O Salão de Pequim, que aconteceu na China de 24 de abril a 3 de maio, segue como um dos maiores eventos da indústria automotiva mundial, mas a experiência no local vai muito além dos lançamentos. O evento revela contrastes, hábitos e particularidades que ajudam a entender não só o mercado chinês, mas também a forma como a indústria está se reorganizando.
Logo na chegada, chama atenção a presença massiva de criadores de conteúdo locais. Há verdadeiros “exércitos” de influenciadores circulando pelos estandes, muitos transmitindo ao vivo pelas plataformas chinesas, como o WeChat. Em alguns casos, grupos organizados percorrem o evento com equipamentos de gravação, produzindo conteúdo em tempo real para audiências que não passam pelos canais tradicionais da imprensa.
Ao mesmo tempo, o evento expõe uma contradição: apesar do alto nível tecnológico dos carros e das ativações, a conectividade nem sempre acompanha. O acesso à internet é instável em diversos pontos do pavilhão, o que dificulta as transmissões e até o envio de materiais básicos para o Brasil, por exemplo. Jornalistas de outros países passam por perrengues desnecessários com a falta de conexão.
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Outro ponto que chama atenção é o desconforto térmico. Diferente de outros grandes salões internacionais, o ar-condicionado não dá conta do fluxo de visitantes em todos os ambientes. Em alguns momentos, o calor se torna parte da experiência — algo incomum para um evento desse porte. Coisa que só acontecia no Salão do Automóvel do Brasil no antigo Anhembi, até 2014, quando aconteceu a última mostra antes de mudar para o Expo São Paulo e da reforma do Distrito de Exposições na gloriosa zona norte paulistana.
Se por um lado há limitações estruturais, por outro, o nível dos estandes impressiona. As montadoras chinesas investem pesado em cenografia, iluminação e experiências visuais. Muitos espaços têm aparência de showrooms futuristas, com estruturas grandes e acabamento sofisticado. E, diferentemente do que foi apresentado no Salão de São Paulo de 2025, no qual nenhum estande tinha dois andares, em Pequim foi o oposto. Estruturas nababescas de dois andares eram quase unanimidade.
A tecnologia está presente em praticamente todos os cantos. Robôs humanoides se tornaram presença constante, seja recepcionando visitantes, interagindo com o público ou apenas compondo o cenário. Em alguns estandes, eles são protagonistas. Em outros, aparecem como complemento, mas sempre reforçando a narrativa de inovação.
Geely M9 - Salão do Automóvel | Pequim 2026
Geely M9 - Salão do Automóvel | Pequim 2026. Crédito: Isadora Carvalho
A dimensão do evento também impacta a experiência. O Salão de Pequim é dividido em diversos pavilhões, e a locomoção entre eles pode levar até meia hora de caminhada. Planejamento é essencial para quem quer cobrir tudo.
Mesmo sendo um evento essencialmente chinês, há sinais claros de globalização. Um exemplo curioso é a presença de uma unidade do McDonald’s dentro do pavilhão principal, que chega a formar filas longas ao longo do dia, funcionando como ponto de apoio para visitantes e jornalistas.
Na comunicação, o idioma ainda é uma barreira. Em muitos estandes, quase não há representantes que falem inglês. Já nas coletivas de imprensa, a maioria das apresentações ocorre em chinês, com tradução simultânea para o inglês. O modelo segue uma tendência que já aparece em eventos europeus, especialmente na França, onde o idioma local tem ganhado mais espaço.

No conjunto, o Salão de Pequim mistura escala, tecnologia e particularidades culturais. É um evento que não apenas apresenta carros, mas também evidencia como a indústria chinesa se comunica, se posiciona e projeta seu futuro.
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