No domingo, com o seu voto, você ajudou a adormecer uma forma de polaridade: a oposição, burramente vista no Brasil como irreconciliável, entre a direita e a esquerda. Este dualismo, em tese, impede de maneira estúpida qualquer colaboração. Hoje, porém, com um novo presidente eleito, essa polarização terminou para dar lugar a uma oposição que a esquerda e a direita escamoteavam, a saber: a oposição entre a centralidade dos poderosos que vão para os palácios e a situação dos perdedores que são relegados à periferia. Agora, tranquilos, sabemos quem são os mandões e quem são os mandados. Ou seja, voltamos a viver a oposição rotineira entre os que detêm o poder e aqueles que devem se submeter a ele. Recuperamos a concepção tradicional de autoridade e, assim, restauramos o velho reino imperial iniciado com d. João VI e continuado pelos golpes, ditaduras e governos demagógicos.
O mundo político brasileiro voltou ao normal; restabelecemos a divisão entre barões e cidadãos, entre miliardários e remediados, como você e eu. Porque é exatamente dessa maneira que concebemos a política e o poder à brasileira: nele, o Brasil é esquecido e substituído por ideologias que jamais se concretizam. Nesse sistema, os mandões se apropriam da administração pública e controlam não só as leis, mas também o tesouro nacional, impiedosamente saqueado pelas autoridades que deveriam protegê-lo.

As polaridades põem em confronto duas entidades que podem ser políticas, religiosas, geográficas, cosmológicas ou até mesmo familiares. As polaridades dão significado ao mundo. Acabamos de inibir uma oposição trivial entre a mão direita e a mão esquerda; contudo, ingressamos naquela dualidade escondida pela polarização entre esquerda e direita - a oposição capital entre o alto e o baixo, entre o centro e a periferia, entre os poderosos e os comuns, como nós.
Como ensinou Claude Lévi-Strauss em um ensaio da década de 1950, existem, pelo menos, dois tipos de dualismo: o diametral e o concêntrico, já mencionados. Este último revela uma hierarquia que permanece oculta pela oposição entre as mãos: a relação entre a cabeça, que comanda, e os pés e as mãos, que obedecem.
Chegou a hora de sermos menos apaixonados pela disputa entre direita e esquerda e de dedicarmos mais atenção à permanente desigualdade entre senhores e escravos, homens e mulheres, honestos e gatunos da coisa pública.
P.S.: Nesta quarta, dia em que você lê esta crônica, habemus um novo presidente e, obviamente, inaugura-se uma nova etapa, fortemente marcada por aqueles que mandam e por aqueles que obedecem, pois é dessa maneira que concebemos o poder no Brasil. A eleição, repito, é como a coroação de um novo imperador. Que Deus nos proteja.


