Gerando resumo
Se Hemingway tinha seu daiquiri, Mário de Andrade tem seu Macunaíma. Mas, ao contrário do clássico caribenho que embalava as madrugadas do escritor americano, o coquetel paulistano nasce com sotaque brasileiro, alma irreverente e um toque de antropofagia líquida.

Criado no bar Boca de Ouro, de Arnaldo Hirai e Renato Martins, o drinque nasceu despretensiosamente — o bar, aliás, abriu as portas com foco em cerveja. Mas foi quando Hirai resolveu brincar com os ingredientes que tinha à mão, que surgiu a combinação certeira: cachaça, Fernet, xarope de açúcar e limão. Tudo batido com força para formar uma espuminha no topo (sem clara de ovo, que fique claro!) e servido no copo baixinho típico, sem gelo.
Assim como o personagem de Mário de Andrade, que nasceu para ser “o anti-herói” brasileiro, o sucesso do Macunaíma está justamente nas suas origens inesperadas — e é justamente isso que o torna tão único. Criado no auge da coquetelaria sofisticada paulistana, o Macunaíma surgiu no meio do caminho, em um bar despretensioso e das mãos de um criador que nem bartender era. Um clássico improvável, simples, direto e capaz de traduzir a nossa diversidade cultural — exatamente como o Brasil que carrega no nome.

Logo, o drinque caiu nas graças dos bartenders, não só de São Paulo. Hoje, o Macunaíma está nas cartas de bares pelo Brasil inteiro. Apesar de jovem, nascido em 2014, já é tratado por muitos como um “clássico moderno da coquetelaria nacional”, como definiu com precisão Gilberto Amendola, jornalista que acompanha de perto a cena etílica da cidade. “O Macunaíma tem uma sacada incrível — dentro da sua simplicidade, um sour com toque de Fernet, Hirai conseguiu capturar aquilo que todo bartender sonha: criar um clássico por meio da simplicidade e se tornar emblemático.”
Por essas e outras, foi eleito o melhor drinque na trilha Honra ao Mérito do Prêmio Paladar 2025 — uma homenagem que celebra os sabores, experiências e profissionais que moldaram (e continuam moldando) a cena gastronômica da cidade.
Aviso importante: ao se acomodar em um dos bancos altos do longo balcão — de onde dá pra ver Hirai em ação todas noites, preparando o Macunaíma e outros coquetéis da carta do Boca de Ouro — não cometa o erro de ignorar o bolovo da casa. Ele é o par perfeito para acompanhar sua jornada etílica nesse discreto bar de Pinheiros.
Boca de Ouro
R. Cônego Eugênio Leite, 1121, Pinheiros
Funcionamento: 18h às 0h. Fecha domingo e segunda-feira.
Instagram: @barbocadeouro





