência oficial do Senado, e esses encontros também ajudam a dimensionar a proximidade entre o banqueiro e o senador. Tudo isso ainda está pendente de explicações por parte do presidente do Senado.
Mendonça, por sua vez, está à frente das investigações do Master que avançaram sobre personagens próximos a Alcolumbre. Na maior crise moral vivida pelas instituições brasileiras em décadas, o sistema de autoproteção já está em pleno funcionamento. E o presidente do Senado parece agir para preservá-lo.
André Mendonça não virou desafeto de Alcolumbre por causa do Master. Os dois já carregam uma inimizade de cinco anos. Em 2021, como presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, Alcolumbre reteve por mais de quatro meses a indicação de Mendonça ao Supremo, resistiu a marcar sua sabatina e trabalhou para derrotá-lo. Neste ano, a proximidade do advogado-geral da União, Jorge Messias, com Mendonça também pesou na guerra conduzida pelo presidente do Senado contra a indicação de Messias ao STF. Em ambos os casos, não atuou apenas como presidente da Casa, a quem cabe conduzir o rito. Interferiu diretamente na disputa e atuou nos bastidores para produzir o resultado que desejava, simplesmente porque queria emplacar os amigos Augusto Aras em vez de Mendonça e Rodrigo Pacheco em vez de Messias.
Alcolumbre tem uma concepção bastante peculiar de como o Senado deve conter eventuais abusos do Supremo. A prerrogativa constitucional parece servir conforme o ministro, o interesse e a ocasião. Ora, não é assim que se comporta o presidente de um Poder da República. Uma atuação como essa já seria deplorável mesmo se Alcolumbre fosse vereador de um dos 16 municípios do Amapá. Na presidência do Senado, é inaceitável.
