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Cuidados para um sono de qualidade 

Cuidados para um sono de qualidade 

A prevenção de um AVC começa com noites bem dormidas

Pausas respiratórias, engasgos noturnos e sonolência durante o dia podem indicar alterações vasculares que merecem atenção

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Foto do autor Andrea Bacelar

O ronco atravessa a noite, a respiração para por alguns segundos e o sono continua. Pela manhã, vêm o cansaço e a sensação de que o sono não foi suficiente. Muitas famílias convivem com essa cena durante anos, sem imaginar que ela pode revelar um problema relacionado à saúde dos vasos sanguíneos e do cérebro.

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O Dia Mundial do Acidente Vascular Cerebral, celebrado nesta quinta-feira, 29 de outubro, é uma oportunidade para trazer o sono no centro da prevenção. A campanha de 2026 da Organização Mundial do AVC reforça que cada minuto conta diante dos sintomas. Antes da emergência, porém, também precisamos reconhecer condições que merecem investigação e acompanhamento.

Quando se fala em AVC, o controle da pressão arterial, do diabetes e do colesterol, assim como o abandono do cigarro, costuma ocupar o centro das orientações. Esses cuidados continuam essenciais. Mas a avaliação do sono deve integrar esse olhar, especialmente quando há suspeita de apneia obstrutiva.

Sono de qualidade tem tudo a ver com a saúde do cérebro Foto: vetre/Adobe Stock

O que é a apneia obstrutiva do sono

Nesse distúrbio, a passagem do ar pelas vias aéreas superiores fica parcial ou completamente obstruída repetidas vezes durante o sono. Os episódios podem provocar quedas na oxigenação, despertares breves e oscilações na atividade do sistema nervoso que regula funções como a frequência cardíaca e a pressão arterial.

Uma declaração científica da Associação Americana do Coração destaca a relação da apneia com doenças cardiovasculares e sua frequente falta de reconhecimento na prática clínica.

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Isso ajuda a compreender por que o ronco habitual, sobretudo quando acompanhado de pausas respiratórias observadas por outra pessoa, merece atenção. A pessoa pode acreditar que dormiu a noite inteira, enquanto sua respiração e seu sono sofreram interrupções recorrentes.

O sono e o AVC

A relação entre sono e AVC também aparece em pesquisas que vão além da apneia. Uma análise do estudo internacional INTERSTROKE, publicada em 2023 na revista Neurology, avaliou 4.496 participantes, incluindo pessoas que haviam apresentado um primeiro AVC e outras sem histórico da doença. Os pesquisadores identificaram associações entre AVC e características como sono muito curto ou prolongado, baixa qualidade do descanso, ronco e pausas respiratórias relatadas.

Esses resultados precisam ser interpretados com cuidado. O estudo é observacional e não demonstra que uma determinada duração do sono, isoladamente, cause AVC. Alterações do sono podem indicar doenças preexistentes, compartilhar fatores de risco ou participar de uma relação mais complexa com a saúde vascular. Dormir muitas horas, por exemplo, pode ser um sinal de que algo precisa ser investigado, e não uma razão para reduzir o sono por conta própria.

A mensagem prática é prestar atenção ao padrão que se repete. Ronco frequente, engasgos durante a noite, pausas na respiração e sonolência excessiva durante o dia justificam uma avaliação realizada pelo médico do sono. A avaliação clínica define se há necessidade de estudar o sono com a polissonografia, e qual abordagem é mais adequada.

Quando a apneia é diagnosticada, o tratamento depende de sua gravidade e das características de cada pessoa. Pode envolver medidas comportamentais, controle de peso quando indicado, aparelhos intraorais, cirurgias e o CPAP, equipamento que fornece ar sob pressão para manter as vias aéreas abertas. O acompanhamento permite verificar a eficácia e ajustar a terapia.

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É necessário, contudo, evitar promessas. Tratar a apneia não oferece garantia de que um AVC será evitado. As evidências sobre o quanto o CPAP reduz eventos vasculares ainda apresentam limitações. Isso não diminui a necessidade de tratar um distúrbio diagnosticado; reforça que o cuidado deve reunir várias medidas, sem abandonar o controle dos demais fatores de risco.

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Também precisamos dar espaço ao sono nas consultas. Perguntar sobre horários, qualidade do descanso e respiração durante a noite pode revelar queixas que o paciente nunca considerou relevantes. Quem compartilha o quarto pode contribuir com informações sobre roncos e interrupções respiratórias.

Por fim, nenhuma discussão sobre a prevenção de um AVC substitui o reconhecimento da emergência. Fraqueza súbita de um lado do corpo, alteração da fala, perda de visão ou desequilíbrio de início repentino exigem atendimento imediato. A orientação é acionar o SAMU pelo número 192. Não se deve esperar que os sintomas passem. Tempo é cérebro!

No Dia Mundial do AVC, conhecer esses sinais pode salvar vidas. Ampliar a atenção ao que acontece durante a noite também faz parte do cuidado. O ronco repetido, as pausas respiratórias e o cansaço persistente merecem deixar de ser apenas comentários da família e se tornar assunto de consulta.

Opinião por Andrea Bacelar

Diretora médica da Clínica Bacelar, doutora em Neurologia, especialista em Medicina do Sono e membro titular da Academia Brasileira do Sono (ABS)

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