Pecado presidencial

Não é de esperar que as atitudes diplomáticas do presidente sejam do agrado de todos. Mas ele não pode desabonar e desqualificar seu ofício

Por Nilton Bonder
Atualização:

Muitos terão escrito sobre a imperdoável comparação entre Israel e o nazismo feita pelo presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. Comparar um Estado sitiado desde sua existência, que amargou ataques terroristas por toda a sua história, rodeado por países e grupos armados que declaram abertamente que têm como objetivo a destruição do país, incluindo uma milícia teleguiada pelo Irã, no norte, que lança constantemente mísseis contra a sua população civil, é no mínimo um disparate. Liberar Hamas e boa parte da liderança palestina de sua trajetória desastrosa apontando apenas Israel como algoz deste imbróglio é apenas míope e tendencioso.

O mais grave é que o presidente incorre num ato de preconceito que, tenho certeza, passa despercebido por ele e por muitos de seu partido, incluindo os teólogos de sua facção. No entanto, a discriminação e a intolerância de um presidente da República são pecados inescusáveis.

Alguém deve chegar ao presidente e dizer que não se usam superlativos para grupos que são discriminados sem ser conivente com a xenofobia, o medo e a rejeição do outro. Não se evocam sobre negros, indígenas, diversidades de gênero e grupos minoritários metáforas que sugestionam e insuflam o preconceito. Só ditadores e populistas usam esse tipo de recurso. O que parece invisível ao radar do presidente é que o ódio contra Israel é hoje usado para perpetuar o mais antigo preconceito do Ocidente, que se abate sobre uma das menores minorias de todo o Ocidente: os judeus. Atualmente, é preocupação entre as autoridades de países democráticos o aumento exponencial da vulnerabilidade dos judeus diante de campanhas de propaganda irresponsáveis que recorrem aos superlativos seletivos e que alimentam subliminarmente os preconceitos. Nosso presidente se comporta de maneira contrária: diante de um público que pretensamente iria gostar de suas alusões e ilações, vende um grupo de brasileiros que não são israelenses, mas uma minoria, uma das menores minorias do País, que são os judeus brasileiros. Autoridades de nenhum país árabe se atreveram a fazer declarações similares à sua.

O Holocausto foi a forma de nomear um genocídio motivado unicamente por intolerância e racismo e não se aplica a críticas legítimas que poderia ter o presidente à condução deste conflito. Não é de esperar que as atitudes diplomáticas do presidente sejam do agrado de todos. Porém ele não pode desabonar e desqualificar seu ofício. Os judeus são a menor minoria religiosa do país que o presidente governa. São, provavelmente, a menor minoria dos grupos que têm histórico de perseguições presentes no País. E a exorbitância e o exagero do presidente produzem consequências.

Este é o calcanhar de Aquiles das democracias: as minorias votam com irrelevância numérica! É da grandeza e da civilidade de um país que se zele por suas verdadeiras minorias. Os interesses eleitorais não fazem isso.

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RABINO E ESCRITOR

Opinião por Nilton Bonder

Rabino e escritor