'O Último Azul' estreia no Brasil
Filme de Gabriel Mascaro se passa na Amazônia, em um futuro próximo, onde um governo transfere idosos para uma colônia habitacional. Crédito: Desvia Filmes
Rodrigo Santoro não se esquece da histórica sessão de Bicho de Sete Cabeças no Festival de Brasília de 2000. Prestes a completar 50 anos nesta sexta, 22, o ator tinha só 25 na época. Estava estreando no cinema, mas já possuía a aura de galã da Globo.
O público de Brasília tem a fama de politizado. Quando Othon Bastos e Cássia Kis, que fazem o pai e a mãe de seu personagem – Neto -, subiram ao palco para a apresentação, foram ovacionados. Ele sofreu uma vaia. “Naquele momento conheci a força do preconceito.”
Mas teve troco. Após a projeção, os aplausos não paravam. Um tenso Rodrigo havia saído da sala, a diretora Laís Bodanzky foi buscá-lo. “Vem, olha!”, dizia. Um garoto o abraçou. “Cara, te vaiei, mas me desculpa.”
Rodrigo havia sido recomendado a Laís pelo lendário Paulo Autran, com quem havia contracenado na minissérie Hilda Furacão, um marco do formato no fim dos anos 1990. Mas foi em Brasília, naquela noite triunfal – o filme terminaria recebendo quase todos os prêmios daquela edição -, que ele teve uma revelação. “Percebi que, como ator, ao exercer meu ofício, eu conseguiria vencer as resistências e chegar ao coração do público se fosse sincero. Desde então, nunca deixei de buscar a verdade de todos os personagens que interpreto. As pessoas podem gostar ou não do que faço, mas eu dou o melhor de mim. Me entrego. Depois, é com elas.”
Ele conversa com o Estadão numa sala reservada da fábrica Cristais de Gramado, verdadeira referência brasileira na arte milenar de fabricação de cristais de Murano, na tarde de sábado, 16. Na véspera, foi homenageado com o Kikito de Cristal no Festival de Gramado, que exibiu seu longa O Último Azul, dirigido por Gabriel Mascaro, premiado com o Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim, em fevereiro.
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Por mais importante que seja o papel, Rodrigo é coadjuvante. Denise Weinberg faz a protagonista, essa mulher – idosa – aposentada compulsoriamente no Brasil distópico que Mascaro filma com tanto brilho. No mundo do filme, Teresa – é seu nome – deve ser apartada do convívio social e enviada para a Colônia, de onde ninguém volta. Ela se rebela. Seu sonho é voar. Convence Rodrigo, como piloto de um barco, a levá-la numa viagem de fuga pelos igarapés da Amazônia.
Rodrigo, o astro internacional, vencedor do Kikito de Cristal, como coadjuvante? Não é a primeira vez. “Nunca escolhi papéis pelo tamanho. E nem sou eu que escolho. Os papéis me escolhem. Queria trabalhar com Gabriel [Mascaro] e ele escreveu o papel para mim. Esses papéis, aparentemente menores, são os mais difíceis. Você não tem uma longa curva dramática. Tem de chegar ao público com o personagem pronto e criá-lo com intensidade, de forma a deixar uma marca no espectador.” Rodrigo faz essa reflexão depois de, seguindo uma prática do festival, ajudar a esculpir o Kikito de Cristal que será outorgado no próximo ano. “Para quem?”, ele deixa a pergunta no ar.

Foi o primeiro prêmio que recebeu, no Brasil, por sua carreira internacional. Foram papéis pequenos em The Roman Spring of Mrs. Stone, com Helen Mirren, adaptado de Tennessee Williams, e As Panteras. Nesse, ele até acha graça ao contar – “Estava numa première em Los Angeles – a de Abril Despedaçado – e uma produtora ligada a Drew Barrymore veio me falar da adaptação para o cinema da série de TV, Charlie’s Angels. Mas ela me disse que tinha certas exigências. Eu teria de surfar.”
Até recentemente, era o esporte preferido de Rodrigo. “Aos 48 anos, descobri o tênis e agora não quero saber de outra coisa.” Mesmo assim, aceita bater uma bolinha. A resistência física? “Não é problema.” Estamos falando de diversão. O ofício é coisa séria.
“O cinema tem me permitido conhecer pessoas e explorar áreas desconhecidas de mim mesmo. Não me tenta ficar repetindo personagens. E gosto quando o papel me tira de mim, por exemplo, o Xerxes de 300 (de Zack Snyder). Não tinha nada a ver comigo, exigiu uma preparação física muito intensa.”
Precisou aprender espanhol – com sotaque cubano – para ser o Camilo Cienfuegos do Che de Steven Soderbergh, foi o par gay de Jim Carrey em O Golpista do Ano, de Glen Ficarra e John Requa, formou um dos casais de Simplesmente Amor, de Richard Curtis, outro casal – grávido, com Jennifer Lopez - em O Que Esperar Quando Você Está Esperando?. A lista é longa.

Encara os desafios com a certeza de que foram os papéis no Brasil, no Bicho de Sete Cabeças, no Walter Salles – Abril Despedaçado –, no Hector Babenco – Carandiru -, na própria TV, com Luiz Fernando Carvalho – Hoje É Dia de Maria -, que o lançaram ao mundo. “Sou brasileiro, carrego isso no coração, aonde for.”
Para muita gente – para o público -, a carreira internacional é sinônimo de glamour. Não apenas Hollywood – fala com carinho da experiência de Leonera, na Argentina, com Pablo Trapero. Mas filmar longe de casa pode ser, e é, muitas vezes, um ofício solitário. “Você sozinho consigo mesmo. Já fui mais ansioso, hoje controlo mais minhas emoções. Estou adorando chegar aos 50 anos.”
É um homem de família. Levou os pais - e a esposa – para Gramado. Fala muito da irmã, da esposa, das filhas, da gata. “Fui criado num ambiente feminino e isso se reflete no homem que sou, nos personagens que faço. O de O Último Azul é um homem num barco, o que parece a definição da liberdade. Mas ele é prisioneiro nesse barco. Amarga a dor de ter sido abandonado pela mulher. É um personagem que questiona ideias de virilidade, o que é ser homem. Ao agradecer meu prêmio, emocionei-me e engasguei em vários momentos. Você viu, você estava lá. Não tenho vergonha de ser emotivo, de assumir minhas fragilidades.”
A par de O Último Azul – que estreia nos cinemas em 28 de agosto -, Rodrigo também está no filme da Netflix, O Filho de Mil Homens, baseado em Valter Hugo Mãe. “Queria muito fazer, mas o convite veio quando estava sendo chamado para uma série internacional, e era muito atraente. Fiquei em dúvida. O personagem do Mãe tem uma dimensão mágica que é sedutora no livro, mas me parecia difícil de fazer. Achava até que não saberia fazê-lo, mas optei pelo Filho de Mil Homens e não me arrependo. Foi muito gratificante. Aliás, não me arrependo de nenhum papel. Todos ajudaram na construção dessa trajetória.”

Na recente Flip, Rodrigo encontrou-se com Valter Hugo Mãe. O escritor revelou que não apenas havia gostado da adaptação de Daniel Rezende – roteirista e diretor -, mas até que a achava superior ao próprio romance. “Achei que ele estava sendo simpático, mas depois vi que era sincero. Ele acha realmente isso.”
O Filho de Mil Homens estreia ainda este ano, “pelo menos foi o que ouvi”, ele acrescenta. Daniel Rezende foi indicado para o Oscar pela montagem de Cidade de Deus. Coincidência ou não, Rodrigo também estrela o novo filme do próprio Fernando Meirelles, em parceria com Ernesto Solis, Corrida dos Bichos. Ambientado num futuro distópico, propõe uma versão reinventada do jogo do bicho, em que corredores de parkour representam animais numa disputa milionária.
Ou seja, vem por aí uma temporada de Rodrigo Santoro. Como ele se sente? “Relaxado, e feliz. Nunca tive tantos projetos como agora”, conclui.
