Lula usa discurso na ONU pra fazer campanha e critica Trump

Presidente disse que ‘o Brasil não cabe no quintal de ninguém’ e citou diretamente as eleições do próximo dia 4, dizendo que os brasileiros irão escolher entre ‘democracia e negacionismo’

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Foto do autor Daniel Gateno
Atualização:

‘O Brasil não cabe no quintal de ninguém", diz Lula em discurso na ONU

Presidente brasileiro usa temas da campanha em discurso na ONU e manda série de indiretas a Trump. Crédito: webtv.un.org | ONU

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ENVIADO ESPECIAL A NOVA YORK - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva extrapolou seus 15 minutos na plenária da Assembleia-Geral da ONU para fazer campanha eleitoral e enviou recados ao americano, Donald Trump. Como havia sido adiantado, o presidente tratou de soberania e riscos à democracia nas eleições brasileiras.

Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém.

Lula em sua 10ª participação na Assembleia-Geral da ONU

Como tradição, o brasileiro abriu os discursos de líderes do Debate Geral e foi seguido por Donald Trump. Havia a expectativa de que os dois pudessem se esbarrar nos corredores da organização novamente, como ocorreu ano passado. Mas, segundo fontes do Palácio do Planalto, não houve este encontro de bastidor.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a 81ª Assembleia-Geral da ONU Foto: Yuki Iwamura/AP

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“A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos”, continuou o presidente, citando Venezuela, Nicarágua e Cuba.

“O povo venezuelano merece definir o próprio destino. A Nicarágua não vai resolver os seus problemas impedindo a oposição de disputar eleições. A crise no Haiti continua a testar os limites da indiferença da comunidade internacional. Em Cuba, o mundo assiste estarrecido à punição coletiva imposta a 10 milhões de pessoas por um embargo econômico e um cerco energético ilegais”.

Em recado aos Estados Unidos, que recentemente afirmaram que o Brasil não faz o suficiente para combater as facções criminosas. “O Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado. Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades.”

As pessoas estão cansadas da violência. Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime.

Luiz Inácio Lula da Silva na ONU

O brasileiro citou nominalmente o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, e o Hamas ao falar da guerra na Faixa de Gaza. “Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas. Perseguir o Tribunal Penal Internacional e seus integrantes é um estímulo para que esses crimes fiquem impunes.”

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O presidente também citou seu histórico político de luta contra a ditadura militar e na defesa da democracia. “Somos chamados a optar entre o unilateralismo ou multilateralismo, soberania ou subordinação”, disse, mais uma vez com referências implícitas às medidas do governo Trump.

'Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas', diz Lula na ONU

Presidente envia recado a Trump após EUA criticarem Brasil por combate ao crime organizado.

Então, ele se volta ao público interno, citando ações de seu governo para o combate à violência, além de outras pautas que têm guiado esta campanha eleitoral.

“O trabalhador precisa de tempo para descansar, se qualificar e conviver com a família. No Brasil, concretizar esse objetivo passa pelo fim da chamada escala 6x1 para garantir ao trabalhador 2 dias livres por semana”.

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Quero concluir com uma mensagem sobre o meu país a todos os que nos ouvem. No dia quatro de outubro, milhões de brasileiras e brasileiros vão às urnas para definir o seu destino. Não vão apenas eleger o presidente da República, governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo. Vão decidir entre democracia e negacionismo.

Luiz Inácio Lula da Silva na ONU

Sem citar Flávio Bolsonaro e Trump, cita a aproximação de candidatos com “interesses estrangeiros”. “Teremos um pleito transparente e competitivo, em que todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão. Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país.”

E encerrou: “Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto. Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém...!!! Ninguém nos afastará desse caminho.”

Brasileiros vão definir entre democracia e negacionismo dia 4, diz Lula na ONU

Presidente cita eleições presidenciais e diz que ninguém tirará a soberania brasileira. Crédito: ONU

O presidente falou diretamente ao secretário-geral, António Guterres, que deixa o cargo em 1º de Janeiro após uma década. “Ao longo de seus dois mandatos, António Guterres foi testemunha direta dos crescentes desmandos das superpotências”, disse.

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O discurso foi interrompido cerca de quatro vezes por aplausos dos presentes na abertura da Assembleia. O primeiro momento foi quando Lula salientou que a Assembleia corrigiu recentemente distorções históricas; o segundo quando o brasileiro destacou que perseguir o TPI e seus integrantes é um estímulo para que crimes fiquem impunes; o terceiro quando tratou da soberania dos países e, por fim, Lula foi aclamado quando, ao mencionar o projeto do fim da escala de trabalho 6 x1.

Trump fala em aniquilar Irã

Diferentemente do discurso do ano passado, Trump não fez acenos amigáveis ao petistas desta vez. Na realidade, ele não citou o Brasil.

Lula havia acabado de criticar quem “ameaça civilizações de extinção”, quando Trump subiu na plenária para repetir a ameaça de aniquilar o Irã, como havia feito meses atrás. Pouco antes de alcançar um cessar-fogo o regime iraniano em abril, Trump disse que “uma civilização inteira morrerá”, na ameaça mais grave do conflito até então.

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No início de sua fala, Trump disse que os EUA estão resolvendo conflitos “intratáveis que duram décadas”. “Não há exemplo melhor de um perigo que teve permissão para ganhar força, colocando o mundo em risco, do que o principal patrocinador do terrorismo, a República Islâmica do Irã”, afirmou.

António Guterres é aplaudido de pé em seu último discurso na Assembleia-Geral da ONU

Secretário-geral deixa o cargo em 1º de janeiro, após uma década.

O presidente afirmou que tentou fazer um acordo com Teerã após assumiu o cargo, no início do ano passado, mas que as autoridades iranianas recusaram.

“Mas tenho uma grande decisão a tomar: será feito um acordo com o Irã que permita ao país se reconstruir e se tornar muito maior do que jamais foi, talvez um dos maiores do Oriente Médio ou até do mundo? Ou devo aniquilar a República Islâmica e fazer isso rapidamente, sem nunca lhes dar a chance de matar e destruir pessoas e países?”, acrescentou./Com Broadcast

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