‘IA pode ser o mecanismo mais poderoso de pesquisa na web’, diz chefe de buscas do Google ao Estadão

Liz Reid falou com exclusividade ao ‘Estadão’ sobre as mudanças provocadas pela IA no buscador da empresa; sites e veículos se preocupam com inclusão da tecnologia

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Foto do autor Bruna Arimathea
Foto: Google/Divulgação
Entrevista comLiz ReidChefe de buscas do Google

MOUNTAIN VIEW - As buscas no Google passam por um momento de mudança profunda em relação ao que a empresa desenvolveu nos últimos 25 anos de sua história: a adição da inteligência artificial (IA) nas pesquisas agora trazem resultados diretos, menos links para sites e veículos na página principal e a proposta de que o usuário faça perguntas de forma menos elaboradas e mais fluidas - com a promessa de que a IA será capaz de entender contextos mais complexos.

O principal mecanismo que traz essa nova era aos usuários é o AI Overviews, que ganhou atualizações durante o Google I/O, principal evento do ano na companhia, que aconteceu na última semana em Mountain View, na Califórnia. Agora, além de resumir conteúdos relacionados à pesquisa, a IA traz quase uma página inteira de explicações com o AI Mode, limitando os links de redirecionamento a poucos resultados em uma faixa no início e no final da página.

Os recursos de IA preocupam donos de sites e pequenos veículos por estarem menos visíveis aos olhos de quem pesquisa. O resultado gerado por IA muitas vezes é grande e gera conteúdos que ocupam uma página inteira, deixando links relacionados à busca “escondidos” na página. Ainda, com o sistema de relevância de ranqueamento de páginas, a chance desses resultados aparecerem fica ainda menor.

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Liz apresentou as novidades de IA na busca do Google durante evento Foto: Camille Cohen/AFP

A questão tem reverberado na empresa. Só no começo de maio, após audiências sobre outro caso de monopólio da empresa, as ações da Alphabet, empresa controladora do Google, chegaram a cair mais de 8% depois que a Apple revelou que o tráfego do Safari, seu navegador, para o buscador do Google caiu no pela primeira vez, em 20 anos.

Em uma conversa exclusiva com o Estadão, Liz, que se tornou chefe da divisão de buscas no ano passado, mas faz parte da empresa desde 2003, abordou pontos como o interesse dos usuários por pesquisas, o julgamento do Google por monopólio e como o AI Overviews tem se tornado o carro-chefe nas buscas por IA da empresa.

Veja os melhores momentos da entrevista:

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No ano passado, Sundar Pichai (CEO do Google) disse para nos prepararmos porque a pesquisa mudaria, e vimos grandes atualizações no Google I/O em vários recursos. Como essas mudanças afetam os usuários e como elas afetam a operação de pesquisa do Google?

Ficamos muito felizes com o impulso fenomenal que vimos com o AI Overviews. Estamos vendo que, à medida que as pessoas as usam, elas ficam mais satisfeitas com a pesquisa em geral, mas, além disso, estão usando a pesquisa com mais frequência. Isso está permitindo que elas façam perguntas que não podiam fazer antes. E isso é realmente empolgante. Acho que este é um momento incrível para trabalhar com pesquisa, só pelo que a tecnologia está revelando. Você pode, como engenheiro ou gerente de produto, sonhar com o que gostaria de fazer. Portanto, acho que é muito empolgante estar nesta nova era em que mais dessas ideias parecem poder se tornar reais.

Como essas mudanças podem ajudar as pessoas que ainda não o utilizam? Como elas podem ser atraídas por isso?

Então, acho que as pessoas gostam de fazer perguntas de diferentes maneiras e têm diferentes tipos de perguntas. E acho que o que vemos com o AI Overviews é que há perguntas que teriam sido muito difíceis de fazer na pesquisa tradicional. Talvez as informações estivessem dispersas em muitas páginas da Web. Talvez fosse necessário um certo nível de compreensão da informação. Acho que uma coisa que vemos em vários países é que, na busca tradicional, seu acesso às informações era limitado pela quantidade de conteúdo disponível no idioma que você falava. Portanto, se as informações estivessem em um idioma diferente, não seriam necessariamente acessíveis para você. E com o AI Overviews, em termos de multilinguagem em sua essência, você pode fazer uma pergunta em um idioma e podemos encontrar informações em uma página da web em um idioma diferente. Portanto, isso simplesmente abre barreiras para a informação.

Como essa atualização chega em um cenário em que a IA está em constante mudança, com novas atualizações todos os dias?

Acho que estamos constantemente incorporando a tecnologia mais recente. No último ano, desde que começamos a implementá-las, vimos apenas atualizações para novos modelos e novos recursos sendo adicionados ao AI Overviews. Também falamos sobre isso com o AI Mode. Aqui estão os recursos iniciais que lançamos nos laboratórios e que estamos lançando, mas estamos adicionando novos recursos na pesquisa. E é isso que a torna tão empolgante. Agora, à medida que os introduzimos, tentamos trazê-los de uma forma que realmente faça com que a busca pareça fácil. E fazemos com que você não pense no fato de que a tecnologia está mudando. Você só pensa no fato de que agora pode fazer a pergunta que deseja fazer e obter uma resposta melhor. E é isso que tentamos fazer.

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O Google está, agora, no meio de um julgamento por monopólio e a pesquisa está no centro disso. Como esses recursos desempenham um papel nesse cenário?

Acho que os anúncios de hoje estão mais focados em como ajudar nossos usuários. Essa é realmente a nossa estrela-guia, pensar nas necessidades dos nossos usuários. É isso que nos motiva, é isso que impulsiona a inovação que temos tido e é nisso que continuaremos a nos concentrar.

Um ano após o lançamento da visão geral da IA, como você vê isso se tornando um ponto importante em relação a outros buscadores?

Nossos estudos mostram que o AI Overviews gera cliques de maior qualidade nos sites. Com isso, queremos dizer que, quando um usuário chega lá, ele passa mais tempo na página e se envolve mais profundamente com o site. Também estamos vendo que o tráfego está indo para uma maior diversidade de sites. Assim, sites que antes não apareciam porque as pessoas faziam uma pergunta mais simples e, portanto, não era possível encontrar esse tipo de conteúdo hiper-relevante, agora têm uma oportunidade, pois as pessoas começam a fazer perguntas mais específicas e podem expressar o que realmente querem. E é por isso que falamos sobre como a IA, em nossa opinião, pode ser o mecanismo mais poderoso para a pesquisa da Web, porque, de repente, é possível acessar essas páginas da Web realmente interessantes e conectar os usuários a um conteúdo realmente incrível.

O impacto do AI Mode, com resultados mais longos de pesquisas gerados por IA, não pode ser prejudicial para veículos e sites?

Ainda esperamos que a grande maioria das pessoas use o AI Overviews na experiência de pesquisa principal. Acho que o AI Mode é realmente voltado para os casos em que você tem perguntas mais difíceis e complexas ou para algumas pessoas que realmente querem estar na vanguarda da tecnologia. Portanto, espero que a experiência de pesquisa principal seja o que a maioria das pessoas continuará encontrando. No AI Mode, nós a abordamos com a mesma filosofia do AI Overviews. Portanto, o mesmo objetivo de aumentar a diversidade de sites, de aumentar a qualidade dos cliques nos sites, são coisas que achamos que podemos continuar no AI Mode também. Mas, acima de tudo, acho que este é realmente um momento em que o número de perguntas que as pessoas vão fazer está crescendo. Vimos isso com o AI Overviews e o crescimento do tráfego. Esperamos algo semelhante. Portanto, acreditamos que este é um momento em que as pessoas farão cada vez mais perguntas no mundo em geral, e isso criará novas oportunidades para os sites.

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O AI Mode, por exemplo, foi algo identificado à partir da demanda de usuários ou do que eles pareciam sentir falta?

Sim, acho que estamos sempre observando duas coisas. Para que as pessoas desejam obter informações e o que é difícil para isso? Então, fazemos estudos de pesquisa sobre a experiência do usuário, nos quais conversamos com as pessoas. Perguntamos a elas, fazemos um estudo diário no qual pedimos que registrem o que estão tentando fazer. Assim, entendemos o que é difícil para as pessoas. Em seguida, analisamos, com a tecnologia, o que é possível fazer para facilitar essas coisas ou abrir novos espaços onde elas queiram fazer uma pergunta, mas não o fazem porque acham que não vai funcionar, pois não sabem como expressá-la. E, então, tentamos evoluir para atender a essas novas necessidades.

Muitas empresas já estão criando buscas com IA de olho nesse mercado que está se abrindo. Por que as pessoas optariam pelo Google nesse caso?

Acho que a busca sempre foi um lugar ao qual as pessoas escolheram por ser realmente útil. Portanto, acredito que o foco do Google continuará sendo ser o melhor lugar para obter respostas para suas perguntas sobre informações. E esse tem sido o ponto forte do Google há muitos anos. Passamos por muitas mudanças na tecnologia, a mudança com o celular, o mundo com aplicativos, novos recursos com voz, câmeras e imagens. E, em cada uma delas, continuamos a inovar para ajudar as pessoas em suas necessidades.

O Brasil é um grande mercado para o Google e para a pesquisa. Há algo que você possa dizer sobre as especificidades do Brasil?

Tem sido muito bom ver, não apenas o progresso em geral, mas também no Brasil, do AI Overviews, onde temos visto que as pessoas realmente recebem isso. O Brasil é um ótimo mercado para pesquisas. Então, estou ansiosa para continuar inovando no País.

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*A repórter viajou a convite do Google