Carta de Flávio não deve afetar mercado, mas acende alerta para relação com Argentina e EUA

Economistas afirmam que a carta é vista como atitude excêntrica e não deve influenciar os ativos financeiros

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Trump diz que eleição no Brasil foi ‘uma vergonha’ e evita comentar sobre Flávio nos EUA

Após a chegada de Flávio, nessa quarta-feira, Trump afirmou que não iria se envolver na turbulência pós-eleitoral no Brasil. Crédito: AFP

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A carta publicada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado na eleição presidencial de 2026, não deve afetar o mercado brasileiro. Essa é a avaliação do economista Cleveland Prates, professor de economia da FGV-Law e de regulação da Fipe, e sócio-diretor da Microanalysis Consultoria Econômica.

“Essa carta é tão tosca que ninguém está levando a sério. Os problemas do Brasil são tão grandes que perder tempo com essa atitude é só gerar mais problemas. O mercado está olhando para isso como mais uma atitude excêntrica da família Bolsonaro”, afirma Prates. “Eu não perderia cinco minutos pensando sobre isso”, complementa.

Flávio Bolsonaro desembarcou em Miami na quarta-feira, 28, após perder as eleições presidenciais Foto: Marta Lavandier

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Para o economista Renato Eliseu, a contestação do resultado das urnas, acompanhada da saída de Flávio do País por si só, não gera danos à economia nacional, mas introduz um componente de incerteza institucional e diplomática. “O mercado financeiro não reage apenas a indicadores econômicos, mas também à previsibilidade das instituições, à estabilidade política e à capacidade do Estado de assegurar o cumprimento das regras democráticas”, complementa.

A forte reação negativa da Bolsa após a reeleição de Lula evidenciou o peso das expectativas políticas sobre os ativos financeiros. Além das incertezas sobre a condução da política fiscal, o episódio ilustra como as perspectivas dos investidores sobre o ambiente institucional podem influenciar os preços. Na avaliação de Eliseu, porém, este não parece ser o caso.

“O risco está na possibilidade de que a contestação ultrapasse o campo retórico e produza conflitos diplomáticos ou medidas econômicas concretas”, explica. Segundo ele, a ameaça está na possibilidade de essa articulação com os Estados Unidos e com a Argentina se traduzir em pressões diplomáticas, restrições comerciais ou outras formas de retaliação econômica.

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), que teve o mandato cassado por tentativa de golpe após fugir para os EUA, por exemplo, apoiou a medida assinada por Donald Trump de impor uma taxação de 50% sobre o Brasil. Posteriormente, Eduardo publicou vídeo pedindo a Trump que punisse Moraes e outros políticos brasileiros com a Lei Magnitsky.

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Na avaliação de Eliseu, porém, isso não significa que tais consequências sejam inevitáveis. “Quanto mais claras forem as garantias de respeito ao resultado eleitoral, à Constituição e à normalidade institucional, menor tende a ser a percepção de risco político”, afirma. “Inclusive, o isolamento de uma liderança que contesta o processo eleitoral pode reduzir sua capacidade de produzir instabilidade interna”, comenta.

O senador Flávio Bolsonaro (PL) publicou carta se proclamando como líder do Brasil, mas economistas acreditam que iniciativa, por si só, não terá efeitos econômicos no País Foto: wilton junior

O economista Felipe Araújo, doutorando em economia pela FGV e especialista em risco de mercado e liquidez, corrobora a perspectiva. “O mercado já fez um ajuste importante na segunda, com o resultado da eleição”, comenta. No entanto, ele diz que a postura dos EUA, que mantém uma posição ambígua sobre o resultado, deve ser vista com atenção até as eleições de meio de mandato.

“Uma Câmara democrata poderia aumentar a pressão sobre o Departamento de Estado americano, enquanto uma vitória republicana poderia deixar o Executivo mais à vontade para prolongar essa ambiguidade”, afirma.

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Na leitura dele, a relação com a Argentina, no entanto, deve ficar um pouco mais estremecida depois da participação na fuga de Flávio do Brasil. “O episódio aprofunda uma crise diplomática que já existia, mas os efeitos econômicos diretos tendem a ser mais setoriais, especialmente na indústria automotiva, dada a integração produtiva entre os dois países”, diz Araújo.

Ainda assim, o economista avalia que fatores domésticos devem pesar mais nas próximas semanas do que os rompantes de Flávio. Ele cita a expectativa do mercado sobre a composição da nova equipe econômica e das primeiras sinalizações sobre a política fiscal.

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“Daqui para frente, o que deve fazer preço é a credibilidade da equipe econômica e a capacidade do novo governo de apresentar um plano fiscal consistente, que sinalize uma trajetória sustentável para a dívida pública. Esses fatores terão muito mais peso sobre os mercados nas próximas semanas do que a carta em si”, diz.

A opinião é compartilhada pelo economista Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e presidente do Instituto Fefig. “Na economia, depende muito mais o que o governo reeleito fará, principalmente com a gestão fiscal”, afirma. “Precisamos ter um pouco de horizonte, senão, certamente, teremos uma recessão severa.”

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