Imagine o seguinte cenário: numa escola do ensino fundamental existe uma sala de aula com dez alunos. Em outra escola, também do ensino fundamental, há outra turma também com dez estudantes. Na primeira turma, a professora de português gostaria de propor uma atividade. Ela distribui exemplares de um jornal, pede para cada um ler a mesma matéria e, na sequência, mencionar a informação principal da reportagem. O resultado? Apenas dois conseguem. Na segunda escola, o professor de matemática propõe um exercício no qual os estudantes devem determinar a porcentagem envolvendo números inteiros. Novamente apenas dois entre os dez jovens são capazes de resolver o problema.
Podem parecer situações difíceis de acontecer, mas não são. De acordo com dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), de 2023, no Brasil, 81% dos estudantes do 9.º ano do ensino fundamental não conseguem localizar a informação principal em reportagens. Além disso, 84% não são capazes de determinar a porcentagem envolvendo números inteiros. Isso em uma etapa decisiva para os futuros profissionais.
No Brasil, muitos adolescentes chegam à porta de entrada para o ensino médio carregando problemas educacionais que precisarão de um olhar atento e dedicado da figura docente para corrigir a rota. Estamos formando cidadãos escolarizados sem aprendizado.
Países que lideram os rankings globais de educação, como Singapura, Estônia e Finlândia, investem no modelo educacional de forma estratégica e para além da sala de aula. Passeios em museus, centros culturais, espaços públicos e o envolvimento familiar fazem parte da rotina dos estudantes e contribuem para formar jovens mais engajados, críticos e preparados para a vida. Singapura, por exemplo, lidera há alguns anos as avaliações do Pisa (ciências, matemática e leitura para alunos de 15 anos). Já a Estônia tem o melhor desempenho dentro da Europa, e o terceiro geral (atrás de Singapura e Japão).
Porém, utilizar países que estão no topo dos rankings globais de educação como referência exige cautela. É claro que temos muito a aprender com experiências internacionais, mas a realidade brasileira é profundamente distinta e copiar modelos estrangeiros sem considerar o contexto brasileiro é um contrassenso. Enquanto em países ricos os estudantes contam com uma rede de apoio formada por múltiplos equipamentos de aprendizagem, aqui, a escola muitas vezes é o único espaço capaz de cumprir esse papel.
Assumindo que vivemos numa realidade completamente diferente, em que desigualdades sociais e econômicas saltam aos olhos e respingam na educação, a solução para o Brasil está justamente na contramão de reduzir a carga horária. A escola precisa assumir um papel ainda mais central, sobretudo nos anos finais, com um projeto de educação integral, e os jovens tendo uma carga horária maior nas escolas. Os adolescentes precisam de mais tempo, estrutura e intencionalidade para desenvolver habilidades cognitivas, emocionais e sociais.
Na maioria dos casos, a escola é o único equipamento público capaz de garantir esse processo. No Brasil, ela assume o papel de suprir necessidades básicas, como fornecer três refeições por dia, experiências culturais e ensinar noções de higiene, tornando o tempo integral fundamental para o desenvolvimento do aluno.
Pensar em escola em tempo integral significa também construir um ambiente escolar que seja mais do que espaço de aprendizagem, mas um lugar que acolhe, escuta, engaja e forma cidadãos protagonistas da própria história.
Na Coreia do Sul, outro país com bom desempenho no Pisa, as escolas públicas e privadas são de tempo integral, numa rotina de estudos que dura o dia inteiro.
Mesmo diante dos desafios econômicos, Cuba aposta em um conceito central de formação integral do indivíduo, preparando-o em todos os aspectos da vida. Tanto que o ensino integral é complementado por atividades extracurriculares envolvendo a prática de esportes.
Nossa ideia é refletir sobre a educação propondo modelos de correção de rota. Um deles é a Escola para as Adolescências, incluindo tempo integral. Em 2024, a Secretaria de Educação do Ceará (Seduc-CE) deu passos importantes para consolidar a política de escola em tempo integral nos anos finais. Com o apoio da Motriz, a política foi disseminada e qualificada nos 184 municípios do Estado, por meio do regime de colaboração.
Além do trabalho no Ceará, desde 2022, temos apoiado as redes de Recife e Rio de Janeiro na qualificação das políticas de anos finais e na expansão das vagas em tempo integral. Durante esse período, houve expansão das vagas em tempo integral, saindo de uma média de 30% para 50%.
Estamos num momento de transição no modelo de escola. Avançar significa ampliar jornada com propósito, investir na formação de professores, escutar os adolescentes e fortalecer a gestão. Não se trata apenas de mais tempo, mas de um novo tempo com mais intencionalidade.
Se não enfrentarmos essa urgência, seguiremos com salas de aula em que apenas dois em cada dez jovens conseguem aprender o mínimo. O Brasil não pode mais aceitar isso como destino.
