Gerando resumo
Existem poucos exemplos na história que se comparem ao tamanho, à escala e à importância do funeral que o governo do Irã está se preparando para realizar em homenagem ao seu líder supremo assassinado, o aiatolá Ali Khamenei.
Talvez mais impressionante do que a complexidade e o alcance do funeral seja seu simbolismo neste momento. Ele ocorre mais de quatro meses após a morte de Khamenei, em fevereiro, no início da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, e seis meses depois que o Irã foi tomado por protestos em todo o país exigindo o fim de seu governo.
Embora se espere que milhões de pessoas comparecem aos funerais na próxima semana, muitos iranianos continuam profundamente insatisfeitos com o que o reinado de Khamenei trouxe ao país ao longo de quase quatro décadas de governo autoritário.
Ele supervisionou uma repressão brutal, incluindo a prisão, tortura e assassinato de dissidentes, e presidiu à corrupção crescente e ao controle cada vez maior de grande parte da riqueza do Irã pelas forças de segurança do país.
Quando ficou claro que ele havia sido morto, algumas pessoas no Irã comemoraram abertamente, correndo grande risco. Khamenei não era apenas o chefe de Estado do Irã. Como líder de seu sistema teocrático, ele também se apresentava como um clérigo muçulmano xiita autoritário, com seguidores devotos no Iraque, no Líbano, no Paquistão e em outros países com populações xiitas.
Além disso, ele comandava a Guarda Revolucionária Islâmica, uma força militar ideológica que tem apoiado grupos militantes xiitas, como o Hezbollah, em todo o Oriente Médio.
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, incentivou os iranianos “de todas as etnias, religiões, preferências e tendências políticas” a comparecerem ao funeral, vinculando explicitamente a participação deles à imagem que o país deseja apresentar no cenário mundial.
“Sua presença maciça será uma resposta decisiva à lógica do terrorismo, da violência e da intimidação, e uma mensagem clara ao mundo de que a nação iraniana está unida e solidária na defesa de sua independência e dignidade”, afirmou Pezeshkian em comunicado nesta quinta-feira, 2.

Adiamento
É altamente incomum na cultura muçulmana que o enterro seja adiado por tanto tempo após a morte. Isso, por si só, já era um indicador das circunstâncias extraordinárias que o Irã enfrentou após a morte de Khamenei, em meio a semanas de bombardeios intensos.
Autoridades negaram os rumores de que o corpo de Khamenei tivesse sido enterrado temporariamente e afirmaram que ele foi mantido de acordo com os requisitos religiosos.
Agora, o governo do Irã busca apresentar o funeral como um momento de unidade nacional e luto compartilhado, uma demonstração de competência burocrática e um sinal de resistência contra um inimigo externo.
O emblema do funeral, divulgado pelo órgão oficial de planejamento, é o punho cerrado de Khamenei ao lado do slogan: “Devemos nos levantar”.
As cerimônias também serão uma oportunidade para o governo demonstrar a influência regional do Irã e seus laços religiosos transnacionais, com planos para eventos de luto em grande escala no Iraque, que também possui uma grande população de muçulmanos xiitas e abriga milícias xiitas apoiadas pelo Irã.
A magnitude dos preparativos “reflete o esforço do regime para transformar a morte de Khamenei em uma demonstração cuidadosamente coreografada de continuidade, em vez de um momento de incerteza”, disse Saeid Golkar, professor da Universidade do Tennessee em Chattanooga, que pesquisou o governo do Irã e suas forças de segurança.
Um desafio a essa demonstração de continuidade é o fato de que o sucessor de Khamenei, seu filho, o aiatolá Mojtaba Khamenei, ainda não apareceu em público desde que foi escolhido como líder supremo em março. Ainda não está claro se ele comparecerá publicamente ao funeral.
Feriado
O evento representa um enorme desafio logístico para os organizadores. Espera-se que Teerã fique completamente paralisada, com um feriado oficial declarado na cidade por três dias a partir de sábado, 4.
Autoridades municipais planejaram enormes estacionamentos nos arredores da capital, onde viajantes vindos de todo o país poderão deixar seus carros e seguir de ônibus para a cidade. Quartéis militares e escolas estão sendo utilizados para acomodar os enlutados.
Em um grande complexo de salas de oração, o Grand Mosalla, onde Khamenei ficará inicialmente em câmara ardente, equipes estão trabalhando para montar plataformas e criar rotas de entrada e saída para as enormes multidões que devem comparecer para ver o corpo.
“A participação em massa tem como objetivo projetar legitimidade, disciplina e apego popular à revolução e ao seu líder, mesmo que a realidade da sociedade iraniana continue muito mais dividida e contestada”, disse Golkar.
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A cerimônia fúnebre, incluindo um cortejo fúnebre pelas ruas mais importantes de Teerã, ocorrerá na capital na segunda-feira, 6; em seguida, será realizada outra cerimônia em sua homenagem em Qom, o centro de estudos religiosos do Irã.
Na quarta-feira, 8, autoridades levarão o corpo de Khamenei ao Iraque, onde estão previstas cerimônias nas cidades de Karbala e Najaf, locais de peregrinação para xiitas de todo o mundo.
“O Irã espera reafirmar o caráter transnacional que tem definido a República Islâmica e sua política externa”, disse Afshon Ostovar, professor associado da Escola Naval de Pós-Graduação da Califórnia e especialista em questões de segurança iranianas.
Para a Guarda Revolucionária Islâmica, “essa será uma forma de simbolizar a influência e o poder regionais do Irã”, acrescentou Ostovar. E, na quinta-feira, 9, o corpo de Khamenei será sepultado em Mashhad, sua cidade natal, em um santuário dedicado a uma das figuras mais importantes do islamismo xiita, o imã Reza.
Seu sepultamento ali, disse Ostovar, “será uma prova do status que ele detém dentro do regime iraniano e entre seus apoiadores. Não refletirá como ele era visto pelo povo iraniano”.
Antecessores
O antecessor de Khamenei, o aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da teocracia iraniana e líder da revolução de 1979, foi sepultado em um mausoléu dedicado, hoje local de peregrinação para seguidores devotos. Ao enterrar Khamenei em um santuário já existente, ainda que seja o mais importante do Irã, o governo pode evitar comparações desfavoráveis entre os seguidores dos dois homens.
A simples tarefa de garantir a segurança e o controle da multidão na próxima semana provavelmente será um grande desafio, com as autoridades cientes do que aconteceu nas duas ocasiões anteriores em que figuras proeminentes do regime foram sepultadas: o funeral de Khomeini, em 1989, e o de Qassem Soleimani, general da Guarda Revolucionária morto por um ataque americano, em 2020.
No funeral do aiatolá Khomeini, cenas caóticas se desenrolaram quando cerca de três milhões de pessoas compareceram para prestar suas homenagens. Em determinado momento, seu corpo caiu de um caixão de madeira frágil e foi atacado por uma multidão enfurecida, que teve de ser dispersada por soldados que dispararam tiros de advertência. Oito pessoas morreram pisoteadas naquele dia. E no funeral de Soleimani, dezenas de pessoas morreram em uma debandada.
A morte de Khomeini, em 1989, marcou o fim do primeiro capítulo da República Islâmica e deu início ao governo de 37 anos de Khamenei. Agora, o funeral deste último, que durará vários dias e será repleto de espetáculos, disse Ostovar, “marcará o fim de um período da evolução da República Islâmica e o início de um novo”.
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