É preciso ter grandeza na vitória. A eleição presidencial acabou, e o resultado das urnas, legítimo, deve ser respeitado por todos, a começar pelo candidato derrotado. Não obstante, a legitimidade da vitória não dispensa o vencedor das obrigações que ela impõe. E a primeira delas é a magnanimidade. Quem vence uma eleição tão acirrada tem o dever republicano de baixar a temperatura do País e mostrar que a campanha, com todos os seus excessos, ficou para trás. Em seu discurso da vitória, na noite de domingo, o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desperdiçou essa chance de ouro.
O destinatário do discurso era o povo brasileiro, não Flávio Bolsonaro (PL), tampouco a imprensa profissional. Deveria ser o momento em que Lula se despisse das vestes de candidato e se dirigisse à Nação como chefe de Estado e de governo. Mas o petista não se emenda, malgrado a larga experiência. A boa tradição democrática manda que o eleito estenda a mão ao adversário que ficou pelo caminho e estimule a coesão nacional. Lula, porém, optou pelo acerto de contas. Atacou Flávio, afirmando que ele é “o representante genuíno do milicianismo (sic)” e que não teria dentro de si “uma célula de humanismo”.
Não se trata aqui de defender o senador, a quem já criticamos duramente por sua conduta pessoal, sua indigência parlamentar e seu passivo de suspeitas criminais. Trata-se de reafirmar que a campanha acabou com a proclamação do resultado das urnas e que o palanque já não é o lugar de fala de um presidente da República digno e altivo.
Sobrou também para a imprensa profissional, que há décadas tem sido enxovalhada pelos petistas – e por Lula, em particular – por não dobrar os joelhos diante do demiurgo. Lula anunciou que passará a falar diretamente com a população pelo celular, “muitas vezes por dia”, e que não permitirá ser interpretado por “jornalista com má-fé”. A mediação jornalística, que demagogos como Lula veem como um estorvo, é um dos instrumentos por meio dos quais as sociedades livres fiscalizam o exercício do poder. Goste ou não o petista, esse trabalho, fundamental para a sustentação do regime democrático do qual ele se arvora em salvador, seguirá sendo feito.
Ademais, estadistas não governam com a cara enfurnada em um celular. Olham para as ruas e capturam as aflições e as esperanças do povo que vive a vida real. Governam não “com as redes sociais”, mas com as instituições republicanas, com o Congresso, por meio de interlocução franca e propositiva. E, sim, sabem lidar com as críticas.
O mais desconcertante é que o próprio Lula, no mesmíssimo discurso, afirmou que, vencida a eleição, não tem mais adversários e que governará para 215 milhões de brasileiros. A declaração, correta, foi desmentida pelo restante da fala, encerrada com uma saudação aos “soldados” do “exército da democracia”, em alusão ao numeroso grupo arregimentado pelo deputado André Janones (Rede-MG). Ora, falar em “exército” é falar em combate a um inimigo, e o inimigo, nessa retórica beligerante, é a larga porção do País que não votou em Lula. É um mau começo.
Os números que saíram das urnas deveriam inspirar outro tom. A vitória de Lula não foi acachapante. E, ainda que tivesse sido, em nenhuma democracia as minorias são esmagadas pela maioria. Quase metade dos eleitores escolheu outro caminho para o País. Esses brasileiros não deixaram de ser cidadãos dignos de atenção porque o candidato de sua preferência perdeu a eleição.
Os desafios que o Brasil tem pela frente, muitos deles agravados pelo próprio Lula no curso do atual mandato, não são poucos nem triviais. As contas públicas exigem um duro ajuste que o governo vem adiando às raias da negação. O endividamento público e privado não para de crescer. A falência da segurança pública é motivo de angústia em todo o País. O Brasil precisa de reformas urgentes que demandam negociação com o Congresso. Nada disso se resolve sem a construção de consensos mínimos em torno do bem comum. E é obrigação do presidente, como principal autoridade executiva, estimular a união nacional.
