Rússia e China vão entrar na guerra do Irã? Como os países foram atingidos pelas ações dos EUA?
Apesar das relações políticas e econômicas com Teerã, tanto Moscou quanto Pequim têm oferecido, até agora, apenas apoio retórico à República Islâmica. Crédito: Imagens: AFP
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Os Estados Unidos lançaram ataques, junto a Israel, contra o Irã no final de fevereiro sob a justificativa de proteger interesses de segurança global devido a preocupações com o programa nuclear iraniano. O conflito, no entanto, atinge indiretamente duas potências rivais dos americanos no cenário global, que são aliadas próximas do Irã: a Rússia e a China.
A guerra no Oriente Médio também ocorre em meio a um contexto geopolítico conturbado para as duas nações: a Rússia em seu quarto ano de guerra com a Ucrânia e a China em meio a negociações comerciais com os EUA.
Especialistas ouvidos pelo Estadão explicam que na verdade os ataques americanos contra o Irã revelam uma perda de prestígio russo e uma cautela chinesa, já que ambos priorizam a estabilidade interna e as negociações bilaterais com Washington em vez de defesas militares mútuas.
Apesar das relações políticas e econômicas com o Irã, tanto Moscou quanto Pequim têm oferecido, até agora, principalmente apoio retórico à República Islâmica. Isso se explica, em parte, pelo fato da Rússia e da China não terem uma aliança defensiva multilateral equivalente à Otan, por exemplo.

“O que existe é um conjunto de parcerias bilaterais com uma coordenação crescente e tudo isso torna a situação um pouco mais complexa”, afirma Julian Waller, professor da Universidade George Washington.
Waller explica que a maioria dos países mantêm relações com Teerã por motivos estratégicos, geográficos ou econômicos, fatores que raramente se traduzem em disposição para sacrifícios quando o país é alvo de ataques.
Em janeiro de 2025, por exemplo, a Rússia e o Irã assinaram um importante tratado de cooperação que aprofundou seus laços de defesa. O pacto fortaleceu a colaboração militar, prevendo intercâmbio de tecnologia, principalmente no fornecimento de drones, mas não incluiu a exigência de defesa mútua em caso de ataque militar.
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Já a China tem apenas um compromisso formal de defesa: com a Coreia do Norte. Diferentemente dos Estados Unidos, que possuem compromissos formais de defesa com dezenas de aliados, as parcerias chinesas com o Irã e a Venezuela são estratégicas, não alianças militares.
Apesar de a China e a Rússia não terem sido o fator principal que motivaram as ações de Washington, a guerra no Oriente Médio, somadas à captura do ex-ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, semanas antes, atingem diretamente países que faziam parte da estratégia global chinesa e da rede de parceiros do Kremlin.
“O que a Casa Branca não mencionou é que se trata de um jogo de xadrez tridimensional para lidar com a China”, acrescenta Waller.

Geopolítica do Petróleo como Estratégia de Controle
Ao capturar Maduro na Venezuela, Trump cortou o fluxo do petróleo que ia para a China - cerca de 80% da produção local - e Cuba, mergulhando a ilha numa grave crise econômica. No caso do Irã, a maior parte de sua produção, cerca de 80 a 90%, também era destinada ao mercado chinês, fluxo este que agora está bloqueado pelo fechamento do Estreito de Ormuz, por onde também passa um quinto do petróleo mundial.
Vitelio Brustolin, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador de Harvard explica que, ao atingir esses fluxos energéticos, os Estados Unidos conseguem pressionar diretamente seu principal adversário estratégico: a China.
“Não há dúvida que o ataque ao Irã também tem objetivo de controlar o acesso energético chinês”, afirma Brustolin.
O especialista destaca que a geopolítica do petróleo é parte da estratégia de Trump. Ele cita exemplos como a Índia, que foi forçada a reduzir compras da Rússia para evitar tarifas de 25%.
Em contrapartida, Pequim vem tentando construir um contraste de narrativas com a guerra no Irã. Em um artigo publicado no início do mês, a agência de notícias estatal chinesa Xinhua classificou os ataques como uma “violação flagrante” dos propósitos e princípios da Carta da ONU. O mesmo artigo considerou a intervenção um desvio das “normas fundamentais das relações internacionais”.
Tom Harper, professor da Universidade de East London, explica que a China vem tentado se apresentar como uma espécie de parceira para a estabilidade. “Pequim argumenta que os EUA tendem a levar ao caos, enquanto a China é mais estável, oferece desenvolvimento e trata os países de forma mais equilibrada”, afirma.
Além disso, ele explica que a China enxerga alianças de forma diferente da Otan ou do antigo Pacto de Varsóvia. Ou seja, apesar de que no curto prazo a posição da China pode parecer frágil, em termos da posição de Pequim na região Ásia-Pacífico, ela pode potencialmente se fortalecer, especialmente se o conflito com o Irã se prolongar.

A escalada militar também ocorre às vésperas de uma possível cúpula entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder chinês, Xi Jinping, prevista para acontecer em Pequim nas próximas semanas.
O encontro busca consolidar uma trégua comercial entre as duas maiores economias do mundo. Apesar dos analistas avaliarem que a reunião provavelmente será mantida, o desenrolar da guerra pode influenciar o clima diplomático.
“Se o conflito se agravar ou houver uma crise maior no Irã, isso pode alterar completamente o cenário” afirma Brustolin. Ainda assim, ele destaca que negociações entre as potências tendem a continuar mesmo em períodos de tensão, e é do interesse chinês que continue.
Enfraquecimento e a Perda de Poder da Rússia
Analistas ouvidos pelo Estadão ainda avaliam que Moscou vive um momento de perda de influência internacional. A Rússia tem demonstrado dificuldade em defender parceiros estratégicos, como nos casos da derrubada de Bashar al‑Assad na Síria, as ofensivas do Azerbaijão na Armênia, a captura de Nicolás Maduro na Venezuela e agora a guerra no Irã.
Eles explicam que a Rússia investiu diversos ativos nesses países, não só investimento econômico, mas também militar, conexões com elites e inteligência compartilhada. Como resultado, há uma criação da percepção de que a Rússia tem um papel importante a desempenhar no Oriente Médio e na América Latina.
Contudo, as ações de Trump estão destruindo sistematicamente a percepção de que Moscou tem um papel relevante no mundo, afirma Waller.
Brustolin ainda explica que a perda de poder russo no cenário geopolítico internacional permite que os EUA façam intervenções mais agressivas. “A Rússia não está conseguindo projetar poder e não consegue proteger os seus aliados”, afirma.
Moscou chegou a condenar os ataques americanos contra o Irã como “atos não provocados de agressão armada” e alertou para riscos de instabilidade regional, mas a resposta tem sido limitada. Os especialistas afirmam que o Kremlin evitará qualquer confronto militar direto com Estados Unidos ou Israel.
“No fim das contas, a guerra na Ucrânia é a única coisa que importa para o Kremlin no momento”, Waller acrescenta.






