Chama o "VAR" na economia e discute como tornar o Brasil melhor

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O que aconteceu em 2017? Desemprego começou a cair e é o menor em 30 anos

No ‘Chama o Nery’ desta semana, colunista discute se causa da queda do índice de desemprego foi reforma trabalhista, apps ou benefícios sociais

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Foto do autor Pedro Fernando Nery
Atualização:

O que aconteceu em 2017? Desemprego começou a cair e é o menor em 30 anos

No Chama o Nery desta semana, colunista discute os motivos da virada do desemprego no Brasil a partir de 2017; segundo ele, a mudança não teve causa única.

O lançamento daquela música da Britney Spears, Work Bitch, coincidiu com uma redução da taxa de desemprego nos Estados Unidos. Então, o pessoal gosta de brincar e colocar num gráfico o momento em que a música é lançada, em 2013, e a evolução da taxa de desemprego — uma coincidência engraçada, porque a música pode ser traduzida como Trabalhe, garota, numa linguagem mais leve, e fala justamente sobre a necessidade de ralar para conseguir status, sucesso e dinheiro, enfim.

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É claro que isso é uma coincidência. Não foi a música da Britney Spears que fez as pessoas irem ao mercado de trabalho e a taxa de desemprego cair, mas a gente tem, aqui no Brasil, o nosso momento Work Bitch: o ano de 2017. A partir daí, a taxa de desemprego começa a cair fortemente até chegar ao patamar atual, o menor em 30 anos. E aí fica a pergunta: o que foi que aconteceu em 2017?

Vamos lembrar onde a gente estava em 2017. Havíamos acabado de passar pela recessão do fim do governo Dilma (Rousseff) e início do governo Temer, quando a taxa de desemprego bateu 14%. No gráfico, dá para ver que, a partir de 2017, ela começa a cair fortemente, tem esse processo interrompido pela pandemia e, depois, a partir de 2021, volta a recuar de forma ainda mais acentuada.

Então, 2017 foi o ano em que a curva do desemprego virou, em que a gente teve esse cavalo de pau rumo aos patamares historicamente baixos. A gente está com uma taxa de desemprego de 5%, o menor nível que a gente tem em cerca de 30 anos.

Esse gráfico é do economista Cleiton Silva e compatibiliza séries diferentes do IBGE, permitindo, com base no trabalho e em outros economistas, que a gente olhe a taxa de desemprego por um período mais longo e consegue ver a importância daquela crise antes de 2017 para subir a taxa de desemprego.

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Esse gráfico permite que a gente volte mais no tempo compilando diferentes séries históricas. A gente consegue visualizar bem como foi importante aquela crise de 2014, 2015 e 2016 e como teve essa guinada, essa virada em 2017, como a gente tá hoje num nível bastante baixo de desemprego. O menor nível de desemprego em 30 anos.

Movimento de queda da taxa de desemprego começou em 2017 Foto: Agência Brasília/Reprodução

A primeira explicação que pode vir à mente de várias pessoas é a reforma trabalhista.

A reforma trabalhista coincide com no ano de 2017, mas a reforma trabalhista foi uma reforma relativamente pequena e foi muito judicializada. Não é possível que ela tenha gerado uma redução tão drástica na taxa de desemprego. Ela coincide também com julgados do Supremo Tribunal Federal, o STF, como a pejotização. Então, não dá para a gente isolar muito bem o que foi a reforma trabalhista em termos de efeitos no nível de desemprego, na taxa de desemprego, mas certamente ela sozinha não poderia causar tudo isso.

Pode ser mais uma coincidência de que no momento de desemprego alto a gente foi atrás de fazer uma mudança na legislação e, por isso, ela coincide com o pior momento do mercado de trabalho e isso talvez pareça mais provável do que ela ser a Britney Spears que derrubou a taxa de desemprego. Outra questão que coincide com o ano de 2017 é a penetração da tecnologia 4G no Brasil.

Hoje a gente já tá no 5G e pode ser difícil a gente lembrar como era antes, mas a gente se acostuma com o progresso, mas até 2017 boa parte dos brasileiros ainda não acessava internet de qualidade no celular. Com a chegada do 4G um monte de gente passou a se ocupar nas plataformas, serviços de entrega, nos serviços de motorista particular e em todo tipo de negócios pequenos. Essa tecnologia também permitiu o acesso a dados por muita gente que antes não tinha. Então, talvez tenha ampliado uma série de negócios pequenos nas periferias ou em lugares mais pobres do Brasil.

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A gente tem, inclusive, uma matéria do Estadão na época mostrando que cerca de 10 milhões de brasileiros passaram a acessar a internet em 2017 e juntando aí 4G com Pix que veio nos anos seguintes. A gente pode ter essas tecnologias ajudando na redução do desemprego, porque permitiram a inserção de brasileiros no mercado de trabalho.

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Pode ser que, além da reforma trabalhista, dos aplicativos e do 4G, 2017 tenha sido apenas o fim de um ciclo econômico, um ciclo político.

Pode ser que a gente esteja naquele momento em que a Lava Jato tinha causado um estrago grande na política, afetado muito as empresas, esse movimento se exaure ali ao redor de 2017, as coisas podem começar a votar e as coisas podem então a partir dali começar a voltar ao normal.

A gente também se beneficia a partir de 2017 com melhora no preço das commodities, redução da taxa de juros e tudo isso pode ter contribuído. Tem um efeito que é interessante aí também que é o efeito da demografia. A gente tem cada vez pessoas mais velhas no Brasil, mais aposentados e menos jovens entrando no mercado de trabalho.

Então, se existe essa preocupação grande com o fim do bônus demográfico para o crescimento do PIB, o fato é que essa transição demográfica também pressiona menos o mercado de trabalho. A gente simplesmente passa a ter menos gente chegando para procurar emprego e a taxa de desemprego cai.

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E claro, uma última força que pode ter afetado a taxa de desemprego nos últimos anos do Brasil, principalmente a partir de 2021, é a expansão dos benefícios sociais, o Bolsa Família turbinado depois da pandemia, depois do Auxílio Emergencial, o Auxílio Brasil. Enfim, isso fez com que uma parcela de trabalhadores se retraísse da força de trabalho e, com menos gente procurando emprego, a gente passa a ter uma taxa de desemprego menor também, porque a taxa de desemprego é, na verdade, como a gente sabe, o número de pessoas que está procurando emprego ativamente, no total da força de trabalho. Pessoas que não tão procurando ativamente emprego não contam nem para o número de desocupados, nem na força de trabalho.

O que você acha? O que aconteceu a partir de 2017 que fez como Britney Spears, em 2013, nos Estados Unidos, a taxa de desemprego despencar? Foi a reforma trabalhista? Foi o 4G? Foi o fim de um ciclo econômico e político ruim, incluindo aí a Lava Jato? São questões demográficas? É o Bolsa Família?

O que explica esse momento tão bom que a gente vive hoje no mercado de trabalho, com a taxa mais baixa em 30 anos que começa em 2017. O que aconteceu em 2017?

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Opinião por Pedro Fernando Nery

Professor de economia do IDP. Autor do livro "Extremos - Um Mapa para Entender as Desigualdades no Brasil"