No Japão, às duas da manhã, não tem nem carro nem pedestre na rua - mas todo mundo fica parado na faixa feito poste, esperando o sinal de pedestre abrir. Se é no Brasil, a pessoa vê que não tem ninguém por perto e atravessa no vermelho mesmo, despeitado, de ré, fazendo o moonwalk do Michael Jackson. Aqui, quem fica de bobeira na madruga é assaltado.
A organização social nipônica se justifica plenamente, tudo funciona super-bem – mas tem aviso no metrô pedindo pra não conversar com as pessoas. Nem pode abraçar o filho: é feio. Já no Brasil, as pessoas entram nos vagões vendendo Mega-Sena, dançando lambada, tocando sanfona, fazendo discurso apocalíptico – e deixando a viagem mais curta porque lúdica.
As pessoas no Japão não conseguem tirar o barulho de câmera quando fotografam com o celular. O clique vem bloqueado de fábrica. Porque senão tem passageiro que fotografa debaixo das saias das moças no vagão. Rapaz, se pegam aqui alguém tirando foto de calcinha escondido, o povo reage, deixa o bandido peladão e fotografa para botar no Instagram.

Ainda dentro do metrô japonês, se o sujeito está mascando chiclete e esgota o sabor, não tem lixo para jogar fora. Tem que botar a sofrida goma no bolso, levando-a para descartar em casa. Se fosse no Brasil, o chicletante fazia uma bolinha e emendava um sem-pulo lá na outra estação, em ato que pode ser questionado quanto à questão sanitária - mas traz diversão pra toda a estação.
Se entra um velhinho no vagão, ninguém levanta dando o lugar. Azar o do vovô. Por aqui, a gente oferece o assento e o senhorzinho, em troca, disponibiliza o colo para a mochila de quem fica em pé.
No trabalho, as relações nipônicas são rígidas. Mas é hábito ir beber com o superior no fim do dia - numa interação forçada com a chefia. E dá-lhe saquê. Flagrei um jovem executivo, de terno, dormindo de manhã sentado na calçada, ao lado de uma poça laranja de vômito. A gente aqui no Brasil adora happy hour, mas é justamente para falar mal do patrão; não é para convidar o cara. Preferimos também gorfar no conforto do lar.
Sinceramente, o Japão é maravilhoso, mas falta. É tudo ótimo, mas massacrante - o coletivo se impõe ao indivíduo como acontecia em Esparta. Voltei morto de saudade da nossa selva caótica. De comer frutas frescas e coloridas? Da água do filtro de barro? De tomar chuva de Havaianas? Também.
Mas senti falta, principalmente, da nossa avacalhação. O Japão é bom, mas... enfim: é aquilo que o Tom Jobim disse. De um jeito bem bossa nova.
Leia também
Se nossos políticos fossem xintoístas, a gente não estaria nessa draga
Nietzsche chamaria meu desânimo com a política e o futebol de niilismo passivo


