Coluna semanal do antropólogo Roberto DaMatta com reflexões sobre o Brasil

Coluna semanal do antropólogo Roberto DaMatta com reflexões sobre o Brasil

Quando você descobre que morre, aceita as finitudes com humor e uma humilde coragem

Estou perto do fim. Confronto a única verdade verdadeiramente verdadeira: ninguém nos livra da nossa morte

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Atualização:

Meus irmãos Romero e Ricardo, meu primo Raul e eu - na plenitude das nossas imortais juventudes - estávamos na esquina única da padaria do bairro do Ingá, em Niterói. Engravatados, enfatiotados e penteados, íamos a um baile, quando meu outro irmão, Fernando, chegou correndo e, com voz de James Dean, disse com cara triste num inglês cinematográfico: “Grandpa is dead...”.

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Certos de que a festa havia acabado para nós, fomos ver vovó Emerentina. Na porta da casa, fomos barrados por uma Emerentina com voz firme, que foi logo ordenando: “Podem ir para a festa. Hoje vocês vão dançar e namorar, amanhã vocês vão chorar a morte do seu avô Raul!”.

Essa recordação até hoje me comove. Ali vivi o amor neutralizando a força da morte. Fomos imediatamente para a festa, dançamos e eu acho que beijei uma linda moça. No dia seguinte, afaguei com a mão o rosto frio de vovô Raul dentro do seu caixão de defunto. Ele foi o meu primeiro morto e a morte, meus caros, estava muito longe daquele rapazinho elegante.

Na velhice, contemplamos os mortos compreensivamente, como companheiros que silenciosamente deixam esse prodigioso palco da vida Foto: Syda Productions/ Adobe Sttock

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Na semana passada fui a dois enterros. O do tio de Christina, minha mulher, e o do pai de um empregado, com quem divido coisas da vida. O tio, Arnaldinho, de 95, deixou a filha. Foi funcionário público e vivia no conforto das classes médias. O sr. Silvio, pai do meu funcionário, foi um “lutador”. Deixou filhos e netos e uma viúva ferida, mas invejavelmente equilibrada pelo nosso velho catolicismo. O defunto tinha 89 anos: a minha idade.

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A partir de uma certa fase, você começa a ir a enterros de contemporâneos e não mais de avós, pais, tios e velhos. Nesta fase, a morte é um fato quase pessoal, e não há nenhuma avó para nos livrar dos seus cenários. Na velhice, contemplamos os mortos compreensivamente, como companheiros que silenciosamente deixam esse prodigioso palco da vida.

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Eis uma dimensão abençoada das vidas. longas. Esse saber que saímos do palco, aceitando nossas finitudes com humor e uma humilde coragem. Estou perto do fim. Confronto a única verdade verdadeiramente verdadeira: ninguém nos livra da nossa morte.

Não tenham pena de mim. Tenham pena de vocês mesmos, pois como ensinou o mestre Jorge Amado por meio de Quincas Berro d’Água: “Cada qual cuide de seu enterro, impossível não há”.

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