Bebês reborn: como é maternidade das bonecas com preço de até R$ 9,5 mil; veja vídeo

Imitações de recém-nascidos ficaram populares nas redes sociais

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Foto do autor Giovanna Castro
Por Giovanna Castro e Layla Shasta
Atualização:

A moda do bebê reborn: hobby ou problema de saúde? Como diferenciar?

Para especialistas, a brincadeira é saudável e só ultrapassa limites quando a noção entre realidade e ficção é comprometida.

As bebês reborn, bonecas hiper-realistas que imitam recém-nascidos, têm ganhado popularidade entre adultos nas últimas semanas. Vídeos no TikTok mostram pessoas tratando essas bonecas como se fossem crianças de verdade, com direito a consultas médicas e até simulações de parto.

Alguns famosos, como a influenciadora fitness Gracyanne Barbosa e o padre Fábio de Melo, adquiriram exemplares e fizeram postagens a respeito. “Meu sonho é ter um filho. Podem me julgar, no começo achei estranho. Mas Benício me trouxe felicidade. Te amo, Bê”, escreveu Gracyanne sobre sua bebê reborn no Instagram.

Daniela Baccan é sócia da Alana Babys, loja e fabricante de bebês reborn em Campinas (SP). Segundo ela, esse tipo de boneca existe desde o começo dos anos 2000, mas tem sido aprimorada com novos materiais há cerca de três anos para, cada vez mais, se parecerem com bebês reais. Pode custar entre R$ 750 e R$ 9,5 mil, a depender do tipo de material e da complexidade de produção.

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Bonecas hiper-realistas são feitas de silicone sólido e preços superam R$ 9 mil. Foto: Felipe Rau/Estadão

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A loja oferece a experiência de “maternidade”, em que as bonecas saem com cordão umbilical, certidão de nascimento e carteira de vacinação. A empresária afirma que as vendas aumentaram nos últimos meses graças à viralização das bonecas nas redes sociais, mas a maioria das compras no local é para crianças.

“Também vendemos bonecas para adultas, mas é mais ou menos uma por semana”, relata. “Muitas vezes é aquela mulher que sempre quis ter uma boneca quando criança, mas não pôde, e agora pode investir em uma de boa qualidade”, diz.

“Não vou dizer para você que não tem (mulheres que tratam como criança). Tem, mas não é a maioria. É uma minoria, que geralmente faz isso para chamar a atenção, vender boneca também.”

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Colecionadores também são público-alvo da loja, assim como hospitais, faculdades e doulas, que compram as bonecas com objetivos educacionais, para simular partos e cuidados com recém-nascidos. Os modelos de silicone demandam os mesmos cuidados na pegada que bebês reais, por terem material sensível e com pouca sustentação, e por isso são demandados em treinamentos.

Boneca é feita artesanalmente

Um bebê reborn pode custar até R$ 9,5 mil, quando feita de silicone sólido, material mais parecido com a pele de recém-nascido, e com dispositivos que imitam batimentos cardíacos e/ou permitem que o bebê receba mamadeira e “urine”. “Ela tem um caninho que sai da boca e vai até a parte íntima, para que o líquido entre e saia”, explica Daniela.

Características das bebês reborn podem ser personalizadas. Cabelos são feitos de pelo de cordeiro fixados fio a fio. Foto: Felipe Rau/Estadão

Os modelos mais básicos, feitos de vinil - material massivamente usado na fabricação de bonecas “normais”, mais rígidas -, têm valores que partem de R$ 750. “Essas são as mais compradas para crianças, até porque os modelos de silicone são sensíveis e demandam cuidado”, diz a empresária.

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As bonecas são produzidas artesanalmente e podem ter diferentes características. São utilizadas referências de bebês reais e, no caso dos modelos de silicone, desenhadas camada por camada, até formar cada dobrinha e detalhe.

“Até mesmo as cores das bonecas são feitas em referência a recém-nascidos. Elas são mais rosadinhas, roxinhas, têm as veias aparecendo”, descreve Daniela.

Bonecas simulam recém nascidos e, em alguns casos, podem conter até cordão umbilical. Foto: Felipe Rau/Estadão

Os cabelos, de pelo de cordeiro, são fixados fio a fio. Algumas bonecas acompanham ainda um cordão umbilical, também feito de silicone. Tudo pode ser personalizado. “Tem gente que pede boneca igual ao filho quando era recém nascido, para guardar de lembrança”, diz Daniela.

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Para completar a brincadeira, na Alana Babys as bonecas ainda levam um enxoval de roupas e acessórios de bebês de verdade, uma “certidão de nascimento” e um cartão de vacinas, já com consulta marcada para a boneca retornar à loja para receber vacina e cuidados.

Adulta pode brincar de boneca?

O uso de bebês reborn por adultos tem esquentado as discussões nas redes sociais. De um lado, há quem critique e até questione a sanidade mental de mulheres adultas que supostamente têm tratado as bonecas como filhas “de verdade”.

Há relatos nas redes de pessoas que tentaram marcar consultas médicas para bebês reborn ou até contratar advogado para processo de guarda compartilhada, mas a reportagem não conseguiu confirmar se os casos são reais.

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Outra parte dos internautas aponta um suposto viés machista nas críticas à moda.

“Me recuso a entrar na pauta do bebê reborn porque, na minha concepção, se tem homem de 40 anos vestindo camiseta do superman e colecionando action figure, tá mais do que liberado brincar de boneca”, diz outro usuário do X.

Segundo o psicólogo Marcelo Santos, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a popularização do brinquedo por adultos pode ter benefícios à saúde mental. Isso porque permite criar comunidades, favorece o senso de pertencimento e a interação social, além de estímulo criativo e relaxamento.

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“Não dá para ‘patologizar’ (definir a prática como doença) automaticamente. É importante analisar quais os contextos e as motivações por trás desses comportamentos”, pondera.

O limite entre hobby e problema de saúde mental está na frequência, na intensidade, na distorção da realidade e no impacto na vida do indivíduo, segundo a psicóloga Rita Calegari, do Hospital Nove de Julho. É preciso saber separar o que é brincadeira da vida real.

O ‘parto’ de reborn que esquentou a polêmica

Um dos principais vídeos que contribuíram para a recente repercussão nas redes foi publicado em 2022 pela influenciadora Carolina Rossi, de 31 anos, conhecida como Sweet Carol. Na gravação, ela aparece simulando um parto empelicado (quando um bebê, ao nascer, ainda está envolvido pelo saco amniótico, que permanece intacto) com uma boneca.

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O vídeo foi compartilhado novamente em 24 de abril por uma página de humor no Instagram chamada “coisaspvchapado” e teve mais de quatro milhões de visualizações e oito mil comentários. “Lindo o nascimento do Chucky (brinquedo assassino do filme de terror)”, escreveu uma seguidora. “Eu gostaria de poder desver esse vídeo”, disse outro.

Ao Estadão, Carolina contou que trabalha produzindo vídeos ASMR (sigla em inglês para Resposta Sensorial Meridiana Autônoma), em que o seu tom de voz e os sons utilizados geram um efeito de relaxamento em quem escuta.

Para isso, ela eventualmente interpreta papéis (técnica chamada de role play). Naquele caso, afirma que assumiu o papel de uma enfermeira realizando um parto.

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“Sou formada em Enfermagem e foi uma forma de juntar duas coisas que amo: a obstetrícia com o ASMR, que é o meu trabalho há muitos anos”, diz. “Achei que o som da água (da reprodução da bolsa amniótica do parto) seria muito bom para relaxar e realmente foi, dentro do meu nicho“, afirma a influenciadora, que tem mais de três milhões de inscritos em seu canal no YouTube.

O vídeo, porém, tem sido associado à “humanização” dos bebês reborn. “As pessoas estão confundindo muito o meu vídeo, interpretam de maneira errônea, como se eu fosse parteira de bebê reborn. Não crio bebês reborn”, diz Carolina. “Está até afetando a minha saúde mental, de tanta mensagem negativa que leio sobre isso.”

Para Daniela, vídeos de parto dos reborn - geralmente feitos com bexigas ou sacos plásticos, gelatina líquida e uma “placenta” de silicone - são formas de chamar a atenção para o quão realistas são as bonecas. Outras práticas vistas como de “humanização”, na visão dela, são apenas formas de criar uma experiência lúdica de brincadeira de boneca.

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