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Balança comercial resiste a choques externos e caminha para 2º maior superávit da história

Exportações para os EUA caem 6,5% em 2026, mas Brasil diversifica mercados na China, Índia e Japão para compensar; guerra no Oriente Médio impulsionou venda de petróleo para o exterior

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Foto do autor Flávia Said

Exportações recordes

Demanda chinesa impulsiona balança comercial brasileira. Crédito: Luiz Guilherme Bernardi / Estadão

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BRASÍLIA - Mesmo com os choques externos decorrentes das tarifas aplicadas pelos Estados Unidos e da guerra no Oriente Médio, a balança comercial brasileira segue resiliente e caminha para atingir, em 2026, o segundo maior superávit da história. As oscilações no preço do barril do petróleo neste ano têm contribuído de forma significativa para os bons números das exportações brasileiras, mesmo com uma redução relativa do preço do petróleo no mês passado.

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As mudanças no cenário externo levaram o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) a rever duas vezes a projeção do superávit da balança comercial. Inicialmente, a primeira estimativa, apresentada em abril, era de um superávit de US$ 72,1 bilhões, subindo para US$ 90 bilhões em julho — em meio à alta do petróleo tipo Brent — e, no início de outubro, a projeção caiu para US$ 84,4 bilhões — desta vez, influenciada pela redução relativa no preço do barril.

Estão projetados US$ 382,5 bilhões em exportações (número 9,8% maior do que no ano passado) e US$ 298,1 bilhões em importações (6,4% maior do que em 2025).

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Caso se concretize a projeção atual, o resultado será o segundo melhor superávit comercial já registrado, atrás apenas do de 2023 (US$ 98,9 bilhões). E, se confirmado, o saldo será 24,0% maior do que o obtido em 2025, quando houve um superávit de US$ 68,1 bilhões.

Segundo os dados mais recentes — de janeiro até a terceira semana de outubro —, a balança comercial brasileira acumula superávit comercial de US$ 68,4 bilhões no ano, com US$ 305,7 bilhões em exportações e US$ 237,3 bilhões em importações.

Para o economista responsável pela área private na Eleva Invest e especialista em Relações Internacionais pela Columbia University, Gabriel Cintra, os US$ 84,4 bilhões de superávit projetados pelo MDIC são críveis, mas ainda representam uma projeção mais otimista do que a mediana do mercado. No Relatório Focus da última segunda-feira, 19, a mediana esperada para o ano subiu para US$ 80,15 bilhões. “O mercado vem ficando mais otimista, porém ainda projeta menos que o governo. Eu tomaria os US$ 80 bilhões como mais factível”, disse Cintra.

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“Para chegar aos US$ 84,4 bilhões, faltam aproximadamente US$ 16,05 bilhões entre o restante de outubro e dezembro. Minha avaliação é que isso é plausível, diante do desempenho recente, mas depende da continuidade dos embarques, dos preços das commodities e das importações”, avaliou Cintra. Para 2027, a projeção do mercado é que o saldo da balança comercial fique abaixo do deste ano, em US$ 79,7 bilhões.

Petróleo impulsiona superávit

O diretor do Departamento de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior, Herlon Brandão, disse, no começo de outubro, que a receita com o petróleo exportado teve um crescimento de 77,3% em setembro e o produto se firma como o principal item de exportação no acumulado do ano, totalizando US$ 43 bilhões (quase 30% maior que o valor no mesmo período de 2025, quando somava US$ 33,4 bilhões).

Exportações brasileiras aumentaram apesar do tarifaço americano Foto: Tiago Queiroz

O fechamento do Estreito de Ormuz fez com que a China comprasse metade do petróleo vendido pelo Brasil, segundo dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). As exportações de petróleo para a China cresceram 49% entre janeiro e setembro de 2026, na comparação com o mesmo intervalo de 2025, alcançando o recorde de US$ 21,8 bilhões para o período. As vendas dispararam após a guerra envolvendo o Irã ter interrompido o fornecimento a partir do Golfo Pérsico. A máxima histórica foi acompanhada pelo aumento de 27% no volume embarcado e pela alta de 16,8% no preço do produto.

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A economista e professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Carla Beni avaliou que o conflito acabou gerando esse efeito positivo para a balança brasileira, dado que o País é exportador de energia. “Diante de uma guerra, que é sempre uma tragédia, nós tivemos reações internas no País muito boas. A própria reação da Petrobras foi muito boa”, argumentou.

“O fato de a gente ter feito a alteração do preço e não trabalhar só com o PPI (Paridade de Preço Internacional) fez com que a gente não tivesse alteração de preço internamente, que a maioria dos países tem. Veja o que está acontecendo nos Estados Unidos com o preço dos combustíveis. E a gente conseguiu uma lucratividade recorde para a Petrobras, com uma distribuição de dividendos absurda”, prosseguiu Beni.

O economista Gabriel Cintra concorda que a externalidade positiva advinda do petróleo precisa ser enfatizada no resultado da balança comercial. Mas ele ponderou: “O governo contou mais com a sorte do que com o juízo”.

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Abertura de novos mercados ajudou

Integrantes do governo Lula frisam que a alta nas exportações ocorre a despeito das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. As vendas aos EUA têm caído desde o primeiro tarifaço, anunciado em agosto de 2025. No acumulado de janeiro a setembro de 2026, em relação ao mesmo período do ano anterior, as exportações para os Estados Unidos caíram 6,5% e atingiram US$ 27,46 bilhões. As importações também caíram, na ordem de 7,1%, e totalizaram US$ 31,79 bilhões. O Brasil segue tendo déficit na relação comercial com os EUA, de US$ 4,33 bilhões no acumulado deste ano.

O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, reforçou recentemente que o Brasil tem buscado ampla diversificação de mercado, especialmente diante das tarifas impostas pelos americanos. “A redução de 12,2% das exportações dos Estados Unidos para o Brasil foi assimilada. Seguimos outros mercados, para a China, para a Índia, para o Vietnã, para o Japão, para todos esses países”, afirmou Márcio Elias, em agosto.

Ao longo desta gestão, desde 2023, foram abertos 700 mercados, ante 241 do governo anterior, do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Essa ampliação é reconhecida também por especialistas. Para Carla Beni, da FGV, a abertura de mercados nesta gestão foi muito importante, em especial nos últimos dois anos de tarifaço da administração Trump. Ela destacou que o Brasil estava mal posicionado no cenário internacional, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisou restabelecer relações internacionais e firmar acordos logo de partida.

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“Quando o presidente Lula assumiu em 2023, ele começou uma rodada internacional. Para quem está de fora e não trabalha com relações internacionais, com geopolítica, com comércio internacional, com nada disso, fica a espuma da crítica, mas aquilo foi muito necessário”, avaliou ela.

Outro ponto destacado pela economista foi o lançamento do plano Brasil Soberano — criado para proteger a indústria nacional contra a instabilidade internacional —, com a não aplicação da lei da reciprocidade aos EUA. “Essa também foi uma decisão bem interessante”, analisou Beni.

Em cerimônia em meados deste mês, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, ressaltou que o mundo não vive um bom momento, com duas guerras em curso e consequente inflação. “Não temos condão de parar guerra, mas o presidente Lula fez de tudo para baixar custos”, defendeu.

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