Inteligência artificial vai nos deixar mais burros? Marcelo Gleiser responde
Defensor de uma ciência mais humanista, o físico é curador do São Paulo Innovation Week, evento que o ‘Estadão’ vai promover em maio. Crédito: Edição de vídeo: Anderson Russo / Produção: Vitória Schmitz / Imagens: Derek Keller, Lucas Ghitelar, Felipe Oliveira
Com IAs, algoritmos e smartphones tomando praticamente todos os setores da sociedade - e da nossa vida -, chegou a hora de partir para resistência. Pelo menos é isso que um número cada vez maior de artistas, designers e educadores tem proposto. E tentado disseminar, por meio de obras, exposições e movimentos.
Em São Paulo, a exposição Fotos que Nunca Serão Postadas, do Instituto ViaFoto, cobriu imagens com cortinas pretas para evitar registros com celular. O visitante lia a descrição da fotografia antes de escolher se queria ou não vê-la. E os smartphones foram todos parar num armário trancado. “Hoje em dia, vivemos no mundo digital, nas redes, e não temos tempo para viver”, explicou David Feffer, presidente do instituto, ao Estadão.

Em dezembro, o ex-Beatle Paul McCartney quebrou um jejum de cinco anos com uma faixa-bônus em vinil no álbum coletivo Is This What we Want? (É isso o que queremos?, em tradução livre). Nela, há dois minutos e quarenta e cinco segundos de ruídos comuns a um estúdio de gravação, incluindo chiados de fita, músicos se movimentando, gavetas abrindo e fechando, ajustes de microfones.
Com renda destinada à organização sem fins lucrativos Help Musicians, a “faixa sem som” foi um protesto contra mudança da lei de direitos autorais proposta pelo governo britânico que autoriza empresas de IA a usar músicas, performances e vozes de cantores sem pedir autorização aos criadores.

O movimento de resistência se estende a outras áreas do conhecimento. No design, a rebelião anti-IA engloba de sites construídos com HTML básico à retomada de fontes padrão, como Arial, Times New Roman e Courier; de fotografias com ruídos digitais e composições assimétricas a uma estética meio infantil, com desequilíbrio nas proporções, ilustrações à mão livre, pinturas extrapolando as margens. Tudo para se diferenciar de criações algorítmicas que fazem parecer tudo igual e sem personalidade.
Como diz a designer Lindsay Marsh em sua newsletter Design Trends 2026! Imperfection, Rebellion, and the Return of Human Work, esses “erros” visíveis atuam como assinaturas de autenticidade: são a prova de que atrás da tela há dedos humanos, não processadores sem humanidade.
“Os designers estão recorrendo à crueza, ao ruído, à rebeldia e à tensão visual da “quebra” para resgatar autoria, voz e personalidade", escreve Lindsay. “É bagunçado, barulhento, agitado, cheio de camadas e humano. Tudo o que o design de 2026 precisa é voltar a se sentir vivo.”
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