Na ficção, Vera Fischer interpreta Susan White, a estrela de um seriado de grande audiência na década de 1980, que perdeu o protagonismo e amarga a escalação para filmes pouco expressivos. Na vida real, Vera assumiu as rédeas da sua carreira e, aos 72 anos, afirma que pode até ter pontos em comum com a personagem, mas que percebeu a tempo que só poderia contar com ela mesma. “Fico feliz quando as pessoas me chamam de diva, de deusa, só que, no minuto seguinte, não acredito em nada”, diz. “Fui criada em uma família com noção de realidade e o senso crítico me serviu para entender que o estrelismo é algo fake.”
Susan White é a personagem principal da comédia O Casal Mais Sexy da América, do dramaturgo norte-americano Kevin Levine, que, sob a direção de Tadeu Aguiar, que estreia no Teatro Liberdade, em São Paulo, nesta sexta, 22. “É uma atriz que se sente deixada de lado e, ao contrário de mim, não desenvolveu um autoconhecimento”, afirma. “Depois dos 60 anos, deixei de ser bonita para a televisão e, por mais que tivesse provado há tempos a minha capacidade, sei o quanto isto ainda mexe com a cabeça de uma mulher.”
No palco, Vera contracena com o ator Leonardo Franco, que representa Robert McAllister, um artista veterano que dividiu o estrelato com Susan no seriado homônimo à peça e batalha para escapar do ostracismo. No elenco ainda aparece o ator Vitor Thiré. “É a história de dois artistas que se confrontam depois de 30 anos para entender as escolhas de cada um e o que pode ter definido o rumo de suas carreiras”, explica Vera. “No passado, eles se apaixonaram, mas o romance não evoluiu porque eram comprometidos. Talvez ganhem uma chance de reconquistar a felicidade.”
Se tem uma coisa que Vera conhece bem são os bastidores da televisão. Por 45 anos, a atriz foi contratada da Rede Globo, trabalhou em mais de 20 novelas e dez minisséries e viu estrelas despontarem e desaparecem com igual rapidez. Como uma profissional experiente, acumulou sucessos e enfrentou percalços que precisou de maturidade para não se deixar abater. “Os veteranos são cada vez menos valorizados e, nos meus últimos trabalhos, recebi papéis bem sem graça que me fizeram sofrer”, assume. “Hoje, os salários caíram tanto que, se não vale a pena nem sob o ponto de vista financeiro, é melhor não fazer.”
Ausente do vídeo desde 2018, a artista reencontrou o rumo no teatro e, entre 2022 e 2024, percorreu 50 cidades com a peça Quando eu for Mãe Quero Amar desse Jeito, também dirigida por Aguiar, vista por mais de 100 mil pessoas. “No teatro, eu sou dona do meu nariz e me reúno com colegas que gosto para levantar um espetáculo que dá prazer a nós e ao público”, diz ela. Entre os seus projetos desejados, aparece uma montagem de Toda Nudez Será Castigada, de Nelson Rodrigues (1912-1980). “As pessoas querem ver atores que sabem contar bem uma história, e não é à toa que os teatros lotam com Antonio Fagundes, Tony Ramos e Othon Bastos.”
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Apesar de qualificar O Casal Mais Sexy da América como uma comédia romântica e leve, Vera salienta que, através de Susan White, apresenta discussões que passariam batidas na televisão. Uma delas é a questão do abuso sexual que levou a personagem, no auge da fama, a abandonar o seriado e gerou uma injusta rejeição ao seu nome no mercado. “Em outros tempos, todo mundo sofria em silêncio, e vi colegas sucumbirem com as situações enfrentadas”, lembra. “Eu sempre tive firmeza para me safar dos assédios, mas sei que nem todo mundo administrou a situação do mesmo jeito.”
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Para Vera, o movimento Me Too, que incentiva as vítimas de violência sexual a romperem o silêncio, é uma grande vitória, porque as mulheres e os homens foram encorajados por um sentimento de empatia. Consciente de que sua beleza impulsionou o início da carreira, a atriz garante que sempre adotou uma postura rígida que fazia com que evitasse até criar amizade com parceiros de cena. “Eu sabia que as mulheres deles sentiriam ciúmes e cortava o problema antes dele se manifestar”, observa. “Os dois únicos colegas com quem me envolvi foram o Perry Salles e o Felipe Camargo e acabei me casando com eles.”
Se uma mentalidade mais profissional tomou conta da televisão, Vera, porém, não enxerga a mesma evolução em relação ao conteúdo. Pelo contrário: ela lamenta a perda de uma qualidade de dramaturgia que afasta o público, incapaz de estabelecer uma fidelidade às tramas. Vera, que despontou em novelas escritas por Dias Gomes (1922-1999), Janete Clair (1925-1983) e Lauro César Muniz, acredita que não houve uma renovação equivalente entre os autores e percebe a ausência de um rigor nos textos.
“Os conflitos duram dois ou três capítulos, é uma avalanche de acontecimentos que deixa o espectador perdido e, com essa onda de remakes, basta assistir ao original para fazer a comparação”, comenta. “A juventude que cresceu com a internet passou a ditar as regras, e é preciso ficar atento porque eles não sabem o que faz sucesso na televisão.”
Vera mora sozinha no Rio de Janeiro. Os filhos Rafaela, de 46 anos, e Gabriel, de 32 anos, tocam suas histórias com independência e não lhe deram netos. “O Gabriel e minha nora ainda não são novos, mas vivem falando que é um risco botar criança neste mundo cheio de ódio”, diz.
O peso da idade se manifesta nas recorrentes dores nos joelhos aliviadas com fisioterapia e bolsas de gelo aplicadas uma hora antes do início da peça. Em compensação, a atriz afirma que a conquista da maturidade é a constatação de que conta com poucos e preciosos amigos. “Olha, vivo sozinha com meus dois gatos, muitas manias e eu continuo solteira porque quero”, garante. “Muitos amigos sumiram depois que eu parei de bancar festas em casa ou fins de semanas no sítio e sei que estou bem melhor assim.”
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Serviço - ‘O Casal Mais Sexy da América’
- Onde: Teatro Liberdade. Rua São Joaquim, 129, Liberdade.
- Quando: Sexta e sábado, 20h; domingo, 17h. Até 21 de setembro. A partir de sexta, 22.
- Quanto: R$ 140/R$ 160.
