“Gonet e Vorcaro trocaram ideias, se falavam e se gostavam, eram amigos, era o clube do uísque”
Carlos Andreazza fala sobre as relações entre Paulo Gonet da PGR e o banqueiro Daniel Vorcaro. Crédito: TV Estadão
A relação entre o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e Daniel Vorcaro, que inclui mensagens em que Gonet teria dito estar com “saudade” do banqueiro e o chamado de “máquina”, ganhou um novo contorno com uma foto em que os dois aparecem sentados frente a frente à mesma mesa, com Gonet empunhando um charuto (veja foto abaixo).
As mensagens extraídas do celular de Vorcaro e reveladas pelo Estadão indicam que o banqueiro pediu reiteradamente ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que interviesse junto ao diretor-geral da Polícia Federal, delegado Andrei Rodrigues, e ao próprio Gonet para frear as investigações sobre negócios fraudulentos do Master.
O advogado Ciro Soares, apontado pela Polícia Federal como a ponte entre o procurador-geral da República e o dono do Master encaminhou ao banqueiro uma foto em que os três aparecem juntos durante uma degustação de charutos em Londres.

O registro foi enviado em 19 de junho de 2025. “PG mandou agora”, escreveu Soares em mensagem ao banqueiro. A foto foi publicada pelo jornal O Globo e sua autenticidade foi confirmada pelo Estadão.
A assessoria de Gonet confirmou o encontro, mas lembrou que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, atestou durante sessão da Corte que não encontrou ilícito envolvendo o procurador-geral (entenda mais abaixo). Já a assessoria de Ciro Soares informou que a imagem é de um evento de 2024 “quando não havia nenhuma investigação sobre o empresário Daniel Vorcaro. Não há qualquer irregularidade na foto”, diz o comunicado.
Paulo Gonet admitiu ter se encontrado com Daniel Vorcaro em Londres, em abril de 2024, mas afirma que não mantém relações de amizade com o banqueiro. Em manifestação de 37 páginas que encaminhou ao Conselho Superior do Ministério Público Federal, Gonet foi enfático. “Em termos bastante diretos e simples posso afirmar que não tenho com o sr. Daniel Vorcaro relação de amizade alguma, nem muito menos tenho interesse pessoal nos processos em que ele conste como parte ou investigado.”
O Conselho marcou para o próximo dia 25 uma sessão para apreciar a suspeita de ligação de Gonet com Vorcaro a partir de um documento produzido pela Polícia Federal e levado ao ministro André Mendonça, do STF, nos autos da Operação Compliance Zero.
‘Ele quer falar com você’
Em 15 de março de 2025, Ciro Soares enviou ao banqueiro uma foto ao lado do procurador-geral da República. Os dois apareciam de camisa branca e óculos escuros, em um ambiente ao ar livre, com coqueiros ao fundo. “Liga aqui. Ele quer falar com você”, escreveu.

Depois de quatro tentativas frustradas, Vorcaro e Gonet conseguiram conversar por quase quatro minutos. O contato entre eles continuou nos dias seguintes. Em 28 de março, Gonet disse estar “com saudade” de Vorcaro e afirmou que torcia por ele.
“Que bom! Estou na torcida por vocês”, escreveu às 21h22. “Já estou com saudade de você! Estou embarcado para Roma”, acrescentou. Em seguida, pediu ao intermediário que repassasse as mensagens a Vorcaro: “Manda essa mensagem para ele”.

O banqueiro respondeu com uma figura de coração e retribuiu o carinho. “Agradece muito o carinho. Saudade dele. Vamos marcar estar juntos”.
Soares então confirmou que Gonet havia aceitado o convite e encaminhou ao banqueiro uma nova mensagem do procurador-geral. “Oba!!!! Tomara que tenha charuto e macalan”, escreveu Gonet.
“Agora vai ter que ter plantação de charuto e barril de macalan”, respondeu Vorcaro.

Diante da receptividade, o chefe do Ministério Público Federal incluiu o filho, Pedro Gonet, nos planos. “O Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres”, disse Soares a Vorcaro em 29 de março de 2025.
“Óbvio né”, respondeu o banqueiro. Gonet agradeceu o gesto com um elogio: “Você é uma máquina kkkkkkk”.
O recuo de Mendonça
As mensagens que mencionam Paulo Gonet estiveram no centro de um dos momentos mais tensos da sessão plenária do STF realizada na última terça-feira, 15.
Nos últimos 30 minutos do julgamento, em que os ministros analisavam a abertura de uma investigação contra Alexandre de Moraes, o relator da investigação, André Mendonça explicava por que havia determinado a apuração das conversas entre Moraes e Vorcaro quando foi interrompido por Gilmar Mendes, que já vinha hostilizando Mendonça ao longo da sessão.
Em determinado momento do voto, Mendonça chegou a ponderar se havia agido corretamente ao determinar a apuração de mensagens de Vorcaro que citavam “Andrei” e “Paulo” — referências que seriam ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.
“Doutor Paulo, eu tento ser justo. Eu nem gostaria de estar aqui. Estamos aqui por dever de ofício. Assim, a gente pode até avaliar se não deveria ter feito isso, talvez hoje conhecendo os fatos”, disse Mendonça.
Foi nesse ponto que Gilmar o interrompeu e passou a atacar a condução do relator.

“É impressionante que uma pessoa da estatura de Paulo Gonet sofra esse tipo de ilação. Isto sim é leviandade. Um sujeito investido de um sentimento policialesco com seus delegados”, disse Gilmar.
Mendonça tentou recuperar a palavra, sem sucesso.
“É impressionante. É impressionante a desfaçatez desse sujeito”, prosseguiu Gilmar.
“Desfaçatez de Vossa Excelência! Me respeite! O sr. está achando que isso é brincadeira?”, reagiu Mendonça, aos gritos no plenário.
“Pode chorar, pode chorar”, retrucou Gilmar.
“Aqui não tem choro, não”, respondeu Mendonça.
Gilmar Mendes defende Gonet
Dois dias depois do embate no plenário, Gilmar Mendes levou às redes o embate com André Mendonça. Em postagem no X, defendeu o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e afirmou que ele “teve a honra injustamente manchada pelo levantamento do sigilo de conversas que nada de ilícito retratavam”.
“Em plenário, o próprio relator reconheceu, em alto e bom som, a lisura da conduta de Gonet e admitiu que nada havia contra ele. Nada. Então por que expor?”, questionou o decano, afirmando que, ao publicar vídeo nas redes, agradecendo apoio popular, Mendonça teria escancarado “a intenção de lucrar politicamente com o episódio”.
Em nota, Mendonça rebateu Gilmar. “O relator jamais ameaçou quem quer que seja de execração pública, nem se valeu de linguajar impróprio para que alguém se retirasse de julgamento. Tampouco transformou o plenário num palanque ou picadeiro, vociferando aos berros, para tentar mascarar com truculência ilações vazias e que carecem de qualquer fundamento jurídico minimamente aceitável”, escreveu Mendonça.
O ministro aproveitou para defender a aprovação de um código de ética para a Corte, um projeto capitaneado pelo presidente, Edson Fachin. “Episódios como esse apenas demonstram a urgência na aprovação de um código de ética no âmbito do Supremo Tribunal Federal. Um código que discipline de modo próprio a postura esperada do magistrado ao se pronunciar em qualquer ambiente, dentro e fora da Corte, inclusive no trato com os pares”, disse.
Pedido de suspeição
O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) pediu que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, seja substituído por outro integrante do Ministério Público na ação que trata das mensagens encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro.
Gonet não se declarou suspeito e segue atuando no caso. Presente no julgamento do STF na última terça-feira, o procurador-geral negou ter mantido uma relação de proximidade com Vorcaro e afirmou que seus contatos com o banqueiro foram pontuais.

“Não tive relacionamento de proximidade com o senhor Vorcaro. O único encontro que eu tive com o senhor Vorcaro se deu com várias autoridades em abril de 2024. A única ligação intermediada por advogado foi brevíssima e banal. A atuação do Ministério Público Federal em primeiro grau e no Supremo Tribunal Federal (STF) sempre foi pelo total esclarecimento dos fatos e pelo sucesso da persecução penal”, disse Gonet.
Interferência em eleição
O relatório da Polícia Federal sobre as conversas do banqueiro Daniel Vorcaro com Gonet revela a atuação do procurador-geral da República para interferir na eleição para o comando de um órgão de representação dos membros do MPF.
A movimentação buscava beneficiar Jarbas Soares Júnior, candidato à presidência do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais do Ministério Público dos Estados e da União (CNPG). Jarbas é irmão do advogado Ciro Soares, próximo a Vorcaro e apontado como intermediário das conversas entre o dono do Banco Master e Gonet.
Mensagens trocadas entre Ciro e o banqueiro indicam que, em meados de abril de 2024, Gonet atuou para convencer Georges Seigneur, então candidato ao comando do CNPG, a abandonar a disputa e apoiar Jarbas.

Foi o que ocorreu. Em 14 de abril, Ciro entrou em contato com Vorcaro e elogiou a atuação de Gonet. “Amizade é tudo viu irmão. Gonet é firme. Leia isso aqui!!! Fique só cm vc”, escreveu em uma sequência de quatro mensagens. Em seguida, encaminhou um texto de Jarbas no qual ele agradecia a Seigneur pela desistência e a Gonet pelo apoio.
“O cara largou?”, perguntou Vorcaro. Após receber a confirmação de que Seigneur havia retirado a candidatura, o banqueiro comemorou: “Top demais”.
Ciro então enviou um áudio em que afirmou ter pedido diretamente a Gonet que intercedesse em favor de seu irmão.
“Cara, eu pedi o Gonet ontem, ele me ligou falar um assunto, aí eu falei, Gonet, pede o cara para tirar a candidatura, pede o cara que o cara vai tomar uma porrada arretada. Aí o Gonet me ligou ontem à noite e falou: Ciro, acabei de ligar para ele, ele vai desistir.”







