Vivo e Starlink aproximam-se de acordo para oferecer internet via satélite direta para celulares no
Saiba mais sobre o avanço nas negociações entre Vivo e Starlink para disponibilizar conexão via satélite direta para smartphones.
Gerando resumo
Foto: Reprodução/LinkedInEm sua primeira entrevista para a imprensa brasileira, a Starlink, do empresário Elon Musk, diz que vê um potencial de crescimento “enorme” no mercado brasileiro, mas pondera que o seu plano é complementar a infraestrutura das operadoras daqui, não concorrer diretamente com elas – diferentemente do que está preparando para fazer nos Estados Unidos. A dúvida sobre a possível concorrência vinha chacoalhando as ações das teles listadas na B3.
“Planejamos ser parceiros. Não temos planos de fazer algo ‘standalone’ (autônomo) no Brasil”, disse a diretora de política regulatória de satélites da Starlink, Sharon Zhang, em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast. “No contexto brasileiro, nosso plano atual e compromisso de longo prazo é seguir trabalhando com operadoras móveis para amplificar as redes móveis. É uma história diferente dos EUA”, emendou a executiva da empresa que faz parte da SpaceX, baseada na Califórnia. Neste ano, o grupo fez a maior oferta de ações da história, captando US$ 75 bilhões (R$ 410 bilhões).
O Brasil já desponta como o segundo maior mercado para a Starlink no mundo todo, atrás somente dos EUA. Por aqui são cerca de 1 milhão de clientes, 10% da base global. Seu crescimento foi baseado na banda larga fixa. O sinal da constelação de satélites na órbita da Terra é captado por antena e roteador no solo. Isso atraiu muitos consumidores em regiões remotas, como áreas rurais, zonas florestais, moradias de campo e cidades mal atendidas pela cobertura tradicional.
Nesta semana veio outra novidade, com o lançamento da internet por satélite diretamente no celular, tecnologia conhecida como direct to device (D2D). Para isso, foi firmada parceria com a Vivo, que oferecerá o serviço como uma opção de roaming aos seus clientes. Na primeira semana de testes, 7 milhões de pessoas se conectaram. “Isso é enorme”, ressaltou Zhang.

Por ora, a conexão em D2D atende funções básicas, como mensagens e chamadas de voz. Já nos próximos anos, terá velocidade compatível com 4G/5G, destravando novas funções, o que requer novas gerações de satélites.
Nos EUA, o grupo se prepara para atuar com internet móvel por conta própria, concorrendo com as gigantes Verizon, AT&T e T-Mobile. Para isso, comprou as licenças de 800 MHz da Grain Management, empresa de infraestrutura digital, em um negócio estimado em US$ 8 bilhões pela Reuters (R$ 44 bilhões).
A faixa serve para o sinal entrar em espaços fechados, como casas e prédios, algo que a faixa reservada para satélites, de 2 Ghz, não faz. Nos EUA, a empresa também negocia a concessão de 80 mil torres para instalação de antenas que ampliem o sinal, assim como fazem as operadoras móveis. “Um modelo ‘tipo EUA’ é uma abordagem muito diferente da que estamos tomando aqui”, esclareceu Zhang.
Neste mês, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) autorizou a tecnologia D2D na Starlink na faixa de 2 Ghz, o que abriu espaço para firmar a parceria com a Vivo. No futuro, a ideia é fechar outros acordos comerciais e expandir a sua atuação. “Já temos um negócio forte de banda larga no Brasil (...) No Starlink Mobile, estamos começando agora. Essa é a melhor forma de conectar o máximo de pessoas”.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista:
O que a parceria com a Vivo representa para a Starlink no Brasil?
Essa parceria executa nossa estratégia de longo prazo para a Starlink Mobile: trabalhar com operadoras no mundo todo para entregar cobertura complementar (à infraestrutura de torres e antenas no solo), algo muito impactante em um mercado como o Brasil. Em cerca de uma semana de testes oficiais antes do lançamento, tivemos cerca de 7 milhões de brasileiros conectados à rede. Isso é enorme. São pessoas que, de outra forma, teriam corte nas chamadas ou não conseguiriam enviar mensagens por estar em ‘buracos’ da cobertura tradicional.
Quais consumidores vocês planejam atrair com a internet por satélite no celular, o D2D?
Nosso objetivo é entregar o serviço para o maior número possível de brasileiros usando seus telefones móveis existentes. Achamos que esse mercado será enorme. E a Starlink será uma parceira de conectividade do País e um “multiplicador de forças” para as operadoras locais.
O acordo entre Starlink e Vivo não é exclusivo. Vocês pretendem se unir a outras teles, como Claro e TIM?
Estamos abertos. A Vivo tem sido uma parceira fantástica e deu um grande passo para tornar o D2D possível. A tecnologia já está aqui, e a Vivo foi a primeira a habilitar isso para seus assinantes. No longo prazo, estamos esperançosos em trabalhar com mais operadoras, especialmente com o uso da faixa de 2 GHz recém-autorizado pela Anatel. Mas estamos muito focados no parceiro atual e na forma como vamos investir em tecnologia para desenhar recursos para novos serviços da Starlink Mobile.
Por enquanto, o D2D atende funções básicas, mas é esperada uma evolução da tecnologia com as novas gerações de satélites. O que vocês pretendem entregar no futuro?
No futuro, nosso objetivo é entregar qualidade maior que a de hoje, com conectividade ubíqua, onde quer que você esteja. Isso inclui capacidades de banda larga 5G, melhora de densidade em certas áreas para redes terrestres, possibilidade de usar aplicações de IA no aparelho móvel mesmo ao atravessar um ponto sem cobertura terrestre, e confiabilidade para completar uma videochamada em qualquer situação, inclusive durante desastres naturais. É levar a qualidade de serviço de grandes cidades para todos os lugares.
Quais passos são necessários para atingir esses objetivos?
Um ponto grande é o investimento da SpaceX em prioridade global para uso da faixa de 2 GHz, destinada à comunicação entre o satélite e o telefone celular. Aqui, tivemos a autorização da Anatel, o que foi um passo importante. Do lado tecnológico, vamos lançar mais satélites, da segunda geração, com mais capacidade. E também haverá aparelhos chegando em 2027 com capacidade de se comunicar nessa faixa de frequência.
Nos EUA, a Starlink tem dado passos para virar um operador de internet móvel autônomo, sem depender de operadoras locais. Aonde vocês querem chegar?
Os EUA são nosso mercado doméstico. Há interesse em desenvolver algo como uma rede híbrida. Lá, temos espectros diferentes. A faixa comprada da Grain é de baixa frequência e serve para o sinal de internet penetrar em prédios e espaços fechados (o que a faixa de 2 Ghz não permite). Além disso, a dinâmica do mercado americano nos permite um faturamento mais alto por cliente, além de termos mais assinantes fora dos grandes centros. Isso torna o mercado ideal para soluções novas.
E no Brasil?
No contexto brasileiro, nosso plano atual e compromisso de longo prazo é seguirmos trabalhando com operadoras móveis para amplificar e melhorar as redes móveis. É uma história diferente fora dos EUA.
A grande pergunta que se faz no Brasil hoje é se a Starlink vai virar um operador móvel autônomo ou se manterá essa atuação unicamente via parceiras. O que vai acontecer?
Planejamos ser parceiros. Não temos planos de fazer algo ‘standalone’ (autônomo) no Brasil. Nos EUA, são muitos outros passos, incluindo adquirir espectro adicional. Isso não é a história no Brasil. O espectro licenciado há duas semanas aqui pela Anatel é espectro satelital, regido por regras internacionais. Não é bom para penetração em prédios, é destinado à conectividade entre satélite e telefone. É diferente de espectro terrestre para torres.
Para não deixar dúvidas: quer dizer que o futuro da Starlink no Brasil não será como uma operadora móvel autônoma?
Estamos focados em parcerias de longo prazo com operadoras brasileiras, especialmente com a Vivo. Um modelo ‘tipo EUA’ é uma abordagem muito diferente da que estamos tomando aqui. Já temos um negócio forte de banda larga no Brasil, inclusive muito usado durante as eleições, por exemplo em equipamentos de votação. No Starlink Mobile, estamos começando agora, e o que estamos fazendo com a Vivo é parte central disso. Essa é a melhor forma de conectar o máximo de pessoas. Não vemos benefício marginal em ir direto ao consumidor no segmento móvel. O objetivo é conectar o máximo de pessoas, e as operadoras brasileiras são fortes nisso.
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Em alguns países, políticos levantam preocupações sobre a soberania nacional e o risco de eventuais interrupções da internet por satélite em situações críticas. Como a sra. responde a esse risco?
Entendo a conversa sobre soberania. Entregamos conectividade de forma semelhante a como outras empresas prestam serviços, incluindo serviços de nuvem e plataformas de mídia social usadas diariamente. Sim, os satélites estão no espaço, mas usamos infraestrutura de solo local no Brasil para entregar o serviço. Também somos regulados no Brasil como entidade local. Ouvimos esses debates, mas não vimos isso (interrupção) acontecer na prática. Operamos em cerca de 174 países em banda larga e perto de 40 com internet móvel. Não tivemos casos de ‘desligar’ o serviço. É preciso ser realista e evitar que isso vire só uma tática de alarmismo por parte de algumas pessoas.






