‘Não uso IA porque não quero uma máquina dizendo o que tenho que fazer’, diz Steve Wozniak

Ao ‘Estadão’, cofundador da Apple diz que a dificuldade de regulamentar a inteligência artificial está na falta de compreensão da tecnologia por parte dos seus próprios criadores; leia entrevista exclusiva

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Foto do autor Lucas Agrela
Atualização:
Foto: Tiago Queiroz/Estadão
Entrevista comSteve Wozniak Cofundador da Apple

Há quase 50 anos, a Apple foi fundada por dois Steves. Jobs era o homem de negócios. Já Wozniak era o inventor, o gênio por trás do Apple II. Foi Woz, como é mais conhecido, que patenteou o “microcomputador para uso com exibição de vídeo”, o que foi um marco importante para a empresa prosperar no nascente mercado de computadores ainda nos anos 1970.

No entanto, apesar da enorme capacidade de olhar para o futuro, ele não se empolga com o momento atual da tecnologia, especificamente com a inteligência artificial (IA) Em entrevista exclusiva ao Estadão, Woz fala sobre como não quer ouvir o que uma máquina tem a dizer por ele.

‘Não uso IA porque não quero uma máquina dizendo o que tenho que fazer’, diz Steve Wozniak

“Desculpe, uma pessoa criativa não quer que alguém diga: ‘eu sei o que você vai dizer e o que você vai fazer‘. Talvez pessoas normais queiram, mas as pessoas mais criativas, atores, artistas, músicos e todos esses, definitivamente não querem ser previsíveis”, diz Wozniak.

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O empresário veio ao País nesta semana a convite da Unico, unicórnio do setor de tecnologia biométrica, para participar do evento Unico Launch, no Memorial da América Latina. Na entrevista, claro, falou sobre biometria, mas também falou de regulação de big techs e seu legado na Apple.

Sobre o momento atual da empresa que ajudou a construir, que patina no terreno da IA, Wozniak não se diz satisfeito com os recursos de IA da Apple no iPhone, porque não os utiliza.

Leia os principais trechos da entrevista a seguir.

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Na sua visão, como podemos regular a inteligência artificial em benefício da sociedade?

Todo mundo quer saber como podemos regular a inteligência artificial, porque ela pode sair do controle e causar problemas. Ela pode ser abusada por pessoas, e agentes mal intencionados teriam uma nova ferramenta digital para tirar vantagem de você. Ouvimos muito sobre isso com deep fakes e coisas assim, então, isso é um problema. Mas confiamos na IA, e ela comete erros. Esse é o nosso reconhecimento do que a IA é: um computador tentando juntar informações, a partir de várias fontes de toda a internet no mundo. Somos pessoas diferentes, mas não somos todos iguais, e a IA dá apenas uma resposta, como se essa única resposta fosse certa para todo mundo. Ela só dá essa resposta a partir das coisas que ela vasculhou na web.

A IA deveria evoluir. Se você está recebendo algo de alguém ou enviando algo a alguém, devemos saber que veio da IA. Em segundo lugar, é preciso saber de qual IA e em que essa IA foi treinada, nos recursos de qual empresa. Foi com informações da Amazon ou uma livraria, algo assim? Saber disso pode me ajudar a decidir o quanto confio nela.

Em terceiro lugar, ela deveria ter atribuições. Todo artigo científico publicado em periódicos científicos tem isso, e é a forma como avançamos nosso conhecimento do mundo. Você lê um artigo em uma revista revisada por pares, e ele tem pequenos números clicáveis, ou no passado você poderia lê-los, e descobrir de qual pesquisa ou qual artigo veio aquela afirmação. Eles estão tentando construir um raciocínio lógico de afirmações que se somam a uma conclusão. A IA deveria ter isso. Você deveria poder clicar em qualquer frase e ver de onde ela veio, de qual artigo e em qual lugar.

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Mas eu não acho que isso vá acontecer. Seria perigoso demais para as pessoas que lançam a IA. Isso poderia usar de duas a cinco vezes mais recursos de computador para ser bidirecional, manter esse rastreamento de onde tudo foi originado.

A maior parte dos algoritmos de IA são como uma caixa-preta. Eles são proprietários. Ninguém sabe realmente como eles funcionam. Uma abordagem de código aberto seria melhor?

Não tenho certeza de quanto da IA é de código aberto e quanto não é. As metodologias são obviamente ensinadas nas universidades, elas são aplicadas de empresa para empresa. Isso remonta a quando tínhamos redes neurais e aprendizado de máquina, e agora simplesmente levamos isso a um patamar muito mais alto e descobrimos ‘oh, é possível usar as palavras que as pessoas usaram no passado para responder uma determinada pergunta?’ e é praticamente uma caixa-preta. Bem, é mais do que isso. As pessoas que a criam não sabem exatamente quando ela vai trazer coisas que não são verdadeiras? Quais são as verdadeiras motivações? Como regular isso? Como controlar quando você é o criador disso? E esse é um problema maior.

Porque se eles mesmos não entendem o que acontece, não importa se é de código aberto. No código aberto, teremos os mesmos defeitos. Ninguém nunca descobriu uma maneira de fazer a IA saber o que está dizendo ou ter sentimentos. Ela pode ler uma história sobre uma pessoa que resgatou um cachorro, mas não vai chorar de emoção. Ela não vai ter sentimentos reais. Não vai saber como um leitor vai responder às palavras que está apresentando.

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Steve Wozniak, cofundador da Apple, diz evitar uso de inteligência artificial Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Quais são as inovações mais promissoras em biometria que o sr. vê ganhando escala nos próximos anos?

Eu gosto, especialmente, da biometria para identificação. Com ela, é mais simples para o usuário fazer coisas sem pensar. Contanto que seja preciso, o que tem sido para coisas como o reconhecimento facial e afins, isso só pode ser uma vantagem para as pessoas se usado da maneira correta — desde que não seja abusado. Acho que agentes maliciosos vão conseguir de qualquer maneira, quem quer que sejam essas pessoas — podem ser os próprios governos.

O sr. está feliz com os recursos de IA que a Apple possui atualmente?

Provavelmente não. Eu não uso. Quero dizer, eu tento usar o mínimo de IA possível porque quero as coisas funcionando da maneira que espero que funcionem. Então, o que a Apple faz é minimamente suficiente para apenas parecer me ajudar quando funciona. Eu não quero usá-la ao máximo porque não gosto de ter uma máquina determinando ‘oh, é isso que você vai querer fazer agora, e eu vou falar por você’.

Desculpe, uma pessoa criativa não quer que alguém diga: ‘eu sei o que você vai dizer e o que você vai fazer‘. Talvez pessoas normais queiram, mas as pessoas mais criativas, atores, artistas, músicos e todos esses, definitivamente não querem ser previsíveis. É interno. É deles próprios. O cérebro é deles.

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A estreia da Apple Intelligence não foi tão bem recebida como se poderia esperar.

Com a Apple, você ainda pode usar o ChatGPT, se quiser. De vez em quando, eu vou usar, de vez em quando eu quase preciso dele para obter uma resposta melhor do que a minha.

Mas o sr. acredita que a Apple ainda pode inovar na área de IA?

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Claro. A Apple pode competir em qualquer área. Se você integrar alguma inteligência da Apple que me estude e saiba o que eu estive fazendo o tempo todo e tentar chegar com respostas melhores, eu sou a favor disso, desde que não seja compartilhado com o mundo. Eu não quero que o mundo pense que me conhece tão profundamente.

Além disso, eu sou muito cético sobre o que quer que a Apple me diga para fazer, ou sobre qualquer resposta oferecida por ela. Eu não vou simplesmente aceitar tudo. E ainda assim pode ser que eu aceite coisas que estão erradas.

O smartphone como o conhecemos e usamos hoje ainda existirá nos próximos anos ou essa interface com a tecnologia pode mudar radicalmente?

Eu acho que o telefone vai durar séculos, e baseio isso nos carros. Nos últimos 150 anos, os carros têm sido praticamente de um tamanho similar com quatro rodas, usados para os mesmos propósitos. As pessoas andam neles, ainda são parecidos com o que sempre foram, e estão no mercado há muitas décadas. Por que o dispositivo de telefone portátil deveria desaparecer? Ele já provou ser muito conveniente.

Eu gosto do relógio inteligente. Eu gosto de poder fazer perguntas ao relógio ou me comunicar com o relógio e não ter que tirar o telefone do bolso. Você ainda precisa de um telefone para tirar fotos hoje em dia. Isso é meio que a coisa principal, além de ter uma tela melhor que ajuda a assistir filmes ou ver fotos. Mas eu ainda prefiro o computador. Eu gosto de ir do relógio direto para o computador, e pular o telefone. Mas eu sou provavelmente incomum.

Quando começamos a Apple, Steve Jobs e eu queríamos tornar mais iguais as pessoas cegas e as que enxergam, e veja quanto sucesso tivemos. Onde quer que você vá, todas as pessoas estão andando, olhando o celular e esbarrando nas coisas. Nós tornamos os que enxergam e os cegos mais iguais. Desculpa, a piada foi ruim (risos).

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No mundo todo e aqui no Brasil também, as big techs estão na mira de agências regulatórias. A regulação é algo que ameaça o progresso ou algo que é necessário para que essas tecnologias prosperem?

Eu vejo isso muito mais como a segunda opção. As pessoas dizem: ‘oh, reguladores só querem administrar nossa empresa em vez de nós mesmos administrá-la’. Não. Geralmente, a regulação remonta às primeiras dez emendas da nossa própria constituição. Essas são regulações.

Elas dizem que o governo não deve aprovar certos tipos de leis que são ruins contra a liberdade de expressão. O governo não deve fazer outras coisas que inibam os direitos das pessoas à segurança em sua casa. Essas não são regulações. Elas estão apenas dizendo que você não fará certas coisas ruins. A regulação das empresas é a mesma coisa.

Você pode operar bem, mas você não fará certas coisas que descrevemos como ruins. Toda empresa quer fazer aquilo que é permitido, mesmo que seja ruim. Há uma necessidade de regulação. Eu acredito que é bom não abusar. Seria horrível se tivéssemos regulação que impedisse um conjunto de empresas para privilegiar outra que seja de alguém próximo do governo. Isso seria uma vergonha. Isso seria imoral e terrível. Isso seria antiético.

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Por que o sr. decidiu dedicar seu tempo e esforço para o setor aeroespacial com a Privateer? O que espera atingir com a empresa?

A Privateer foi fundada por um amigo meu no Havaí com muitos outros engenheiros espaciais. Eles tinham muitas instalações do tipo Nasa no Havaí. A ideia era como podemos ser os bons moços no espaço, não apenas tentar construir armas para o governo.

Nosso propósito é realmente pegar muitos dos dados que satélites têm, que são tão importantes em nossas vidas, e compartilhá-los com as pessoas comuns. Esse é um dos nossos propósitos. Também queremos identificar quais objetos estão lá fora que poderiam ser perigosos para pessoas tentando lançar outros satélites. Nisso, nós fomos muito bem-sucedidos.

Temos esse programa chamado Wayfinder que mostra imensas imagens do número de objetos que são conhecidos no espaço. Essas são coisas boas. Compartilhamos dados e tiramos fotos. Temos algumas das maiores mentes científicas que podem decifrar objetos nessas fotografias quando estão passando pelas nuvens e tudo mais. Queremos compartilhar isso, tornar isso disponível para as pessoas comuns, não apenas disponível para governos e empresas ricas. Estou muito feliz. Esperamos conseguir parceiros ao redor do mundo.

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Já se passaram quase 50 anos desde que você fundou a Apple com Steve Jobs. Como o sr. vê todo o seu legado, tudo o que ajudou a construir?

Bem, eu estou muito orgulhoso, mas eu vejo muito mais do que apenas a Apple. Eu vejo todos os produtos por aqui, a vida digital que temos, os tipos de aplicativos, a internet e tudo mais. [Tudo isso] tinha que começar de algum lugar. Eu estou muito feliz.

Quando comecei, eu só queria colocar computadores nas mãos das pessoas, porque uma pessoa com um computador pode fazer mais do que uma sem. Como isso se desenrolou com o tempo é incrível... Não dava para parar (essa evolução). A Lei de Moore tornaria isso possível. Eventualmente, nós íamos ter esses dispositivos inteligentes nos nossos bolsos com todos os nossos vídeos, fotos e tudo mais. Então, eu estou muito feliz por isso.

Eu fico um pouco triste às vezes pelo fato de que sinto que não possuo nada. Se eu quero ver algo, ouvir uma música, eu tenho que assinar serviços de streaming. Eu não quero desistir do que eu me acostumei quando eu tinha a posse das coisas.

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Se eu ouço uma música que eu gosto, eu realmente compro ela. Eu pago dinheiro no iTunes ou Apple Music, o que for necessário, eu importo de lá e possuo a música. Eu posso enviar para minha esposa, por exemplo. Há partes desse mundo digital que ficaram complicadas demais para explicar.

Toda hora, tem uma atualização e, nossa, eu costumava aprender como fazer as coisas. meus músculos aprendiam a fazer as coisas. Agora eu tenho que descobrir onde as coisas estão. Eu odeio isso no meu carro, eles fazem uma atualização e preciso descobrir de novo como eu abro o porta-luvas. Tenho que descobrir em qual menu eles colocaram o botão.

Eu espero que esse mundo todo de telas sensíveis ao toque retroceda e volte a ter mais coisas que meus músculos possam sentir, como posições, botões ou knobs, em carros. Mas até mesmo em telefones e computadores.

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