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Com Flávio ou Lula, o Brasil precisa mudar

O País que vai às urnas hoje está cansado da desfaçatez dos poderosos e da mediocridade de quem o governa. A hora é agora: o voto tem de servir para dizer que assim não dá mais

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Por Notas & Informações

É natural o desânimo de grande parte dos cidadãos com o segundo turno da eleição presidencial que se realiza hoje. O Brasil está cansado de governos medíocres, de uma elite política que enxerga no eleitor apenas um instrumento da manutenção de seu poder e de um Judiciário cuja reputação vem se deteriorando a olhos vistos. Não é de hoje que isso acontece, claro, mas Brasília se transformou de vez numa versão cabocla do Palácio de Versalhes, na qual cortesãos se refestelam em luxos obscenos e se engalfinham em conspirações palacianas, enquanto do lado de fora milhões de pessoas lutam para sobreviver e estão cada vez mais enojadas de tudo isso. Nesse cenário, infelizmente, muitos brasileiros irão às urnas sem qualquer convicção de que seu voto fará alguma diferença, enquanto outros tantos nem sequer se darão ao trabalho de sair de casa. Ainda assim, é preciso manter a fé na democracia, o único regime em que regularmente é possível mudar de governantes sem derramamento de sangue. E o Brasil precisa urgentemente de mudança.

O presidente que for eleito hoje só será merecedor do voto recebido se se comprometer a fazer tudo o que estiver a seu alcance para interromper a marcha da insensatez a que há anos assistimos, perplexos, no Brasil.

É preciso um esforço de toda a sociedade para mudar a rota do País e tirá-lo do rumo do abismo. Isso começa por considerar inaceitável que a riqueza capturada pelo Estado na forma de impostos seja pilhada por grupos organizados que fazem valer seus interesses em detrimento do conjunto da sociedade e do futuro do País. As novas lideranças políticas deveriam usar seu patrimônio eleitoral para desmontar esse sistema antidemocrático de perpetuação de privilégios e desigualdades.

De alto a baixo, todos devem colaborar. A elite empresarial, por exemplo, precisa aceitar o fim dos inúmeros subsídios e benefícios concedidos a título de estimular determinados setores da economia, mas que serviram apenas para proteger esses setores da concorrência e, assim, arruinar sua competitividade e sua produtividade. Na outra ponta, as políticas sociais de transferência de renda precisam ser mais bem desenhadas e focadas em quem realmente precisa.

O presidente eleito hoje, ademais, precisa ter coragem de enfrentar os lobbies e reduzir drasticamente as exceções criadas na reforma tributária para que a alíquota do imposto possa ser reduzida. Precisa também lutar para que o Brasil abra sua economia, fomente o desenvolvimento por meio de investimentos em infraestrutura e em educação e saúde de qualidade e melhore o ambiente de negócios com mais segurança jurídica e respeito a contratos. Como se vê, há muito trabalho a fazer.

Ao mesmo tempo, o presidente eleito hoje precisa tratar como prioritária a reforma institucional do País, de modo a devolver o poder aos cidadãos, como está estabelecido no parágrafo único do artigo 1.º da Constituição. É intolerável, por exemplo, que o Legislativo disponha de parte do Orçamento sem qualquer controle dos eleitores e que aprove leis sem o devido debate público, graças a acordos políticos feitos à sorrelfa.

Do mesmo modo, é intolerável que os integrantes do Judiciário e do Ministério Público concedam a si mesmos privilégios que a Constituição não prevê e que ignorem fronteiras éticas comezinhas ao se relacionarem de maneira pouco republicana com empresários com causas nos tribunais. Se participar de eventos extravagantes bancados por esses empresários já é suficientemente ofensivo, piora muito quando os magistrados dizem que isso não tem nada de mais. Caberá ao presidente eleito hoje a tarefa de conduzir o debate democrático na direção da reorganização do Judiciário e da reforma da administração pública, com o objetivo de, a um só tempo, devolver a credibilidade à Justiça e acabar com vantagens indevidas que escandalizam a sociedade.

Dir-se-á que se trata de utopia, mas essa é precisamente a matéria-prima da vida política. Este jornal mantém sua crença inabalável na democracia e na capacidade do Brasil de construir consensos por meio do diálogo político franco e honesto. E toda eleição, por mais desanimador que seja o cenário, renova essa fé.