Joana Jabace, diretora de ‘Dias Perfeitos’, fala sobre a série e abuso: ‘Tema corta a minha vida’

Produção do Globoplay é adaptação de best-seller de Raphael Montes e tem na direção uma mulher que passou por situação semelhante a de Clarice, vítima de um psicopata na história

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Foto do autor Danilo Casaletti
Atualização:
Foto: Maltoni
Entrevista comJoana JabaceDiretora

Há uma grande diferença entre o livro Dias Perfeitos (Companhia das Letras), de Raphael Montes, e a série Dias Perfeitos, que estreia no Globoplay no dia 14 de agosto, em oito episódios. Uma questão de ponto de vista. Se na publicação ele é todo de Téo, o estudante de medicina psicopata, na série, a visão se abre para sobre como a vítima, Clarice, enxerga os abusos que sofre por parte de seu algoz.

A ideia de entrar na cabeça de Clarice foi da roteirista Claudia Jouvin. A execução na tela, pela diretora Joana Jabace. Foi ela que teve a missão de transformar em imagem uma das passagens mais delicadas de Dias Perfeitos: a que Téo estupra Clarice, enquanto a mantém em cárcere privado. “Eu tive muito cuidado de não expor o corpo e a dor da Clarice pelo ponto de vista do agressor. Estamos sempre com ela, na dor dela”, diz Joana ao Estadão. Em cena, os atores Jaffar Bambirra e Julia Dalavia, como Téo e Clarice.

Joana dirigiu novelas como Avenida Brasil e a Regra do Jogo e séries como Segunda Chamada, Diário de um Confinado, com o marido, o ator Bruno Mazzeo, e Assédio, essa última, baseada na história do médico Roger Abdelmassih, condenado por estupro. Ela também já foi vítima de estupro.

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Em 2014, enquanto corria na Vista Chinesa, no Rio de Janeiro, foi arrastada por um criminoso para dentro da Floresta da Tijuca. Nunca superou, como diz, mas escolheu seguir adiante. Transformou a dor em relato, para que as pessoas soubessem de fato o que ocorreu com ela.

É dela a história que está no livro Vista Chinesa, de Tatiana Salem Levy, lançado pela Todavia em 2021, que também chegará às telas em uma produção da Conspiração Filmes e da Manas Filmes.

Além de Dias Perfeitos, a diretora está finalizando a série Véspera, para a HBO, baseada na obra de Carla Madeira, que também aborda o abuso sexual. “Eu não consigo dirigir nada que não me toque profundamente. Os assuntos dos quais escolhemos falar dizem muito sobre nós”, comenta Joana, que acredita que os tabus sobre como tratar o tema precisam ser derrubados, para o bem das vítimas. “Esse tema é muito caro para mim, corta a minha vida. É um movimento de tirar esse assunto do âmbito do não dito, do que não podemos falar”, completa. Leia a seguir a entrevista concedida ao Estadão.

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Em uma entrevista ao Estadão, Raphael Montes disse que histórias violentas são uma forma de investigar o ser humano, de colocar para fora alguns tipos de sentimentos, como mágoa, angústia, raiva. Você concorda com essa observação dele?

Toda história é uma forma de investigar o ser humano. Quando fazemos uma história e colocamos a psique dos personagens de alguma forma na tela, estamos investigando o ser humano - no sentido de mostrar e tornar palpável e palatável situações que a realidade nua e crua não nos permite entrar em contato. A ficção falar de histórias terríveis e brutais como Dias Perfeitos é, sim, uma oportunidade de investigar a psique do ser humano, falar sobre assuntos difíceis. Já o ofício de dirigir é tão subjetivo, é tão o que eu sou, o que eu vivi, os meus traumas, as minhas angústias. Todo mundo que faz um trabalho audiovisual profundo está em movimento. É inevitável que você se investigue, se questione, se pergunte, porque é muito intenso, subjetivo e visceral.

Uma série como ‘Dias Perfeitos’ ou um produto audiovisual, de maneira geral, como uma novela ou um filme, tem a função de alerta, de denúncia, ou é apenas um entretenimento?

É um entretenimento, uma ficção. Mas toda ação é política. A série não é feita com esse intuito, não é um docudrama, não é uma série sobre assédio sexual. Porém, assistir à série como entretenimento gera uma reflexão na audiência sobre o que a Clarice passa. E uma reflexão sobre como seguir vivendo depois do que a Clarice passa. Ela morre e nasce de novo. Não é sobre superar, é sobre seguir vivendo de uma outra maneira. É outra Clarice que surge. Nesse sentido, a série faz esse serviço de mostrar que é possível colar os caquinhos.

Se eu fosse assaltada e entrassem 10 caras na minha casa, eu te contaria com muita normalidade. Mas falar sobre estupro ainda é um tabu

Você tornou pública a violência sexual que sofreu no passado. A partir disso, como é estar à frente da direção de séries como ‘Dias Perfeitos’ e ‘Assédio’, que tratam sobre o tema e nas quais há cenas com esse tipo de violência? Como é colocar seu ponto de vista sobre essa questão nessas produções?

Eu não consigo dirigir nada que não me toque profundamente. Os assuntos dos quais escolhemos falar dizem muito sobre nós. E, se não há paixão, não fica de verdade. Nesse sentido, esse tema é muito caro para mim, corta a minha vida. É um movimento de tirar esse assunto do âmbito do não dito, do que não podemos falar. Muitas mulheres que sofreram esse tipo de violência ainda têm vergonha de falar sobre esse assunto. Se eu fosse assaltada e entrassem 10 caras na minha casa, eu te contaria com muita normalidade. Mas falar sobre estupro ainda é um tabu. Enquanto não falarmos do ponto de vista feminino, sem fetichizar e sem tornar um espetáculo a dor feminina, não avançaremos nesse aspecto. Para mim, obviamente, é muito difícil. Mas é um ato de pulsão de vida, sabe? É como se eu transformasse uma dor, algo que me fez morrer um pouco, em outra coisa, em uma terceira coisa, que não é a minha dor, que não é a minha história, mas que é levar esse assunto para outras pessoas, para outras mulheres, como uma forma de se falar sobre isso da maneira mais natural - se é que isso é possível.

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Quando uma mulher conta uma história de violência sexual ou psicológica, ou quando ela consegue romper um ciclo de violência, por exemplo, doméstica, ela é classificada como corajosa. Esse é adjetivo normalmente usado. Ele é correto? Foi a coragem que te impulsionou a contar para a Tatiana o que ocorreu com você?

Fui corajosa porque eu compactuei que a minha melhor amiga colocasse meu nome e dissesse que se tratava de uma história real. Eu achei que depois do ocorrido fosse possível esquecer. Que eu fosse seguir adiante e que a minha vida ia fazer com que essa memória fosse ficando cada vez menor. Com o passar dos anos, vi que não. Essa memória ia ficar em mim. Eu não ia esquecer, não ia ter como esquecer. Foi um divisor de águas na minha vida. Minha relação com a Tatiana é de muita intimidade, de muita confiança. Quando ela me ligou, porque ela me ligou logo um pouco depois, eu disse: “Não, claro que não!”. E aí, anos depois, quando eu fui ter meus filhos [Joana é mãe de dois meninos gêmeos, de 8 anos], eu falei: “Quero contar essa história. Quero que meus filhos saibam que que aconteceu”. Quero que as pessoas que me conheçam parem de fantasiar o que aconteceu nesse dia e saibam os detalhes.

Pensei muito sobre essa escolha ética e moral de ser uma diretora mulher fazendo uma cena de abuso sexual

Julia Dalavia e a diretora Joana Jabace no set de 'Dias Perfeitos' Foto: Andre Rodrigues

Quando Tatiana Salem Levy lançou o livro, ela disse justamente que não seria possível não contar a cena do estupro, mas que, ao mesmo tempo, era preciso segurar a mão do leitor. Isso ocorre na primeira cena de violência sexual da série ‘Assédio’. Como isso se dará em ‘Dias Perfeitos’?

A literatura se distingue do audiovisual de uma forma muito grande, porque, na literatura, quando você conta uma cena em detalhes, você deixa para o leitor imaginá-la. Quando você transforma essa cena em uma imagem, ela tem uma força muito impositiva, ela cristaliza o imaginário de cada leitor. Então, em Dias Perfeitos, eu tive muito cuidado de não expor o corpo e a dor da Clarice pelo ponto de vista do agressor. Estamos sempre com ela, na dor dela. Isso se dá em relação a tudo: ao tipo de enquadramento que eu faço, à maneira como a câmera se comporta, à trilha sonora. Em nenhum momento eu vejo o corpo do Téo. Eu não vejo o ato em si. Eu estou do lado da vítima, sem revitimizá-la. Com um olhar de fora, que não é nem do Téo nem da Clarice, que é meu. O meu olhar está com ela. Todo o tempo, com essa divisão das cartelas, do Téo e da Clarice, eu tentei dirigir o Téo sem nunca julgá-lo moralmente. Ele comete grandes atrocidades. Mas eu sempre estive também com o Téo. Pensei: ‘Deixa eu não julgar essa cabeça doentia’. Quando chegou nessa cena do estupro, eu falei: ‘Bom, mas o que que eu vou fazer aqui?’ Porque, como que eu não vou julgar? Ele está estuprando a Clarice. Só que ele não enxerga que ele a está estuprando. Para ele, ele está tendo a primeira noite de sexo da vida. É o único momento no qual a minha direção indica que o que ele está fazendo, inclusive na cartela dele, é uma de deturpação, um desvio da realidade. É o único momento no qual a direção de ator indica que ele está criando algo que não existe. Pensei muito sobre essa escolha ética e moral de ser uma diretora mulher fazendo uma cena dessa, em uma série tão difícil.

Julia Dalavia e Jaffar Bambirra protagonizam 'Dias Perfeitos' Foto: Lorena Zschaber

Em ‘Assédio’, foi essencial julgar o agressor.

Totalmente. Assédio é [baseado em] um caso público. Ele [o médico Roger Abdelmassih] já havia sido julgado [por uma série de estupro]. Essa história já tinha vindo à tona. Não tinha ambiguidade. Quer dizer, sempre tem, né? É isso que o Raphael [Montes] fala, que entrar na cabeça, nas nossas sombras, sempre revela ambiguidades. Mas, nesse caso, Roger era um vilão. E acho que isso já fica evidente logo o começo.

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Julia Dalavia, que interpreta Clarice, me falou sobre como é importante ter mulheres na direção do audiovisual, como isso foi significativo em ‘Dias Perfeitos’. Fale sobre esse ponto de vista, e quanto tem sido importante ocupar esses espaços.

A importância de ter mulheres na direção é a mesma importância de termos mulheres cientistas, mulheres escritoras, mulheres engenheiras. Um homem dirigindo uma cena de assédio, dirigindo uma cena de romance, vai ser sempre diferente. Não é melhor ou pior, mas vai ser diferente. A Julia sempre dizia: ‘Ah, mas ainda bem que é uma mulher’. Penso que não teria como não ser uma mulher dirigindo Dias Perfeitos, com cenas tão delicadas. Não é que não possam ser dirigidas por homem, mas eu acho que tem experiências femininas que são femininas, como tem experiências masculinas que são masculinas, e que é difícil estarmos no lugar.

Eu tenho características machistas. A geração dos meus filhos, talvez, terá outro tipo de educação de gênero

Tatiana afirmou que o livro ‘Vista Chinesa’ é uma carta da personagem para os filhos. Que carta estamos escrevendo para as futuras gerações, do ponto de vista da relação de temas como a mulher e os abusos de toda a ordem que elas sofrem?

Uma carta de que a estrutura do patriarcado está começando a ser questionada, ou que suas verdades estão sendo questionadas. Mas ainda estamos muito no começo. Porque a minha geração [Joana tem 44 anos] foi criada num ambiente machista. Eu tenho características machistas. A geração dos meus filhos, talvez, terá outro tipo de educação de gênero, e vai falar sobre os temas que estão em Dias Perfeitos, Vésperas e Vista Chinesa de uma forma mais franca e menos moralista.

Como está o projeto de filmar 'Vista Chinesa’?

Está em desenvolvimento. Atualmente, trabalho no segundo tratamento do roteiro, que é escrito pela Maria Camargo, uma autora que também tangencia esse tema. Estamos captando e entendendo os recursos que teremos para poder realizar. É um filme pesado, né? Precisa de alguém que queira botar dinheiro para fazê-lo.

Pode ser um impedimento?

Impedimento acho que não, mas não é fácil. Estamos percebendo isso. Atualmente, há uma demanda muito grande para o que chamam de projetos feel good [produções que proporcionam sensações agradáveis]. E está aí uma coisa que Vista Chinesa não é.

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Os vilões são sempre mais saborosos do que os mocinhos

Jaffar Bambirra, que faz o personagem Téo em ‘Dias Perfeitos’, está muito bem no papel, com chance de entrar para a galeria de grandes vilões. Você dirigiu a novela 'Avenida Brasil’, que tinha a Carminha, que é celebrada pelo público, mas que é uma vilã cruel e sádica. Por que o público se identifica tantos com esses personagens?

Eles são vilões tão amorais, no qual o parâmetro do que é certo e do que é errado está tão borrado, as fronteiras estão tão apagadas, que, por meio deles, o público goza em fazer algo que não pode, que não deveria, que não seria certo. Em uma projeção, acho que todo mundo tem um pouco de loucura, né? Todo mundo tem um pouco de doença, todo mundo tem uma sombra. A questão é o que vamos fazer com isso: ‘Eu não sou isso, mas um pouquinho disso existe em mim. Nossa, será que se eu tivesse nesse lugar eu poderia fazer isso?’. A liberdade do vilão na ficção é fascinante para o espectador. Os vilões são sempre mais saborosos do que os mocinhos. Porque o mocinho vai fazer o que é certo. O vilão pode te surpreender, ser muito mais original, no sentido de ele pode fazer qualquer coisa.

O público ainda quer esse tipo de vilão na tela?

O folhetim é um formato que ainda cabe, apesar que falamos sobre o ponteiro estar girando, sobre o quanto estamos falando sobre assuntos que há 10 anos não falávamos, sobre questões das minorias, de machismo, feminismo, racismo. Apesar de todas essas pautas, a novela é um lugar onde ainda cabe isso. Quando não estamos desrespeitando ninguém, a ficção ainda é maior. Não tenho nenhuma vergonha de fazer um projeto que comunique. É interessante furar, mesmo que isso signifique, às vezes, fazer algo menos hermético. O público de novela ainda quer isso. A história é mais forte do que as pautas.

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