Coluna quinzenal da jornalista Luciana Garbin que traz foco para as questões femininas na sociedade atual

Coluna quinzenal da jornalista Luciana Garbin que traz foco para as questões femininas na sociedade atual

Ruídos, erros propositais, celular off: rebelião contra IAs e telas ganha força na arte e no design

Obras resgatam imperfeição como diferencial de humanidade num mundo inundado pelo digital

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Foto do autor Luciana Garbin

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Defensor de uma ciência mais humanista, o físico é curador do São Paulo Innovation Week, evento que o ‘Estadão’ vai promover em maio. Crédito: Edição de vídeo: Anderson Russo / Produção: Vitória Schmitz / Imagens: Derek Keller, Lucas Ghitelar, Felipe Oliveira

Com IAs, algoritmos e smartphones tomando praticamente todos os setores da sociedade - e da nossa vida -, chegou a hora de partir para resistência. Pelo menos é isso que um número cada vez maior de artistas, designers e educadores tem proposto. E tentado disseminar, por meio de obras, exposições e movimentos.

Em São Paulo, a exposição Fotos que Nunca Serão Postadas, do Instituto ViaFoto, cobriu imagens com cortinas pretas para evitar registros com celular. O visitante lia a descrição da fotografia antes de escolher se queria ou não vê-la. E os smartphones foram todos parar num armário trancado. “Hoje em dia, vivemos no mundo digital, nas redes, e não temos tempo para viver”, explicou David Feffer, presidente do instituto, ao Estadão.

A exposição 'Fotos que Nunca Serão Postadas', do Instituto ViaFoto, propõe experiência sem celulares. Foto: ViaFoto/Divulgação

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Em dezembro, o ex-Beatle Paul McCartney quebrou um jejum de cinco anos com uma faixa-bônus em vinil no álbum coletivo Is This What we Want? (É isso o que queremos?, em tradução livre). Nela, há dois minutos e quarenta e cinco segundos de ruídos comuns a um estúdio de gravação, incluindo chiados de fita, músicos se movimentando, gavetas abrindo e fechando, ajustes de microfones.

Com renda destinada à organização sem fins lucrativos Help Musicians, a “faixa sem som” foi um protesto contra mudança da lei de direitos autorais proposta pelo governo britânico que autoriza empresas de IA a usar músicas, performances e vozes de cantores sem pedir autorização aos criadores.

Paul McCartney em show no Maracanã, em 2023 Foto: Pedro Kirilos/Estadão

O movimento de resistência se estende a outras áreas do conhecimento. No design, a rebelião anti-IA engloba de sites construídos com HTML básico à retomada de fontes padrão, como Arial, Times New Roman e Courier; de fotografias com ruídos digitais e composições assimétricas a uma estética meio infantil, com desequilíbrio nas proporções, ilustrações à mão livre, pinturas extrapolando as margens. Tudo para se diferenciar de criações algorítmicas que fazem parecer tudo igual e sem personalidade.

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“A propaganda anti-IA não é um capricho estético, mas uma declaração de princípios que resgata a imperfeição e a transforma em diferencial de humanidade”, afirma artigo publicado no site de tecnologia Xataka.

Como diz a designer Lindsay Marsh em sua newsletter Design Trends 2026! Imperfection, Rebellion, and the Return of Human Work, esses “erros” visíveis atuam como assinaturas de autenticidade: são a prova de que atrás da tela há dedos humanos, não processadores sem humanidade.

“Os designers estão recorrendo à crueza, ao ruído, à rebeldia e à tensão visual da “quebra” para resgatar autoria, voz e personalidade", escreve Lindsay. “É bagunçado, barulhento, agitado, cheio de camadas e humano. Tudo o que o design de 2026 precisa é voltar a se sentir vivo.”

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Opinião por Luciana Garbin

Editora executiva no ‘Estadão’, professora na FAAP e mãe de gêmeos