A escritora argentina María Negroni já esteve no Brasil muitas vezes, mas nunca para um festival literário. Nascida em 1951 em Rosário, ela é dona de uma obra respeitada, premiada, traduzida - e ainda pouco conhecida no Brasil. Com apenas dois livros publicados aqui, A Arte do Erro (100/cabeças), em 2022, e O Coração do Dano (WMF Martins Fontes), em 2023, e agora com o convite aceito para participar da Festa Literária Internacional de Paraty, sua obra singular deve chegar a mais leitores.

A Flip 2025 será realizada entre os dias 30 de julho e 3 de agosto. Além de María Negroni, que vem justamente na edição que homenageia Paulo Leminski (1944-1989), de quem é leitora e fã - e que aparece em O Coração do Dano - já foram confirmados o italiano Sandro Veronesi, a argentina Dolores Reyes, a mexicana Dahlia de la Cerda e os brasileiros Lilia Guerra, Lilian Sais e Sérgio Vaz. Veja mais detalhes abaixo.
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Negroni escreve ensaios, poesia, ficção. Às vezes, tudo ao mesmo tempo. Sua obra vem fragmentada, com listas e coleções de frases, memórias e desamparos. É de difícil classificação, e não tem problema nenhum nisso. A leitora se mistura com a escritora que nunca vai deixar de ser a menina, naquela casa da infância que, como ela diz, não consta dos mapas, em busca do afeto da mãe.
É para lá que ela volta no romance O Coração do Dano, lançado na Argentina em 2021 e cuja segunda edição brasileira ganha agora nova capa.
Romance autobiográfico. Autoficção. María prefere se referir ao livro como uma fantasmagoria. O Coração do Dano é sobre ela e sobre sua mãe. Uma espécie de Carta ao Pai, do Kafka. Um inventário de acusações. De culpa, autoexame e dor. E diálogo. María, para quem “a literatura é uma forma elegante de rancor”, conversa o tempo todo com sua mãe - a da infância, da juventude, do leito de morte. E com a que já não está mais aqui.
A autora vai e volta ao passado e se vê em diferentes fases de sua vida a partir deste olhar duplo - o dela e o de sua mãe (ou o que ela julga que seja o de sua mãe). “Coloco em primeiro plano a intriga, adiciono o ângulo paranoico, subtraio o erro de entender. O resultado é um conto gótico, no meio do caminho entre o cemitério e o monólogo interior”, escreve logo nas primeiras páginas.
“Eu não me propus a narrar um passado (nem mesmo as ruínas de um passado), mas sim um conjunto de fendas psíquicas. A mãe como sereia. O desejo indizível da filha. A biblioteca e a mazela da criação. A onipotência da orfandade. Por isso escolhi o fragmento. Não para dificultar a comunicação, mas para exacerbá-la. Todo o meu pequeno universo distribuído em migalhas. A cada frase, cada respiração, um interior turbulento. O importante é que surja algo rebelde, que o discurso avance por pequenas crises – românticas, literárias, existenciais. É nos saltos para completar um quadro que se aprende”, explica a escritora em entrevista por e-mail.
Seguimos a narração, nos enredamos em fatos, falas, lembranças fugidias ou contraditas pela mãe. A epígrafe, que ela empresta de Clarice Lispector, outra autora que, como Leminski, Guimarães Rosa e os poetas concretos, ela admira, vai ficando esquecida na primeira página: “Vou criar o que me aconteceu”. Acreditamos na narradora.
“Da minha perspectiva como escritora, posso dizer que gostaria de ter escrito um livro em branco. Uma obra-deserto. Uma obra que fosse tanto uma aventura literária quanto uma obra de reflexão. Que cultivasse a heterogeneidade. Deveria haver uma escrita do não escrito, disse Marguerite Duras. Uma escrita breve, feita de palavras sozinhas. Palavras sem gramática. Perdidas. Ali, escritas. E logo abandonadas”, diz.
María cita a escritora francesa em sua resposta. No livro, ela também aparece ao lado de tantos outros autores. De alguns, ela empresta justificativas e validações para o que vive e escreve. Com outros, forma o que chama de “coro” de filhos “de mães letais”.
Ela, porém, não escreve para curar feridas ou acertar as contas com esta mãe - “a ocupação mais fervorosa e danosa” de sua vida. No livro, a frase puxa outra: “Nunca amarei ninguém como a amei”. Tampouco ela busca apaziguar seu coração de órfã. “Penso, como seu compatriota Paulo Leminski, que escrever é um ‘inutensílio’”, ela comenta.
Por outro lado, ela diz, o que importa, aqui, e na literatura, não é a história de um eu que supostamente preexiste à escrita. E, sim, “a construção de uma espécie de sublinguagem impune, capaz de se afundar na memória cerrada de alguém, de avançar aos espasmos, estabelecendo um tipo de estereofonia truncada”.
Mas O Coração do Dano é mais do que este passeio pela memória da adulta-menina venerando a mãe, divergindo politicamente, fugindo, reencontrando, seguindo seu caminho, errando, acertando. É também uma radiografia do que a levou a se tornar escritora.

Nesse sentido, ela aceita o termo autobiografia, ou ficção de origem. Porém esclarece, citando o poeta russo Joseph Brodsky, que a biografia de um escritor consiste exclusivamente na distorção da linguagem que ele usa. “O livro, em outras palavras, é feito do que eu não sei. Nele, eu a um só tempo me protejo e me ofereço, sem qualquer apoio além de uns farrapos de linguagem. O texto sempre vale por aquilo que lhe falta. E se me lancei ao ‘eu’ – que é o pronome do imaginário – foi para ouvir melhor as cólicas de uma voz, para brincar – como queria Barthes – com o corpo da minha mãe”, diz.
Ela finaliza: “Nunca me interessei em traduzir qualquer realidade. Queria a explosão, a diáspora, a invenção de um sujeito na e através de sua voz. Como a infância, que sempre vê o mundo como se fosse uma cartilha ilustrada, substituindo a percepção pelo encantamento, eu queria devaneios que me libertassem do meu nome, da minha história”.
O Coração do Dano
- Autora: María Negroni
- Tradução: Paloma Vidal
- Editora: WMF Martins Fontes/Selo Poente (136 págs.; R$ 59,90)
A Arte do Erro
- Autora: María Negroni
- Tradução: Ayelén Medail e Diogo Cardoso
- Editora: 100/cabeças (116 págs.; R$ 44,90)
Lista de autores já confirmados para a Flip 2025
Estrangeiros
- María Negroni: Argentina nascida em 1951 na cidade de Rosário, María Negroni viveu anos nos Estados Unidos, onde estudou literatura - inclusive com uma bolsa Guggenheim. No Brasil, ela publicou A Arte do Erro (100/cabeças, 2022) e O Coração do Dano (WMF Martins Fontes/Selo Poente, 2024). É autora de livros de poemas, romances, ensaios e outros inclassificáveis, entre os quais Museo Negro (1999), Galería Fantástica (2008) e Objeto Satie (2018). Ganhou em 2009 o Prêmio Internacional de Ensaio Siglo XXI por Galería Fantástica. Hoje, além de escrever, ela dirige o mestrado em Escrita Criativa da universidade Tres de Febrero, em Buenos Aires.
- Sandro Veronesi: Italiano nascido em Florença, em 1959, Sandro Veronese começou a ser publicado no Brasil pela Rocco, que lançou, nos anos 2000, obras como Caos Calmo, A Força do Passado e XY. Conquistou novos leitores recentemente com O Colibri (Autêntica Contemporânea, 2024), vencedor do Prêmio Strega. Sai, também pela Autêntica, em 30/5, Setembro Negro, um romance situado na Toscana que acompanha o amadurecimento de um garoto de 12 anos depois de sua primeira grande dor.
- Dolores Reyes: Nascida em 1978, em Buenos Aires, Dolores Reyes é escritora e ativista que sofreu tentativas de censura pelo governo argentino. Em sua obra, ela atualiza o realismo mágico latino-americano dando um toque mais brutal. É autora dos romances Cometerra (Moinhos, 2022) e Miséria (Moinhos, 2024), que abordam violências contra as mulheres.
- Dahlia de la Cerda: Formada em Filosofia e uma das fundadoras do coletivo Morras Help Morras, organização que desenvolve projetos de justiça reprodutiva e aborto seguro em seu país, a mexicana Dahlia de la Cerda, nascida em 1985, é autora de Cadelas de Aluguel (DBA, 2025)
Brasileiros
- Lilia Guerra: Nascida em São Paulo em 1976, ela estrou na literatura em 2014 e publicou, entre outros, Perifobia (Todavia, 2025), O Céu Para os Bastardos (Todavia, 2023) e Rua do Larguinho (Patuá, 2021). Além de ser escritora, Lilia Guerra trabalha como auxiliar de enfermagem.
- Lilian Sais: Escritora e preparadora de textos, Lilian Sais nasceu em São paulo em 1985. Ela ganhou o Prêmio Cepe Nacional de Literatura na categoria poesia com Motivos Para Cavar a Terra. É autora ainda da plaquete de poemas Palavra Nenhuma (Círculo de Poemas, 2024) e de O Livro do Figo (Edições Macondo, 2023), em poesia, e dos romances O Funeral da Baleia (Patuá, 2021) e A Cabeça Boa (DBA, 2025).
- Sérgio Vaz: Um dos principais nomes da literatura periférica, Sérgio Vaz nasceu em Ladainha (MG) em 1964, é criador da Cooperifa e autor de obras como Colecionador de Pedras (2007), Flores da Batalha (2023), Flores de Alvenaria (2016) e Literatura, Pão e Poesia (2011), todos pela Global e abarcando diversos gêneros, além de publicações independentes.




