Por que Miami é um destino para políticos da América Latina que fugiram de seus países

A maioria hispânica da cidade, o alcance da mídia e as conexões aéreas com a América Latina fizeram dela uma base ideal para políticos que fogem de seus países de origem

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Por Francesca Regalado (The New York Times) e Victor Mather (The New York Times)
Atualização:

Avião que levava Flávio Bolsonaro e família pousa em Miami

Flávio desembarcou com a mulher, Fernanda Bolsonaro, e as filhas pouco depois das 10h30, pelo horário de Brasília. Crédito: CNN Brasil

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

Flávio Bolsonaro chegou a Miami após perder a eleição para Lula e ter seu passaporte solicitado em investigação de lavagem de dinheiro. Ele se autoproclamou presidente legítimo do Brasil. Miami é refúgio para políticos exilados, como Juan Guaidó da Venezuela, José Daniel Ferrer de Cuba, Ricardo Martinelli do Panamá e Félix Maradiaga da Nicarágua, devido à sua conexão com a América Latina e apoio de figuras como Donald Trump. A cidade oferece um ambiente familiar e suporte para exilados.

Ao chegar a Miami, vindo do Brasil, na quarta-feira, Flávio Bolsonaro juntou-se a uma longa lista de políticos latino-americanos que fugiram para a cidade para escapar de prisões ou processos judiciais em seus países de origem.

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Bolsonaro foi derrotado na eleição de domingo pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e as autoridades brasileiras solicitaram a entrega de seus passaportes no âmbito de uma investigação sobre lavagem de dinheiro. Na noite de terça-feira, ele atravessou a fronteira para a Argentina por via terrestre, acompanhado de sua esposa e duas filhas; em seguida, embarcou em um avião particular rumo ao Equador, seguindo viagem até Miami.

De lá, ele divulgou um comunicado alegando que a eleição foi fraudulenta e autoproclamou-se o “presidente eleito legítimo” do Brasil.

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Flavio Bolsonaro desembarca de uma aeronave após chegar ao Aeroporto Executivo de Opa-Locka, em Miami, Flórida, no dia 28 de outubro de 2026 Foto: Ricardo ARDUENGO / AFP

Líderes políticos exilados da Venezuela, Cuba, Nicarágua e de outros países encontraram apoio na região de Miami, que abriga grandes comunidades de imigrantes latino-americanos e está conectada a importantes cidades do Caribe, da América Central e da América do Sul por dezenas de voos diretos diários.

“Miami é o centro nevrálgico”, afirmou Guilherme Casarões, professor associado de ciência política na Florida International University, em Miami.

Ele observou que o fluxo de cubanos contrários ao regime de Castro — iniciado na década de 1960 e intensificado a partir dos anos 1980 — fomentou um forte sentimento anticomunista na cidade, além de uma inclinação geral para a direita. Muitos dos que se exilaram ou buscaram refúgio em Miami, incluindo Bolsonaro, situam-se no espectro político de direita.

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Bolsonaro também conta com o apoio de Donald Trump, uma figura onipresente no sul da Flórida. Mar-a-Lago, o clube privado e residência de Trump em Palm Beach, “é a capital informal do país”, disse Casarões.

Para muitos exilados latino-americanos, a cidade também oferece um ambiente confortável.

“Miami funciona como um ponto de convergência, com voos diretos para quase todas as capitais latino-americanas, um idioma e um cotidiano que parecem familiares, além de contar com advogados, bancos e veículos de imprensa já habituados a receber pessoas da região”, explicou Luisa Turbino Torres, professora assistente de ciência política na Florida Atlantic University, em Boca Ratón, que estuda a política brasileira e movimentos sociais. “Isso faz com que a experiência pareça menos um exílio e mais uma extensão do próprio lar.”

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Aqui estão alguns dos políticos de destaque que fizeram da região de Miami o seu lar:

Juan Guaidó

Venezuela

O sul da Flórida abriga a maior população de venezuelanos nos Estados Unidos. No início de 2020, milhares deles reuniram-se em Miami para um comício que teve como principal figura Juan Guaidó, ex-líder da oposição que se autoproclamou presidente interino em 2019, após liderar protestos contra o governo autoritário de Nicolás Maduro.

Guaidó chegou a Miami em 2023, depois de relatar ter sido colocado em um avião por autoridades dos Estados Unidos e da Colômbia, logo após sua chegada a Bogotá, onde participaria de negociações sobre o futuro da Venezuela. Mais tarde naquele ano, as autoridades venezuelanas anunciaram a emissão de um mandado de prisão contra ele, sob a acusação de uso indevido de recursos públicos.

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Em Miami, ele tem continuado a se manifestar sobre a situação política na Venezuela. Em janeiro, declarou à CBS News que uma eventual captura de Maduro pelos Estados Unidos representaria “justiça” para os venezuelanos. “Este é um regime criminoso”, afirmou, defendendo que ele seja desmantelado. Ele também expressou o desejo de retornar à Venezuela, caso seja possível.

José Daniel Ferrer

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Cuba

José Daniel Ferrer, líder de um importante grupo dissidente em Cuba, chegou a Miami no ano passado, após ser libertado da prisão a pedido do governo dos Estados Unidos. Ele se juntou às centenas de milhares de cubanos que buscaram refúgio em Miami nas décadas que se seguiram à ascensão de Fidel Castro ao poder, em 1959, durante a revolução comunista.

A saída de Ferrer representou um duro golpe para a oposição em Cuba, visto que ele era um dos poucos líderes que ainda permaneciam no país, sem estar no exílio. Segundo informou o governo dos EUA na ocasião, Ferrer solicitou deixar Cuba devido às condições precárias na prisão e às ameaças contra sua família. (Cuba nega a existência de prisioneiros políticos no país.)

Ele foi recebido em Miami pelo senador Marco Rubio — natural da cidade e filho de imigrantes cubanos.

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Ricardo A. Martinelli

Panamá

Ricardo A. Martinelli, que foi presidente do Panamá de 2009 a 2014, deixou seu país em 2015, poucos dias antes de a Suprema Corte do Panamá emitir um mandado de prisão contra ele sob acusações de corrupção e espionagem ilegal de rivais políticos. Ele negou as alegações e solicitou asilo político nos Estados Unidos.

Em 2017, ele vivia em Coral Gables, um subúrbio de Miami, quando foi detido pelo U.S. Marshals (serviço federal dos EUA) a pedido do governo panamenho. No ano seguinte, foi extraditado para o Panamá. Em 2019, um tribunal na Cidade do Panamá considerou-o inocente da acusação de espionagem política e ordenou sua libertação.

Em 2024, foi condenado a 10 anos de prisão por desvio de verbas, mas, um ano depois, obteve permissão para seguir para a Colômbia.

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Félix Maradiaga

Nicarágua

Félix Maradiaga era candidato à presidência da Nicarágua em 2021 quando foi preso pelo governo do ditador Daniel Ortega, que controla o país há quase 20 anos. Maradiaga foi libertado repentinamente em 2023 e seguiu para a região de Miami. Após a libertação, ele e cerca de 200 outros prisioneiros políticos tiveram sua cidadania nicaraguense cassada.

De Miami, Maradiaga tem liderado um partido de oposição, o “Caminho para a Mudança” (Path to Change), que conta com exilados, mas também atua clandestinamente na Nicarágua.

Maradiaga faz parte de uma grande comunidade de nicaraguenses que vivem em Sweetwater, uma cidade próxima a Miami. Muitos dos prisioneiros políticos libertados e enviados para os Estados Unidos optaram por se estabelecer no sul da Flórida.

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