Mineirinho conta como se preparou para descer prédio de 70m aos 50 anos: ‘Amarelei só uma vez’

Skatista fez treinos específicos de velocidade, impacto e força G antes de concluir desafio em Porto Alegre; ao Estadão, ele conta que não pensava em recordes e sim em honrar a comunidade do skate

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Foto do autor Bruno Accorsi
Atualização:

Todo skatista que passou em frente ao Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF), em Porto Alegre, já imaginou como seria descer a estrutura semelhante a uma rampa integrada à arquitetura do prédio. Sandro Dias, o Mineirinho, tirou a cena do campo da imaginação e a levou para a realidade há uma semana. Aos 50 anos, o multicampeão da modalidade vert ‘dropou’ de uma altura de 70 metros para descer por uma pista erguida pela Red Bull na lateral curva do edifício modernista.

O skatista atingiu velocidade de 103 km/h e bateu dois recordes, registrados pelo Guinness: “A queda mais alta em um quarter pipe (estilo da rampa) temporário” e “a velocidade mais rápida em um quarter pipe temporário”.

Mineirinho desce rampa de skate de 70 metros, atinge 95 km/h e bate recorde

Paulista de 50 anos realizou desafio em estrutura montada na fachada de prédio em Porto Alegre. Crédito: Red Bull

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Ao final do percurso, ele se joga de costas em espumas sobrepostas a um airbag, movimento que o preocupou mais durante a preparação para o feito do que a descida em si. Durante os treinamentos, Mineirinho era puxado por uma corda em um carro para pegar velocidade e se lançava à parede para praticar a forma correta de se entregar ao impacto.

“Para eu começar a bater nessa parede, mesmo que fosse de ar, chegar naquela parede crescendo na minha frente, e eu ter que enfrentar ela com meu corpo, não foi fácil. Eu confesso que eu amarelei uma vez só nesse teste, nos 50 km/h, que era bem no começo, no primeiro dia. Já tinha feito 30 km/h e 40 km/h. Na hora que eu soltei do carro e vi aquela parede crescer na minha frente, eu desviei da parede”, conta ao Estadão.

Sandro Dias desceu rampa no CAFF, em Porto Alegre e realizou sonho de skatistas. Foto: Marcelo Maragni/Red Bull Content Pool

“No mesmo momento eu já me frustrei e falei: ‘Não posso desviar, tenho que enfrentar isso’. Na sequência fui lá e enfrentei. No mesmo dia eu consegui bater no airbag a 70 km/h. Foi legal para caramba já no primeiro dia. Airbag, depois fomos colocando coisas a mais para amortecer velocidade. A gente estudou que espumas na frente do airbag aliviaria o impacto”, conclui.

Todas as etapas da preparação foram novidade para Mineirinho, começando pela academia, ambiente com o qual o skatista não estava habituado. Ciente de que precisaria de mais força e resistência para executar o projeto, cuja concepção se deu três anos atrás, ele entendeu que seria importante fazer esse tipo de treino.

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“Eu tinha 47 anos, sabia que mais cedo ou mais tarde o projeto ia acontecer e eu nunca tinha ido em uma academia. Eu andava de skate o tempo todo, achava que era o suficiente para o preparo físico, mas na hora que começou a se concretizar o projeto, comecei a frequentar a academia. Fui lá preparar meu corpo, não fazer musculação, nunca gostei de puxar ferro, mas deixar o corpo mais forte, mais resistente”, afirma.

Sandro Dias, o Mineirinho, celebra recorde batido em rampa gigante no CAFF, em Porto Alegre. Foto: Joerg Mitter/Red Bull Content Pool

A próxima fase foi buscar a execução de treinamentos específicos, e o primeiro a ser incluído na rotina foi o downhill, modalidade em que os skatistas descem ladeiras em alta velocidade. Durante a experimentação, Sandro Dias foi ainda mais rápido do que na rampa do CAFF, já que o downhill envolve tiros mais longos e descidas mais constantes.

“O primeiro dia que eu fui fazer, com roupa de couro, todo equipado, eu me senti um estranho naquele lugar, com um skate totalmente estranho, que é o mesmo skate desde o começo. Totalmente diferente do que o pessoal do downhill utiliza. Mas, no específico eu precisava, em uma linha reta, atingir altas velocidades”, lembra.

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“Nesse primeiro dia, eu cheguei a 70 km/h e fiquei desesperado. Pensei: ‘meu Deus, o que eu estou fazendo? Por que estou descendo essa ladeira a 70 km/h? Aí eu pedi para parar, falei que estava satisfeito por hoje, já estava bom para mim. Aí, cada dia que eu ia, eu evoluía. Daqui a pouco estava 80 km/h, 90 km/h, 125 km/h. Por fim, eu cheguei a 136 km/h com o skate.”

Sandro Dias, instantes antes de dropar rampa no CAFF, em Porto Alegre. Foto: Fabio Piva/Red Bull Content Pool

Outro ponto importante foram os treinamentos para dominar a força G, que se refere à aceleração que a gravidade exerce sobre um indivíduo e é muito importante no automobilismo. Mineirinho teve de treinar para que sua perna suportasse uma força G de 350 kg.

“O pessoal da Áustria (da Red Bull) veio nos auxiliar: ‘Você tem que colocar peso no seu corpo, da sua perna para cima, para a sua perna suportar a força G que a gente vai simular na transição’. Eu estava todo monitorado, com palmilhas de monitoramento de peso. Consegui alcançar, coloquei 43 kg a mais no meu corpo da cintura para cima e consegui simular uma força G de 383 kg nas minhas pernas. Passei nesse teste também”, explica.

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Até o ‘drop’, como é chamado o movimento de se apoiar na borda de uma rampa e usar o peso do corpo para iniciar a descida, precisou de atenção especial do experiente skatista. Na mega rampa do prodígio Gui Khury, em Curitiba, ele fez adaptações para dropar de pontos mais altos.

“A rampa normal tem 60cm de vertical, de 90 graus. Eu precisava acostumar a dropar com 2 metros de vertical. Construímos uma extensão de 2 metros de altura, além dos 60, um pouco mais para concluir os 2 metros de altura do vertical. Eu fiquei treinando por muitos e muitos dias para me habituar com esse drop mais alto. E dropei mais de 150 vezes nesse dropo e fui me habituando.”

Sandro Dias desceu rampa no CAFF, em Porto Alegre e realizou sonho de skatistas. Foto: Marcelo Maragni/Red Bull Content Pool

Além da preparação de cada detalhe, o projeto só saiu do papel por causa do apoio que Sandro Dias recebeu. Sua preocupação era de que o desafio fosse bem aceito dentro da comunidade no skate e não que fosse visto apenas como um show para o grande público. Bater recordes, inclusive, não era um objetivo quando teve a ideia.

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“No início do projeto como um todo, eu nunca tive a ideia de quebrar recorde ou de ser melhor do que ninguém. A minha ideia do projeto era realizar um sonho, não só meu, mas de todo skatista que já passou na frente desse prédio uma vez e imaginou, assim como eu imaginei quando era criança, que aquilo era um quarter pipe de skate. Sempre fui muito por esse lado de realização pessoal, de sonho, do que quebra de recorde”.

Entre o desejo de realizar um sonho e ser visto com respeito por seus pares do universo do skateboard, obter a validação de Harry King, ex-skatista e diretor global de skate da Red Bull, deu mais segurança a Mineirinho. Além disso, ele encontrou conforto em ter a Thrasher e a Black Media, veículos especializados tradicionais dos EUA e Brasil, respectivamente, engajados na cobertura da descida do CAFF.

“Eu tive a oportunidade de falar com o Harry, ainda estudando o projeto, estudando a estrutura: ‘Harry, queria saber de você que é skatista, um cara que roda o mundo todo, está nos principais eventos, está com os principais nomes do skate mundial… o que você acha desse projeto, o que você acha desse drop? Ele falou: ‘cara, você vai dropar um prédio. Você sabe o que você vai fazer?’“, conta.

“Ouvir as palavras dele como skatista me confortou. Bem recente agora, já próximo ao projeto, começamos a ver quem viria cobrir. Das mídias especializadas, fiquei sabendo que iria vir a Thrasher, um dos principais meios de comunicação do skate mundial, muito core, e a Black Media, a Thrasher do Brasil praticamente. Quando fiquei sabendo que esses dois meios estavam, isso me confortou demais. Eu sabia que a mensagem do meu projeto seria passada de forma correta para o skate."

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