A SulAmérica Investimentos, com mais de R$ 100 bilhões sob gestão, adota uma postura seletiva no crédito privado, focando em energia elétrica, telecomunicações e saneamento, enquanto evita saúde. Daniela Gamboa, CIO, destaca a maior liquidez no mercado de debêntures e a precificação antecipada de riscos. A gestora mantém cautela em novos setores, como o consignado privado, e observa resiliência nos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, apesar do cenário macroeconômico desafiador.
Foto: Divulgação/SulAmérica InvestimentosA SulAmérica Investimentos, que ultrapassou a marca de R$ 100 bilhões sob gestão em setembro, mantém uma postura seletiva no crédito privado neste segundo semestre. A companhia investe em títulos dos setores de energia elétrica, telecomunicações e saneamento. Por outro lado, zerou recentemente a exposição ao setor de saúde.
Daniela Gamboa, CIO (diretora de investimentos) de crédito privado e imobiliário da SulAmérica Investimentos, afirma que a gestora está operando com uma posição de caixa maior do que a habitual, além de manter níveis mais baixos de risco nas carteiras e prazos médios mais curtos.
Diante de um cenário que exige maior seletividade, Gamboa não vê gatilhos para uma abertura de spreads (aumento da diferença entre as taxas de juros dos títulos corporativos e as dos títulos públicos) entre empresas com classificação AAA — a nota máxima atribuída a um emissor de dívida. “A dispersão deve ser maior nos papéis com classificações abaixo do AAA”, afirma.
A CIO avalia ainda que o aumento da liquidez no mercado de debêntures brasileiro trouxe uma mudança importante: hoje, quando ocorre um evento de crédito, a precificação dos riscos tende a acontecer meses antes do evento propriamente dito – como ocorreu nos casos da Raízen (RAIZ4) e do GPA (PCAR3), empresas que entraram em recuperaçã extrajudicial no primeiro semestre deste ano.
Para Gamboa, essa é uma evolução que ainda passa despercebida pelos investidores. “As pessoas veem a parte ruim da marcação a mercado. Acho que a beleza é termos os riscos precificados”, diz. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
E-Investidor - Como a SulAmérica avalia as perspectivas para o mercado de crédito privado no segundo semestre de 2026?
Ainda é um cenário em que seguimos bastante seletivos nas alocações. A Selic está atualmente em 13,75% e a nossa previsão é de que encerre o ano em 13,5%. Pensando em 2027, acreditamos que, independentemente de quem vencer as eleições, a trajetória de queda dos juros vai depender da disciplina fiscal. De qualquer forma, não enxergamos a Selic caindo abaixo de dois dígitos de forma rápida.
Mesmo com os juros elevados pressionando as empresas e após uma série de eventos de crédito no Brasil – inclusive recuperações judiciais e extrajudiciais –, observamos que o investidor está maduro e resiliente, permanecendo na estratégia apesar dos sustos.
Em quais empresas a gestora tem posição hoje no mercado de crédito?
Em energia elétrica, temos posição em Axia Energia (AXIA3), a antiga Eletrobras. No mundo de saneamento, em Sabesp (SBSP3) e, mais recentemente, estamos olhando para a Copasa (CSMG3). Em varejo, gostamos do Assaí (ASAI3). A varejista tem um perfil mais arriscado do que o das companhias de energia elétrica, mas a consideramos uma empresa bem gerida, que busca a desalavancagem e entrega bons resultados, apesar dos desafios atuais.
Quais setores vocês evitam?
Evitamos os setores mais cíclicos. Em varejo e incorporação, temos uma posição mais baixa do que a média da carteira, por serem segmentos mais sensíveis à taxa de juros. Recentemente, zeramos exposição ao setor de saúde, pois observamos uma pressão de capital de giro dentro da cadeia: quando o plano de saúde demora para pagar, quem está na ponta da operação, como hospitais e laboratórios, fica mais fragilizado.
A SulAmérica fez novas alocações ou entrou em algum setor novo em 2026?
Neste ano, temos evitado investir em novas histórias e novos setores de forma geral. Um exemplo é o consignado privado, uma carteira que vem crescendo em bancos e financeiras. Acompanhamos de perto, mas, por ser um novo perfil de crédito, ainda não nos sentimos confortáveis em começar uma alocação, diante de todo o desafio macroeconômico atual.
Como o resultado eleitoral pode impactar o mercado de crédito privado?
Depois do segundo turno, as perguntas vão se concentrar nos nomes cotados para compor a equipe econômica do governo. Vão surgir novas dúvidas, mas pelo menos uma das principais indefinições, a de quem será o presidente do País, estará superada. O mercado deve reprecificar a curva de juros a partir dessa informação. Vejo espaço para um movimento de maior tomada de risco pelos investidores.
Com o fim das eleições, pode haver retomada de emissões no mercado?
No mercado tradicional de debêntures, podemos, sim, ver um aumento nas emissões em novembro e dezembro, principalmente entre companhias de baixo risco e que já têm um histórico recorrente de emissões.
Mas, na parte de infraestrutura, arrisco dizer que não. Os fundos desse segmento vêm passando por resgates sucessivos, depois de terem crescido nos últimos dois anos. Houve muita volatilidade no preço das cotas e os investidores tiveram uma experiência ruim no produto. Por isso, vejo mais espaço para novos resgates do que para novas ofertas.
A SulAmérica também tem olhado para os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs)? Como avalia essa classe atualmente?
Foi a grande surpresa deste ano. Nossa expectativa era que aconteceria uma piora na inadimplência, mas as estruturas têm se mostrado muito resilientes, mesmo nesse teste de estresse. A indústria de fundos, em geral, não mostra crescimento, mas os FIDCs representam uma exceção.
Dentro dessas estruturas, acho que, em algum momento, será natural ver investidores mais negligentes com a tomada de risco, mas ainda observamos uma indústria bastante saudável.
