Um documento intitulado 'Relatório Pericial Independente' circula nas redes sociais com alegações falsas de fraude nas eleições presidenciais. Compartilhado por apoiadores de Flávio Bolsonaro e o comentarista Joey Mannarino, o relatório foi desmentido pela Justiça Eleitoral, que afirmou que ele distorce dados públicos. O TSE esclareceu que a votação após as 17h não alterou o resultado e que a ausência de biometria não indica irregularidade. Dados foram transmitidos em tempo real, e votações unânimes em algumas seções são normais.
Circula nas redes sociais um documento intitulado “Relatório Pericial Independente”, com alegações falsas de fraude no segundo turno das eleições presidenciais. O material, que afirma estar baseado na análise de microdados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), reúne uma série de apontamentos sobre supostas irregularidades na votação.
O documento foi compartilhado por apoiadores do senador Flávio Bolsonaro (PL) nas redes sociais para questionar o resultado do segundo turno do pleito, e também pelo comentarista político dos Estados Unidos Joey Mannarino, simpatizante de Donald Trump. A postagem do norte-americano acumulou mais de 400 mil curtidas no Instagram.
Em uma nota publicada na última terça-feira, 28, a Justiça Eleitoral desmentiu o relatório e afirmou que ele distorce dados públicos para sugerir fraude.

Confira a checagem dos principais pontos levantados pelo documento.
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Votação após às 17h não mudou resultado das eleições
A principal alegação do relatório é de que Flávio Bolsonaro teria vencido a eleição considerando as urnas encerradas até as 17h. Mas isso é falso porque, após o horário, apenas 34 mil votos foram computados nas seções em todo o País.
Lula venceu o segundo turno das eleições com 64,2 milhões de votos, enquanto o ex-candidato do PL teve 59,8 milhões. A diferença entre os dois foi de 4,4 milhões de votos. Ou seja, a votação que ocorreu após as 17h não seria capaz de alterar o resultado eleitoral.
O documento ainda erra ao vincular os votos registrados após as 17h a apenas um candidato específico. Devido ao sigilo do voto, não é possível saber em quem os eleitores que compareceram às urnas no horário estendido votaram. “O Registro Digital do Voto (RDV) armazena as escolhas sem vinculá-las à identidade dos eleitores”, explicou o TSE.

A publicação também levanta dúvidas sobre a informação do TSE de que 34 mil votos foram registrados após as 17h, alegando que o dado não é verdadeiro. Porém, diversos veículos da imprensa, como Estadão, BBC, g1, Folha de S. Paulo e outros, chegaram a conclusões semelhantes à da Justiça Eleitoral.
Os levantamentos foram feitos a partir dos microdados do TSE, que são públicos e disponibilizados no Portal de Dados Abertos (aqui).
A análise da Justiça Eleitoral aponta que, dentre 34.393 votos registrados após as 17h, 32.399 mil foram computados entre 17h e 18h. Já entre as 18h e 19h, houve 1.981, e 13 após as 19h.
A maior parte dos votos após as 17h ocorreu até as 17h10, como explicaram pesquisadores do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Universidade de São Paulo (USP), ao Estadão. É comum que, nessa faixa de horário, ainda existam pessoas na fila para votar.
O voto após as 17h nas eleições não é uma situação inédita. Segundo o TSE, no segundo turno das eleições de 2022, 31.714 eleitores votaram após o horário. Isso porque a legislação eleitoral garante a votação até o último eleitor que esteja aguardando na fila.
Votos de eleitores sem identificação biométrica não é indício de irregularidade
O documento aponta que 8,6 milhões de eleitores teriam votado sem passar pela identificação biométrica, o que representaria a “maior vulnerabilidade material de todo o processo de 2026”. Embora o TSE não tenha confirmado esse número, a ausência de identificação por biometria não configura irregularidade, pois o cadastro biométrico não é obrigatório para que o eleitor exerça o direito ao voto.
Nos casos em que a impressão digital não é reconhecida, há um procedimento alternativo para liberar o voto. O protocolo inclui a confirmação do ano de nascimento do eleitor, informação que não fica disponível ao mesário e deve ser digitada no terminal. Também é necessária a assinatura no caderno de votação e a identificação do mesário responsável pela liberação.

De acordo com o TSE (aqui), 141,3 milhões de eleitores tinham a biometria cadastrada nessas eleições, o equivalente a 89% do eleitorado, que é composto por 158,7 milhões de pessoas. Assim, 11% dos eleitores ainda não têm biometria cadastrada por diferentes motivos, o que representa aproximadamente 17,4 milhões de brasileiros.
Em nota que desmente as alegações apresentadas pelo relatório, a Justiça Eleitoral explicou que “os arquivos divulgados pelo TSE não fornecem uma lista que indique em quem votou cada pessoa habilitada sem reconhecimento biométrico”. Dessa forma, mesmo que 8,6 milhões de pessoas tenham votado sem biometria, não é possível atribuir o voto delas a um determinado candidato, como sugere o documento.
Dados sobre a votação foram transmitidos em tempo real, ao contrário do que diz relatório
Sem apresentar provas, o relatório afirma que os microdados das eleições só teriam sido disponibilizados à população 72 horas após a proclamação do resultado, o que também não é verdade. As informações sobre a votação são públicas e puderam ser acompanhadas em tempo real, à medida que os boletins de urna (BUs) eram transmitidos e processados.
De acordo com a Justiça Eleitoral, no último domingo, após o encerramento da votação, os BUs foram impressos e afixados na porta das seções eleitorais, além de disponibilizados na internet, por meio da página Resultados, do TSE.
Também ficam disponíveis para consulta o Registro Digital do Voto e o log da urna, que contém informações sobre o funcionamento do equipamento, como os horários de início e encerramento da votação e o número de eleitores que votaram. Um exemplo de que os dados foram disponibilizados sem atrasos é que, durante a apuração, a imprensa acompanhou e publicou, em tempo real, a evolução da disputa entre os candidatos.
Devido à prorrogação do horário de votação, determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, a divulgação dos resultados, iniciada às 17 horas, foi temporariamente interrompida para aguardar o encerramento das seções eleitorais que permaneceram em funcionamento até as 19 horas. Conforme esclareceu a Justiça Eleitoral, a suspensão provocou diferenças temporárias na apresentação dos dados no painel nacional e nos recortes territoriais.
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Seções com votação unânime são normais e não provam fraude
O material alega ser uma “aberração” que Flávio não tenha recebido votos em 106 urnas eletrônicas no Brasil, enquanto Lula não teve votos em quatro seções no segundo turno das eleições. Porém, a votação unânime não é prova de fraude eleitoral, como mostrou o Verifica.
Os dados públicos mostram que o senador não foi votado nas seções que, em sua maioria, estão localizadas em comunidades indígenas e rurais. A Justiça Eleitoral explica que a convergência de votos nesses locais é comum.
Em 2022, 147 seções eleitorais em todo território nacional tiveram votação única para algum candidato à Presidência. O site TSE registra que, ao menos, desde o pleito de 2002, existem seções em que apenas um candidato à Presidência recebe votos.
O Aos Fatos também checou alegações do relatório.



