Imagem ex-librisOpinião do Estadão

O conservadorismo do medo

Apoio à pena de morte e estabilidade nas questões de costumes, como mostra Ipsos-Ipec, dizem menos sobre uma sociedade moralista e mais sobre cidadãos assustados com a violência

Exclusivo para assinantes
Por Notas & Informações

A nova edição do Índice de Conservadorismo de Costumes da Ipsos-Ipec, publicada pelo Estadão há poucos dias, mostra que os brasileiros estão mais conservadores do que há um ano. Em uma escala que vai de 0 (totalmente progressista) a 1 (totalmente conservador), o indicador passou de 0,652 em 2025 para 0,680 em 2026, aproximando-se dos patamares registrados em 2016 e 2018, anos conturbados no País.

Uma conclusão natural, mas apressada, seria a de que a sociedade deu uma guinada moral. Não se trata disso. Na verdade, a leitura atenta da pesquisa sugere que se está diante de um conservadorismo derivado do medo da violência.

“Conservador” é uma designação que abarca muitas expressões da individualidade, razão pela qual, para uma análise honesta dos dados, é preciso separar o que diz respeito a costumes, religião, punitivismo, valores familiares e afiliações político-ideológicas. O índice da Ipsos-Ipec se circunscreve a apenas cinco dessas expressões: legalização do aborto, pena de morte, redução da maioridade penal, prisão perpétua para crimes hediondos e casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Nesse sentido, é digno de nota que o avanço do conservadorismo de um ano para o outro não se deu de maneira uniforme nas temáticas avaliadas. O apoio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo, permanece estável em 41% desde 2021. A rejeição à legalização do aborto continua elevadíssima, com 74% dos entrevistados se dizendo contrários, como nos anos anteriores. Ou seja, nas questões intimamente relacionadas aos costumes, pouco mudou no Brasil.

O que mudou foi o humor dos cidadãos diante da constante sensação de insegurança que marca a vida nas grandes cidades do País. O apoio à pena de morte saltou nove pontos porcentuais, de 43% para 52%, e alcançou o maior nível da série histórica. O apoio à prisão perpétua foi de 72% para 78%, um crescimento igualmente significativo. A redução da maioridade penal passou a ser defendida por 71% dos entrevistados, ante os 65% que se disseram favoráveis à medida no ano passado. São resultados compatíveis com outro achado do mesmo instituto: 52% da população considera o crime e a violência como sua principal fonte de preocupação.

O avanço do Índice de Conservadorismo de Costumes, portanto, é a expressão de uma sociedade insegura, inclinada a exigir punições cada vez mais severas para crimes que considera graves em razão da percepção de que o Estado é incapaz de lhe prover segurança.

Pena de morte e prisão perpétua não podem ser adotadas no Brasil. A Constituição as veda expressamente, e a vedação está inscrita entre os direitos e garantias fundamentais dos cidadãos – ou seja, trata-se de cláusula pétrea. Não obstante, o amplo apoio popular a essas medidas não é menos legítimo pela flagrante inconstitucionalidade. Antes, é um grito por proteção, a manifestação cívica de um medo alimentado pela inépcia do próprio Estado, que, a despeito de ser o detentor do monopólio da violência, dá mostras cotidianas de ser tíbio na prevenção, investigação e punição de crimes que afligem milhões de brasileiros todo santo dia. Daí o apelo das propostas de endurecimento penal, malgrado não oferecerem respostas eficazes às causas da violência.

O Brasil, lamentavelmente, carece de estadistas que não iludam a sociedade com a satisfação emocional proporcionada pela perspectiva de uma punição capital, como se fosse a panaceia para tornar o País um lugar mais seguro. Temos aqui um dos sistemas de persecução criminal mais falhos do mundo, em que a maioria dos homicídios não é esclarecida por falta de provas de autoria. O que dissuade o criminoso não é a severidade da pena, mas a probabilidade de ser apanhado, julgado e condenado, que é baixíssima no Brasil.

Ao fim e ao cabo, a pesquisa diz menos sobre o que os brasileiros pensam sobre família, religião e moralidade e mais sobre o sentimento que os assalta ao pôr os pés fora de casa. Sem a garantia do mais elementar dos direitos, o direito à vida, não surpreende que os cidadãos se disponham a apoiar qualquer um ou qualquer coisa que lhes transmita uma ideia de paz.