Brigitte Bardot, ícone do cinema, morre aos 91 anos
Musa dos cineastas, defensora dos animais e dona de opiniões polêmicas; relembre sua trajetória. Crédito: Imagens: AFP | Edição: Júlia Pereira
Brigitte Bardot irrompeu na minha vida quando eu tinha 14 anos. Com o toque de “coisa de cinema” tal como esse agressivo e violento rapto do ditador Nicolás Maduro pelo gângster que hoje manda no mundo, Donald Trump.
Morta, BB deixa uma nostálgica lembrança no cronista que, adolescente, só conhecia cinco mulheres: mamãe, titia, a irmã Ana Maria, vovó e a leal empregada Ilma. Todas interditadas, todas alvo do afeto devotado a uma outra mulher: a santíssima Virgem Maria.
Mulheres interditadas não deveriam ter aquilo que as distinguia: sexualidade. A interdição levava a admirar as irmãs do Ernane e, com atenção redobrada, a gostosa mãe do Helinho. Depois de Lévi-Strauss, entendi: eu não me casava com minha irmã e o Ernane com a dele. Trocávamos as irmãs e tudo se resolvia numa aliança produtiva.
O incesto é o motor positivo da troca de irmãs inventora das alianças matrimoniais e do parentesco.
A morte de Brigitte Bardot rememora como numa sociedade católica dos votos de castidade era tortuoso apreciar uma mulher nua.
Na praia, eu admirava corpos proibidos. Por exemplo: as coxas da Marli, e os peitões da Lucia. Vi uma mulher nua e, como Manuel Bandeira, fiquei alumbrado porque na junção das coxas, havia um escuro ninho, prenúncio de um vale misterioso.
Pensando bem, a nudez de mulheres como Bardot, Mangano, Monroe, Russel e da mitológica May West foi tão ou mais impactante e inesperados do que as ideologias que seduziam pela certeza dos seus determinismos.
A nudez em cores e movimento, somente exibindo o belo que imediatamente conduz ao bom, dessas mulheres libertaram Eva de uma sina maldita, quando generosamente se deixaram ver. Em cada qual, surgia a misteriosa cota de maldade e inocência (típica, aliás, de BB) do “eterno feminino” hoje em mudança. Pois uma mulher nua numa sociedade repressora como a nossa era permitida somente no carnaval.

A festa orgiástica criava um denso diálogo entre nudez, igualdade e liberdade, proibidos pelos costumes e pela lei. Era justo no território do nu feminino que, como advertia Nelson Rodrigues, estava o centro do deleite carnavalesco de minha juventude. Ali víamos o rosto e o corpo das mulheres numa poderosa revolução de três dias.
A exposição do corpo feminino nu foi muito mais arrebatadora de que a denúncia de que os ricos roubam os pobres ou que todo político é ladrão.
A beleza nua e crua do corpo feminino é prova de seu poder e generosa liberdade.
Pois, conforme demonstrou Brigitte, Deus criou a mulher. Que ela, por Ele inventada e abençoada, descanse em paz causando, quem sabe, algum rebuliço do imenso céu que nos aguarda.
