PARIS — Pouco mais de um ano após seu ex-marido e dezenas de outros homens serem condenados por estuprá-la enquanto ela estava dopada, Gisèle Pelicot afirma estar feliz e em paz.
Ela tem boa saúde e não sofre de flashbacks dos anos de abuso. Uma operação recente a livrou de um câncer cervical, decorrente de uma das quatro doenças sexualmente transmissíveis transmitidas pelos estupradores. Em fevereiro, ela quitou a última das dívidas acumuladas pelo ex-marido. E ela se apaixonou por um homem com quem divide a vida e a casa, e que espera na sala ao lado o fim da entrevista.
Ela sorri para mim e aperta meus joelhos enquanto me emociono. Sua mensagem para as vítimas de estupro é direta: “Vocês não devem desistir de ser felizes”.

Após meses de silêncio absoluto, recusando centenas de pedidos de entrevista e retirando-se para uma pequena ilha na costa oeste da França para se recuperar, Pelicot agora quebra o silêncio de forma espetacular.
Sua biografia, Um Hino à Vida, acaba de ser lançada em 22 idiomas, com um audiolivro em inglês narrado pela atriz Emma Thompson (no Brasil, por Maria Manoella). Ela iniciou uma turnê intensiva de dois meses para dar palestras e entrevistas sobre como sobreviveu ao pesadelo e escolheu a felicidade como vingança. Na sexta-feira, 20, ela esteve em Londres para um evento com as atrizes Kristin Scott Thomas e Kate Winslet, que leram trechos do livro para uma plateia de milhares de pessoas.
Ao final da turnê, em abril, Pelicot, ex-executiva de logística, estará ao lado do presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, para receber um prêmio em reconhecimento à sua coragem.
Pela primeira vez em anos, ela olha para o horizonte, e não pelo retrovisor. Ela deseja reconstruir o relacionamento com seus três filhos, dois dos quais cortaram contato após o traumático julgamento. Recentemente, almoçou com seu neto mais velho, Nathan, com quem não falava desde o tribunal. E ela agora espera por um futuro compartilhado com Jean-Loup, seu novo companheiro e comissário aposentado da Air France.
Embora antes se sentisse desconfortável com o status de ícone feminista, ela agora aceita o papel em honra às milhares de mulheres que lhe escreveram cartas sinceras, fizeram fila na porta do tribunal para aplaudi-la e que ainda a param na rua para agradecer. “Aquelas mulheres realmente me deram uma força incrível”, disse ela.
Leia também
O que aconteceu com Gisèle Pelicot
A francesa sobreviveu a um horror difícil de conceber. Seu companheiro por 50 anos misturou soníferos e ansiolíticos em sua comida e bebida por quase uma década. Quando ela estava em estado de quase coma, ele a estuprava e convidava desconhecidos da internet para fazer o mesmo. Ele documentou tudo em milhares de vídeos e fotografias armazenados em uma pasta digital chamada “abusos”.
Os crimes de Dominique Pelicot só foram descobertos porque ele foi flagrado em um supermercado filmando sob as saias de mulheres. Após investigar seu computador, a polícia convocou Gisèle à delegacia. Ela só voltaria a ver o marido pessoalmente no julgamento, quase quatro anos depois.
Leia também
Por anos, Pelicot pretendeu manter o anonimato e guardar seu inferno pessoal em privado. Mas a ideia de estar cativa em uma sala com todos aqueles homens, sendo “refém de seus olhares, suas mentiras, sua covardia e seu desprezo”, como escreveu, parecia opressiva. Ela percebeu que o anonimato seria um presente para eles.
Após uma caminhada na praia, um slogan que ouvira de uma advogada feminista décadas antes ecoou em sua mente: “A vergonha tem que mudar de lado”. A frase tornou-se o mantra do julgamento, espalhada em cartazes por todo o país. Ela decidiu, então, abrir as portas do tribunal ao público.

Durante o processo, Pelicot revelou pouco de si mesma. Observei com admiração enquanto ela permanecia serena, dando depoimentos afiados em tons ponderados e permeados por uma análise feminista aguda — embora ela afirmasse nunca ter tido interesse por causas militantes. Sua compostura a tornou um enigma para juízes, terapeutas e até para os próprios filhos.
O livro de Gisèle Pelicot
No livro, escrito com a jornalista Judith Perrignon, ela removeu a “armadura emocional” que aprendeu a vestir aos 9 anos, após a morte da mãe. Ela revela detalhes da infância e da história de amor com Dominique, a quem conheceu aos 19 anos. “Deixei esses detalhes no livro”, disse Pelicot, agora com 73 anos, “porque queria que as mulheres soubessem quem eu realmente era”.
Após a prisão de Dominique, os filhos desmontaram a casa como uma cena de crime. A filha, Caroline, rasgou as fotos de família. A vida de Gisèle foi reduzida a duas malas e sua bulldog, Lancôme. Ela enfrentou o clássico sentimento de culpa das vítimas, mas concluiu que não havia explicação para o ocorrido, exceto a “psique cindida” de seu ex-marido.
Havia o “lado A” — o cônjuge atencioso e avô dedicado. E o “lado B” — o homem perverso e manipulador. “Nos 50 anos em que vivi com o Sr. Pelicot, não vi esse lado B”, afirmou. Ela se recusa a deixar que os crimes envenenem as memórias do Lado A; era sua estratégia de sobrevivência. “Eu precisava acreditar que os 50 anos não tinham sido uma grande mentira para continuar vivendo. Caso contrário, eu estaria morta.”
Pelicot espera que o livro ajude a curar sua família. O almoço com o neto foi, segundo ela, “o início de uma longa jornada” de reconciliação. “Não acreditem que a tragédia une uma família”, disse ela. “É uma explosão que varre tudo. E hoje, cada um está tentando se reconstruir como pode”.
Sobre o novo amor, ela diz que se apaixonar novamente foi sua maior vitória. “Você não pode viver sua vida sendo paranoica”, disse. “Acho que é preciso confiar. Isso também é uma mensagem de esperança: dizer a si mesma que, aos 73 anos, ainda é possível viver uma história de amor.”
Sua mensagem final é que as vítimas podem não esquecer tudo, mas “podem escolher o que fazer com isso”. O título original do livro, em francês, é A Alegria de Viver.
Leia também
Gisèle Pelicot - Um Hino à Vida

- Autora: Gisèle Pelicot com Judith Perrignon
- Editora: Companhia das Letras (208 págs.; R$ 62.90; R$ 34,90 o e-book; R$ 39,99 o audiolivro)



