Coluna quinzenal do roteirista Lusa Silvestre com crônicas sobre a vida vista com ironia dramática

Coluna quinzenal do roteirista Lusa Silvestre com crônicas sobre a vida vista com ironia dramática

O Japão é maravilhoso, mas falta esculhambação

É tudo ótimo, mas massacrante - o coletivo se impõe ao indivíduo como acontecia em Esparta. Voltei morto de saudade da nossa selva caótica

PUBLICIDADE

Foto do autor Lusa Silvestre

No Japão, às duas da manhã, não tem nem carro nem pedestre na rua - mas todo mundo fica parado na faixa feito poste, esperando o sinal de pedestre abrir. Se é no Brasil, a pessoa vê que não tem ninguém por perto e atravessa no vermelho mesmo, despeitado, de ré, fazendo o moonwalk do Michael Jackson. Aqui, quem fica de bobeira na madruga é assaltado.

PUBLICIDADE

A organização social nipônica se justifica plenamente, tudo funciona super-bem – mas tem aviso no metrô pedindo pra não conversar com as pessoas. Nem pode abraçar o filho: é feio. Já no Brasil, as pessoas entram nos vagões vendendo Mega-Sena, dançando lambada, tocando sanfona, fazendo discurso apocalíptico – e deixando a viagem mais curta porque lúdica.

As pessoas no Japão não conseguem tirar o barulho de câmera quando fotografam com o celular. O clique vem bloqueado de fábrica. Porque senão tem passageiro que fotografa debaixo das saias das moças no vagão. Rapaz, se pegam aqui alguém tirando foto de calcinha escondido, o povo reage, deixa o bandido peladão e fotografa para botar no Instagram.

'No Japão, às duas da manhã, não tem nem carro nem pedestre na rua - mas todo mundo fica parado na faixa feito poste, esperando o sinal de pedestre abrir', pontua Lusa Silvestre Foto: Nataliya Hora/ Adobe Stock

Ainda dentro do metrô japonês, se o sujeito está mascando chiclete e esgota o sabor, não tem lixo para jogar fora. Tem que botar a sofrida goma no bolso, levando-a para descartar em casa. Se fosse no Brasil, o chicletante fazia uma bolinha e emendava um sem-pulo lá na outra estação, em ato que pode ser questionado quanto à questão sanitária - mas traz diversão pra toda a estação.

Se entra um velhinho no vagão, ninguém levanta dando o lugar. Azar o do vovô. Por aqui, a gente oferece o assento e o senhorzinho, em troca, disponibiliza o colo para a mochila de quem fica em pé.

Publicidade

No trabalho, as relações nipônicas são rígidas. Mas é hábito ir beber com o superior no fim do dia - numa interação forçada com a chefia. E dá-lhe saquê. Flagrei um jovem executivo, de terno, dormindo de manhã sentado na calçada, ao lado de uma poça laranja de vômito. A gente aqui no Brasil adora happy hour, mas é justamente para falar mal do patrão; não é para convidar o cara. Preferimos também gorfar no conforto do lar.

Sinceramente, o Japão é maravilhoso, mas falta. É tudo ótimo, mas massacrante - o coletivo se impõe ao indivíduo como acontecia em Esparta. Voltei morto de saudade da nossa selva caótica. De comer frutas frescas e coloridas? Da água do filtro de barro? De tomar chuva de Havaianas? Também.

Mas senti falta, principalmente, da nossa avacalhação. O Japão é bom, mas... enfim: é aquilo que o Tom Jobim disse. De um jeito bem bossa nova.

Vale ler também
Alice Ferraz
Na 22ª edição, Cantores do Bem arrecadam R$ 1 milhão para Associação Aquarela
Alice Ferraz
Sarah Morris retrata gigantes corporativos em exposição inédita em São Paulo
Alice Ferraz
Governo e órgãos do Trabalho estudam “lista suja” para empresas condenadas por assédio eleitoral
Opinião por Lusa Silvestre

Roteirista dos filmes 'Estômago', 'O Roubo da Taça', 'Medida Provisória' e 'Sequestro do Voo 375'.

Tudo Sobre