Direito Internacional ou direito à vida? Há momentos históricos em que o desaparecimento de um homem passa a ser um acontecimento moral, campo de reencontro e estruturação. A morte de Ali Khamenei, líder supremo da República Islâmica do Irã, pertence a essa categoria. Não porque devemos celebrá-la, mas porque ela desnuda uma fissura de valores no nosso tempo. Seu desaparecimento significaria, para milhões de iranianos, a possibilidade sonhada de romper com uma teocracia que há mais de quatro décadas governa pelo medo, pela censura e pelo cadafalso.
Para essa população, sobretudo mulheres, dissidentes, estudantes, exilados e famílias dilaceradas por execuções públicas, o fim de um regime reacionário anunciaria finalmente a reconexão do país com sua própria história milenar – com a Pérsia que foi berço de poesia, ciência e arte, muito antes de se tornar laboratório político do islamismo moderno.
Neste cenário, a posição diplomática brasileira não é irrelevante. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva parece reagir com desconforto a essa possibilidade. Não necessariamente por simpatia explícita aos aiatolás – se bem que já testemunhamos vários desses gestos –, mas por fidelidade abstrata a um conjunto de princípios que, paradoxalmente, passam a valer mais do que milhões de seres humanos submetidos à tirania.
O fenômeno não é novo. Em sua peça Os Justos, Albert Camus já advertia contra a tentação de sacrificar homens reais no compromisso com o “absoluto”. René Girard mostrou como sociedades elegem bodes expiatórios para preservar narrativas e equilíbrios.
Na teocracia iraniana, internamente, o compromisso é com Alá. E, em certos jogos diplomáticos globais, a sofrida população do Irã torna-se bode expiatório: o importante é salvar a coerência ideológica. Aqui, o “absoluto” se chama “Direito Internacional”, “equilíbrio geopolítico”, “estabilidade regional”. Conceitos nobres. Mas que soam obscenos quando invocados para exigir paciência histórica aos que são enforcados em praças públicas.
Sim, há algo de teatral nesse descompasso. Lembra, de fato, o teatro do absurdo: personagens discursam sobre princípios, enquanto ignoram o incêndio na plateia. Sim, trata-se de uma patologia antiga: preferir a pureza da ideia à imprevisibilidade da liberdade genuína. A mesma lógica que levou intelectuais do século 20 a relativizarem os expurgos soviéticos em nome do “processo histórico”. A mesma tentação denunciada por George Orwell ao observar como certas mentes eram capazes de justificar qualquer brutalidade, desde que alinhada ao enredo correto.
O Irã contemporâneo não é apenas um país retrógrado que massacra a sua população, uma ditadura nuclear prestes a finalizar a bomba, uma nação pária que arma grupos terroristas, promove a jihad, o islamofascismo, desestabiliza países, ajuda a Rússia a destruir a Ucrânia e o Ocidente. É, ademais, a primeira experiência bem-sucedida de um projeto islamista moderno. Seu modelo inspirou milícias, redes transnacionais e formas híbridas de guerra cultural e religiosa que ultrapassam fronteiras. É um laboratório ideológico cujas reverberações chegam a universidades europeias e americanas, onde jovens militantes defendem, com fervor acadêmico, aquilo que jamais suportariam viver.
País riquíssimo em petróleo, o Irã empobreceu socialmente, enquanto a elite clerical consolidava impérios econômicos opacos – inclusive investimentos imobiliários atribuídos a familiares do líder supremo no exterior. A austeridade vale para o povo; a prosperidade, para os guardiões da fé.
O drama iraniano leva a fazer uma pergunta incômoda ao Brasil, à Venezuela, China, Rússia, Espanha, Turquia, Noruega, Bélgica e África do Sul – países que, em diferentes graus, condenaram explicitamente os ataques ao Irã: suas posições diplomáticas defendem direitos humanos como princípios abstratos ou vidas concretas? Quando exigem “processos” e “legalidades” em relação a povos esmagados por teocracias, protegem a justiça ou a própria coerência ideológica?
Não se trata, aqui, de absolver líderes estrangeiros que, por interesses próprios, venham a enfraquecer o regime iraniano. A política internacional raramente opera por altruísmo. Mas há uma diferença ética fundamental entre analisar as motivações de quem golpeia o tirano e desprezar a alegria – ou o alívio – daqueles que deixam de viver sob ele.
Há quem tema o vazio que sucede a queda de um regime. Com razão. Transições são instáveis. Mas exigir estabilidade perpétua sob a tirania é transformar o medo em cúmplice do opressor.
A história da arte oferece uma metáfora luminosa. Em Guernica, de Pablo Picasso, não há tratados jurídicos. Há corpos dilacerados. A pintura não discute legitimidades formais; ela impõe a realidade da violência. Há momentos em que o grito precede o conceito.
A pergunta decisiva não é geopolítica. É moral: quando a ideia entra em conflito com a vida, o que escolhemos salvar? Os iranianos que enfrentaram balas nas ruas já deram sua resposta. Resta saber quem continuará preferindo a harmonia de seus próprios discursos à desordem necessária da liberdade.
