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Traduzindo a política

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Falsa candidatura de Pablo Marçal foi feita para beneficiar Flávio, embora possa até ajudar Lula

Ex-coach entrou na disputa para atrasar e tirar espaço de outros nomes à direita enquanto não é derrubado pelo TSE; se esticar a corda, porém, pode acabar ajudando o presidente

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Foto do autor Ricardo Corrêa
Atualização:

A falsa candidatura de Pablo Marçal foi criada de modo a beneficiar Flávio Bolsonaro, limitando o espaço e o crescimento de outros nomes da direita enquanto não é derrubada pela Justiça Eleitoral. Contudo, a depender de quanto tempo demorar para que seja definitivamente enterrada - o que é fato praticamente certo - pode acabar até ajudando Lula ao reduzir o número de votos válidos depositados na urna.

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A candidatura é falsa pois todos com conhecimento da legislação eleitoral sabem, inclusive o pretenso candidato, que é remotíssima a hipótese de que não seja derrubada. Seus requisitos são frágeis. Principalmente pois a inelegibilidade até 2032 é cristalina e não há razão para que seja revista. Assim, Marçal teve direito a registrar seu nome, mas não pode de fato concorrer, a não ser que seja dado um cavalo de pau na jurisprudência do TSE.

Mesmo a liminar que garantiu uma filiação retroativa ao PRTB - e que não mexeu com a inelegibilidade - é frágil. Marçal conseguiu o direito de registrar sua candidatura ao ter reconhecida liminarmente uma filiação retroativa à data anterior a 4 de abril. O argumento é que ele teria já assinado a ficha de filiação ao partido antes da data-limite para filiação com vistas a concorrer.

Essa tese é difícil ser provada pelo candidato. Em 12 de abril, o Estadão publicou uma entrevista em que Marçal destaca as vantagens de estar filiado ao União Brasil, um partido muito maior, segundo ele, e com mais estrutura para que pudesse concorrer. A entrevista (veja abaixo) foi gravada pelo repórter Guilherme Caetano no dia 8 de abril, quatro dias portanto após o fim do prazo para estar filiado no partido ao qual vai concorrer. Marçal terá dificuldades de reforçar que estava filiado ao PRTB se publicamente ressaltava a filiação ao União Brasil já depois do prazo. Essa entrevista e outras, dadas a diversos veículos de comunicação - assim como vídeos de apoiadores em que Marçal aparece vinculando-se ao União Brasil - foram usadas pelo MP Eleitoral no pedido para que TSE barre a candidatura de Marçal e o proíba de fazer campanha eleitoral.

Pablo Marçal: Serei escudeiro de Flávio Bolsonaro se for preciso

Em entrevista ao Estadão, influenciador diz que Jair Bolsonaro teria perdido no 1º turno sem sua ajuda em 2022. Crédito: Fotografia e som: Isabella Almada | Edição: Mariana Cury

A candidatura vai ser derrubada cedo ou tarde. Contudo, o tempo até que isso aconteça fará bastante diferença. O grupo de Flávio conta com Marçal como “escudo”, como o próprio ex-coach declarou publicamente que pretende ser. Enquanto continuar concorrendo, ele vai turvar o processo e atrasar outros candidatos à direita, tirando espaço e votos deles. Sobretudo de Renan Santos (Missão), que igualmente batalha pelo chamado eleitor antissistema. Mesmo que depois a candidatura seja derrubada, o tempo e o espaço no noticiário e no debate público perdidos por esses outros nomes - e nas pesquisas de intenção de voto - servirão para enfraquecer as candidaturas, o que é de interesse de Flávio.

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Além disso, Marçal fará o trabalho de bater abaixo da linha da cintura em Renan Santos e Lula, um trabalho que Flávio não quer fazer ou pois precisa dos votos do candidato do Missão no primeiro turno, ou porque quer fugir da imagem de agressividade cultivada pela família Bolsonaro.

Mas o tiro também poderia, num caso extremo, sair pela culatra. O TSE tem até o dia 14 de setembro, 20 dias antes da ida às urnas, para julgar a candidatura de Marçal. Assim, em tese, o assunto estará resolvido antes da reta final da corrida ao Planalto. Contudo, se o ex-coach insistir e tentar prorrogar o processo por meio de recursos, poderia acabar resistindo sub-júdice até as vésperas das eleições ou ter seu nome até mesmo na urna.

Neste último caso, Marçal poderia receber votos que tiraria sobretudo desses outros nomes à direita. Depois, com a candidatura sendo derrubada, esses votos seriam tornados nulos. Isso reduziria o número de votos válidos e facilitaria um vitória de Lula, o primeiro colocado, no primeiro turno, o que no cenário atual é considerado improvável. A chance é remota, mas existe.

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Opinião por Ricardo Corrêa

Editor/Coordenador de política em São Paulo no Estadão e comentarista na rádio Eldorado. É jornalista com mais de duas décadas de experiência, formado pela Universidade Federal de Juiz de Fora e bacharel em Direito pela Escola Superior Dom Hélder Câmara. Escreve às quintas ou quando o noticiário assim exigir.